Há marcas automóveis que desaparecem e dificilmente voltam a ser vistas. A Bristol Cars parecia destinada a fazer parte desse grupo desde 2011, quando entrou em administração e deixou de produzir automóveis. Quinze anos depois, a histórica fabricante britânica prepara-se para regressar — e escolheu uma forma pouco discreta de o fazer.
O primeiro automóvel desta nova vida será o Bristol Fighter, um excêntrico desportivo com portas em asa de gaivota e um enorme motor V10 de 8,0 litros com origem no Dodge Viper. A produção vai ser retomada no Reino Unido, confirmou esta quarta-feira a marca, numa operação que pretende ser apenas o primeiro passo para o aparecimento de novos modelos nos próximos anos.
O momento tem também um significado histórico: o regresso acontece precisamente 80 anos depois do Bristol 400, o primeiro automóvel da marca, apresentado em 1946.
Um V10 de 8,0 litros e apenas 13 carros registados
O Fighter apareceu originalmente em 2004 e era tudo menos convencional.
Desenhado pelo antigo engenheiro da Brabham na Fórmula 1 Max Boxstrom, combinava uma carroçaria particularmente estreita e aerodinâmica com portas em asa de gaivota e um motor V10 de 8,0 litros derivado do Dodge Viper.
Na configuração original, o motor desenvolvia cerca de 525 cv, existindo posteriormente versões com potência próxima dos 600 cv. A Bristol anunciava uma velocidade máxima que podia chegar aos 338 km/h.
Havia planos ainda mais extravagantes. A marca chegou a anunciar o Fighter T, equipado com dois turbos e mais de 1.000 cv, para o qual eram reivindicadas prestações ainda mais extremas. O projeto, contudo, nunca chegou à produção.
O Fighter convencional também é uma raridade absoluta. Os números exatos são difíceis de estabelecer devido ao tradicional secretismo da Bristol, mas a Autocar refere que apenas 13 exemplares terão sido registados antes de a produção terminar em 2011.
E é precisamente aí que começa a história do seu inesperado regresso.
Cinco carros ficaram por terminar
A nova Bristol não vai começar por desenvolver uma interpretação moderna do Fighter.
Quando a produção terminou, ficaram por concluir cinco exemplares. Os novos responsáveis pela empresa confirmaram agora a existência desses automóveis e decidiram terminar o trabalho iniciado há quase duas décadas.
Um já está pronto e faz a sua estreia pública esta semana no Salon Privé, no Palácio de Blenheim, no Reino Unido. É preto, com interior castanho. Os restantes quatro poderão ser configurados de acordo com as preferências dos compradores.
Serão construídos no Reino Unido em colaboração com um fabricante britânico cujo nome não foi revelado, recorrendo aos desenhos de engenharia e componentes originais.
E há uma particularidade ainda mais curiosa: apesar de serem concluídos em 2026, os carros terão matrícula correspondente a 2008, ano em que são tecnicamente considerados como tendo sido construídos. Serão homologados individualmente através do sistema britânico Individual Vehicle Approval e estarão disponíveis com volante à direita ou à esquerda.
Não se trata, portanto, de cinco réplicas modernas nem propriamente de uma habitual série “continuation”. São os últimos automóveis de um programa de produção que ficou interrompido durante 15 anos.
A própria Bristol descreve-os como uma ponte entre aquilo que a empresa foi e aquilo que pretende voltar a ser.
Uma das marcas mais excêntricas do Reino Unido
A escolha do Fighter para iniciar a ressurreição faz ainda mais sentido quando se olha para a história da empresa.
A Bristol Cars nasceu ligada à Bristol Aeroplane Company, fabricante britânica de aviões, e apresentou o primeiro automóvel, o Bristol 400, em 1946. Ao longo das décadas seguintes ganhou reputação por fabricar carros luxuosos em quantidades muito reduzidas e por seguir uma filosofia bastante diferente da restante indústria.
Durante anos, a empresa foi conhecida também pelo seu invulgar secretismo. A produção era pequena, os clientes muito selecionados e a Bristol nunca tentou competir em volume com fabricantes britânicos como Aston Martin, Bentley ou Jaguar.
A Top Gear chegou a resumir a personalidade da empresa de forma particularmente reveladora quando esta entrou em administração em 2011: a Bristol era tão excêntrica que conseguia fazer a Morgan parecer uma fabricante convencional.
Depois do colapso, os direitos sobre a marca mudaram de mãos e houve uma tentativa de regresso com o Bristol Bullet, apresentado em 2016. O modelo, porém, nunca chegou à produção em série.
É por isso que o anúncio de agora tem um significado diferente: desta vez há efetivamente um Bristol construído e apresentado ao público.
E depois do Fighter?
É aqui que a história fica ainda mais interessante.
Os cinco Fighter não são apresentados como o objetivo final da operação. A Bristol garante que representam apenas o “primeiro passo” do regresso da marca.
Os planos concretos permanecem, para já, em segredo, mas a ‘Autocar’ avança que poderão surgir outros automóveis nos próximos anos, incluindo modelos completamente novos e não apenas recuperações de projetos históricos.
A nova fase está a ser liderada pelo proprietário e diretor Paul King, acompanhado pelo presidente Richard Hackett, profundo conhecedor da Bristol e antigo colaborador do histórico responsável da empresa Tony Crook.
O preço dos cinco Fighter também não foi revelado. É praticamente certo, porém, que será bastante superior às 235 mil libras pedidas pelo modelo quando era novo — cerca de 270 mil euros à conversão atual — sobretudo tendo em conta que apenas quatro lugares de produção continuam disponíveis.
Quinze anos depois de a produção ter parado, a Bristol escolheu assim terminar exatamente onde ficou: com um automóvel estranho, raríssimo, equipado com portas em asa de gaivota e um V10 de 8,0 litros.
Só depois começará verdadeiramente a descobrir-se como será a Bristol do século XXI.









