Gasolina a 2,20 ou 2,30 euros por litro? Se o petróleo chegar aos 150 dólares por barril, esse poderá nem ser o maior problema. Num cenário extremo de forte perturbação da oferta, Portugal e o resto da Europa poderão enfrentar uma questão bem mais grave: garantir que existe combustível disponível e decidir que setores devem ter prioridade no acesso.
É o alerta deixado ao Automonitor por Pedro Silva, especialista em energia da DECO PROteste, perante um cenário em que o Brent já regressou à casa dos 100 dólares por barril e em que o Bank of America admite que a cotação possa chegar aos 150 dólares se o conflito se agravar e provocar novos danos nas infraestruturas energéticas.
“Num cenário extremo emerge um problema que transcende o preço, seria um problema de acesso”, explica Pedro Silva.
E é aqui que a discussão muda de escala.
“Esta subida de preço traduz um total desequilíbrio de oferta e procura, com potencial de fenómenos de açambarcamento e outro tipo de comportamentos de pânico. O tema deixa de ser o preço por litro, mas de como racionar o produto e assegurar acesso a serviços importantes como bombeiros, setores de transporte críticos, acautelando sempre um grau de segurança de reservas estratégicas evitando a paralisia do país”, alerta.
Brent está nos 100 dólares. Porque estamos já a pagar tanto?
Antes de chegar ao cenário extremo dos 150 dólares, existe uma pergunta mais imediata para os automobilistas portugueses.
Se em 2022 o Brent chegou perto dos 120 dólares por barril, porque é que agora, com a matéria-prima em torno dos 100 dólares, os preços nos postos já se aproximam dos valores registados naquela altura?
Pedro Silva considera que esta comparação mostra precisamente como a atual crise energética é diferente das anteriores.
“Não é possível estimar a magnitude desse impacto com exatidão, até porque um dos problemas que emerge deste conflito é uma enorme disrupção na cadeia de refinação.”
O especialista recorda que, em 2022, com o Brent próximo dos 120 dólares, os combustíveis atingiram valores na ordem dos 2,10 euros por litro, semelhantes aos observados atualmente.
“Aqui existe o primeiro problema de extrapolação, pois ao dia de hoje estamos com preços idênticos nos postos de abastecimento, mas com o barril nos 100 dólares”, sublinha.
Tradicionalmente, uma parte dessa diferença poderia ser explicada pela relação entre o dólar, moeda em que o petróleo é negociado, e o euro. Mas Pedro Silva salienta que esse fator não resolve o atual paradoxo.
A relação cambial é hoje mais favorável, refere, eliminando-a isoladamente como explicação para a discrepância.
O preço do barril já não conta toda a história
É precisamente aqui que surge uma das grandes diferenças desta crise.
O preço do Brent continua a ser uma referência fundamental, mas deixou de permitir, por si só, antecipar com segurança quanto irá custar a gasolina ou o gasóleo no posto de abastecimento.
Segundo Pedro Silva, o atual conflito está a atingir não apenas a circulação do petróleo, mas a própria capacidade de o transformar nos produtos de que a Europa necessita.
“Existe uma diminuição significativa na capacidade de refinação”, explica, apontando não apenas para o Médio Oriente, mas também para a Rússia.
A esta situação junta-se, segundo o especialista da DECO PROteste, um “desinvestimento de décadas na Europa” em infraestruturas de refinação, que aumentou a dependência do continente em relação ao exterior.
E há um combustível particularmente exposto: o gasóleo.
A Europa necessita de recorrer a outras geografias para satisfazer parte da procura, tornando-se mais vulnerável quando as cadeias internacionais de abastecimento são perturbadas.
Tudo isto está a provocar aquilo que Pedro Silva descreve como um “desacoplamento entre flutuações do Brent e dos refinados” no curto e médio prazo.
Por outras palavras: o barril pode subir ou descer e essa variação já não se traduz necessariamente de forma proporcional no preço final pago pelo automobilista.
E há Ormuz
Sobre toda esta pressão paira ainda o estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do mundo.
Pedro Silva aponta para uma redução do acesso ao mercado global de cerca de 20% do petróleo e respetivos derivados associada ao bloqueio da passagem.
Mas o efeito não se limita aos barris que deixam de circular.
Mesmo o petróleo que consegue chegar aos mercados enfrenta custos adicionais relacionados com transporte, fretes e seguros, acrescentando novas pressões ao preço final dos produtos refinados.
É por isso que o especialista aceita uma conclusão — os preços enfrentam pressão para continuar a subir — mas recusa transformar essa tendência numa previsão concreta para gasolina e gasóleo.
“É possível afirmar que a instabilidade vai manter uma tendência altista nos preços dos combustíveis, por via dos custos exógenos, mas não fazer previsões com grau de confiança elevado de valores finais.”
E se o Brent chegar mesmo aos 150 dólares?
É neste contexto que o cenário avançado pelo Bank of America ganha outra dimensão.
Uma subida do Brent até aos 150 dólares não significaria simplesmente acrescentar alguns cêntimos ao preço atual da gasolina ou do gasóleo. Segundo Pedro Silva, uma cotação dessa dimensão seria o reflexo de um desequilíbrio muito mais profundo entre aquilo que o mundo procura e aquilo que consegue colocar no mercado.
E, nesse ponto, poderiam surgir comportamentos de pânico e açambarcamento.
A prioridade deixaria então de ser apenas amortecer a fatura das famílias. Passaria também por garantir combustível a setores essenciais, incluindo bombeiros e transportes críticos, preservar reservas estratégicas e impedir que uma escassez prolongada comprometesse o funcionamento do país.
“O tema deixa de ser o preço por litro, mas de como racionar o produto”, resume Pedro Silva.
Baixar o ISP chegaria?
O Governo tem instrumentos que pode utilizar para reduzir parte do impacto dos preços dos combustíveis, nomeadamente através da carga fiscal e de determinadas obrigações legais.
Pedro Silva reconhece essa margem, mas deixa uma ressalva importante: quanto mais extremo for o choque internacional, menor será a capacidade de Portugal para resolver isoladamente o problema.
“Num cenário extremo, a possibilidade de um Estado-Membro da União Europeia reagir de forma individual e voluntarista dificilmente seria o suficiente perante a dimensão global do problema.”
A questão deixaria, portanto, de ser exclusivamente portuguesa.
Para Pedro Silva, perante uma crise desta dimensão, “a União Europeia seria sem dúvida a única salvaguarda, perante uma total impossibilidade de respostas individuais de cada Estado-membro neste contexto tão adverso”.
Enquanto isso, como gastar menos combustível?
Para quem depende diariamente do automóvel, há pouco que possa ser feito para influenciar a cotação do Brent, a capacidade das refinarias ou aquilo que acontece no estreito de Ormuz. Mas é possível reduzir o consumo.
A DECO PROteste recomenda, entre outras medidas, verificar regularmente a pressão dos pneus, utilizar corretamente a caixa de velocidades e moderar a velocidade, salientando que uma redução de 10 km/h pode ajudar a diminuir o consumo.
A organização disponibiliza também um conjunto de recomendações de condução eficiente para ajudar os consumidores a reduzir a fatura enquanto os preços permanecerem elevados.
Mas, se o cenário extremo se concretizar, a dimensão do problema será outra.
Com o Brent nos 100 dólares, a pergunta dos automobilistas é até onde poderá subir o preço na bomba. Aos 150 dólares, num contexto de forte disrupção da oferta, Pedro Silva deixa claro que poderá ser necessário fazer uma pergunta muito diferente.
Não quanto custa encher o depósito, mas quem consegue fazê-lo.






