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João Baptista, Chief Sales Officer da SoDrive
Opinião
João Baptista, Chief Sales Officer da SoDrive

O carro novo já não se escolhe, simula-se

Há uma pergunta que surge hoje nos stands antes da potência, da cor ou do número de ecrãs: “Quanto fica a prestação?”

Há uma pergunta que surge hoje nos stands antes da potência, da cor ou do número de ecrãs: “Quanto fica a prestação?”

Não é particularmente romântica. Ninguém teve, aos 12 anos, um poster de uma TAEG na parede do quarto. Mas esta pergunta explica melhor o mercado automóvel atual do que muitas apresentações com música épica, fumo artificial e um SUV do tamanho aproximado de um apartamento em Lisboa.

A indústria continua a vender tecnologia. O consumidor procura previsibilidade. Quer saber quanto paga, quanto gasta, onde carrega e quanto valerá o automóvel quando chegar o momento de o trocar. Não é resistência à inovação. É o resultado natural de comprar um bem caro num país onde o orçamento familiar raramente tem autonomia ilimitada.

Segundo a ACAP, as matrículas de veículos novos cresceram 10,4% no primeiro semestre de 2026 face ao período homólogo. Nos ligeiros de passageiros, os elétricos atingiram uma quota de 25,3%.

O futuro parece ter chegado. O problema é que estacionou ao lado de um parque automóvel com mais de seis milhões de ligeiros de passageiros e uma idade média próxima dos 14 anos. Discutimos atualizações remotas enquanto muitos portugueses conduzem carros de uma época em que “conectividade” significava o rádio apanhar a frequência certa e o leitor de CDs não saltar nas lombas.

Acredito que este desfasamento não revela falta de interesse. Revela dificuldade no acesso a automóveis mais recentes. Para muitas famílias, o carro não é luxo, estatuto ou prazer de condução. É uma infraestrutura privada para trabalhar, levar os filhos à escola e viver onde os transportes públicos são escassos ou inexistentes.

Segundo o Banco de Portugal, em 2025 foram celebrados 242 mil contratos de crédito automóvel, mais 8% do que em 2024. Em 72% dos casos, o montante ficou abaixo dos 20 mil euros. Na minha leitura, este dado mostra que o consumidor não está a escolher entre o bom e o excelente. Está a tentar conciliar necessidade, desejo e uma prestação que não transforme cada fim do mês num teste de resistência.

O problema é que a prestação pode fazer parecer acessível aquilo que apenas foi dividido por mais meses. No terceiro trimestre de 2026, a TAEG máxima no crédito para veículos usados é de 14,1%, contra 10,9% nos novos. Explicar o prazo, os juros, as comissões e o montante total não deve ser um detalhe administrativo. Deve fazer parte da venda.

Também a eletrificação precisa de pragmatismo. A rede MOBI.E tinha, em fevereiro de 2026, 14.311 pontos de carregamento, mas 86% dos proprietários de veículos eletrificados inquiridos pelo ACP carregam em casa. O elétrico pode ser uma escolha extraordinariamente racional para quem tem tomada, trajetos compatíveis e orçamento, mas para os restantes a equação exige outras contas.

Julgo que o futuro do sector pertencerá a quem transformar complexidade em segurança. O que significa que exigirá menos discurso sobre cavalos e mais clareza sobre custos, utilização e adequação às necessidades reais.

Porque o carro do futuro não será necessariamente o mais rápido ou tecnológico. Será aquele que o cliente compreende, consegue pagar e continua a considerar uma boa decisão depois de desaparecer o entusiasmo do test-drive.