Dois lugares, duas portas que se abrem para cima e nenhum volante ou pedal à vista. Dois anos depois de ter mostrado pela primeira vez o Cybercab, a Tesla colocou finalmente o seu robotáxi especificamente concebido para condução autónoma a transportar passageiros nas ruas de Austin, no Texas.
A estreia aconteceu esta quinta-feira, num evento privado que acabou por ser bastante mais discreto do que muitos seguidores da marca esperavam. Mais de dois milhões de visualizações chegaram a estar contabilizadas no X por utilizadores que aguardavam uma transmissão em direto, mas esta nunca aconteceu, segundo relatou a ‘Forbes’.
Mais importante do que o evento, porém, é aquilo que já está a acontecer fora dele: o Cybercab começou a realizar viagens na área de Austin abrangida pelo serviço Robotaxi da Tesla.
É a primeira entrada em serviço do automóvel apresentado por Elon Musk em outubro de 2024 e construído desde o início sem comandos convencionais para um condutor.
Nem volante, nem pedais
Ao contrário dos Model Y que a Tesla tem utilizado até agora no seu serviço de robotáxis, o Cybercab foi desenvolvido exclusivamente para viagens autónomas.
O modelo tem apenas dois lugares e dispensa volante e pedais, dependendo do sistema de condução autónoma da Tesla para circular. A marca continua a apostar essencialmente em câmaras e inteligência artificial para interpretar o ambiente em redor do veículo, em contraste com concorrentes que recorrem também a sensores como lidar.
Documentação apresentada à Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) revela igualmente alguns dos números do Cybercab.
O modelo pesa cerca de 1.412 kg e utiliza uma bateria de aproximadamente 48 kWh, associada a um único motor elétrico dianteiro com 163 kW, equivalentes a 219 cv.
Nos testes laboratoriais submetidos à EPA surgiu uma autonomia combinada não ajustada de 418,2 milhas, cerca de 673 quilómetros. Este número não corresponde, contudo, à autonomia oficial que seria apresentada ao consumidor: trata-se do resultado bruto do ensaio antes da aplicação dos fatores de correção utilizados pela EPA.
Por enquanto, são apenas 45
A dimensão da estreia ajuda também a colocar as ambições da Tesla em perspetiva.
De acordo com os registos do Texas citados pela ‘Reuters’, existem atualmente apenas 45 Cybercab registados no estado. No total, a Tesla tem 420 veículos autónomos registados no Texas.
A produção do Cybercab arrancou em abril, mas Elon Musk já tinha avisado que o aumento do ritmo seria gradual. A intenção da empresa é transformar progressivamente este modelo no principal veículo da sua futura rede de robotáxis.
A Tesla já operava um serviço limitado utilizando Model Y autónomos, inicialmente lançado em Austin em junho de 2025 e posteriormente alargado a outras cidades.
Em julho, a fabricante revelou que a sua frota tinha acumulado mais de 380 mil milhas, cerca de 611 mil quilómetros, de condução não supervisionada em seis cidades do Texas e da Florida.
Waymo ainda está muito à frente
A entrada do Cybercab em serviço representa um passo importante para a estratégia de Elon Musk, mas a Tesla ainda tem muito terreno para recuperar perante a principal rival.
A Waymo, controlada pela Alphabet, opera uma frota de robotáxis substancialmente maior e afirma ter ultrapassado 220 milhões de milhas — cerca de 354 milhões de quilómetros — em condução totalmente autónoma até ao final de março deste ano.
No Texas, a diferença também é visível: segundo a ‘Reuters’, a Waymo tinha 988 veículos autónomos registados no estado, contra 420 da Tesla, dos quais apenas 45 eram Cybercab.
A Zoox, pertencente à Amazon, é outro dos concorrentes. Tal como o Cybercab, o veículo desenvolvido pela empresa foi concebido desde a origem sem volante ou pedais.
Reguladores já estão atentos
A ausência desses comandos tradicionais é precisamente um dos obstáculos que a Tesla terá de ultrapassar para transformar os primeiros 45 Cybercab numa frota de grande escala.
As regras federais dos EUA impõem limitações aos veículos que não cumprem determinados requisitos de segurança concebidos para automóveis com comandos convencionais, e a Tesla continua sem algumas das autorizações necessárias para operar serviços totalmente autónomos em mercados importantes, como a Califórnia.
A National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), autoridade de segurança rodoviária dos EUA, confirmou entretanto que está a avaliar a entrada em serviço do Cybercab.
A ‘Reuters’ avançou esta sexta-feira que o regulador abriu uma avaliação sobre cerca de mil Cybercab para determinar a conformidade dos veículos com as normas federais de segurança, precisamente devido à ausência de elementos como volante, pedais e espelhos convencionais.
O desafio para a Tesla passa agora, portanto, por transformar aquilo que já consegue fazer em Austin numa operação de grande escala.
Elon Musk tem defendido há vários anos que a condução autónoma será um dos principais motores do futuro da Tesla e chegou a apontar o Cybercab como um candidato a tornar-se o veículo de maior volume da empresa.
Por enquanto, a revolução começa numa escala bem mais modesta: 45 Cybercab, dois lugares em cada um e nem um volante entre eles.






