Há lugares aos quais os motociclistas não chegam por acaso. Em Mandello del Lario, junto ao Lago de Como, em Itália, existe um portão vermelho que há mais de um século separa a estrada de uma das fábricas de motos mais famosas do mundo. Está ali desde 1921.
Foi por aquele portão que passaram sucessivas gerações de trabalhadores da Moto Guzzi. E é também ali que, ao longo dos anos, motociclistas vindos de todo o mundo começaram a parar, fotografar as suas motos e visitar o local onde elas nasceram.
Neste fim de semana voltaram aos milhares. A Moto Guzzi celebra 105 anos e abriu as portas da sua casa completamente transformada depois de quase cinco anos de obras e um investimento superior a 50 milhões de euros. Mas há uma decisão que talvez diga mais sobre a marca do que todo esse dinheiro: a Moto Guzzi continua exatamente onde estava.
As motos continuarão a ser produzidas em Mandello del Lario, no mesmo complexo industrial onde começaram a sair da fábrica em 1921.
Uma fábrica nova construída dentro da história
Não se tratou simplesmente de restaurar edifícios antigos.
O projeto liderado pelo arquiteto Greg Lynn acrescentou 5.500 metros quadrados de novos edifícios industriais, levando a área fabril total para 38 mil metros quadrados. Foram ainda criados 380 metros quadrados de escritórios e mais de 4.200 metros quadrados de espaços multifuncionais abertos ao público.
E a capacidade produtiva aumenta substancialmente.
A nova fábrica pode produzir mais de 30 mil motos por ano, praticamente duplicando a capacidade máxima anterior, segundo os responsáveis ouvidos pela ‘Associated Press’.
Há linhas automatizadas de montagem de motores, um sistema robotizado que liga essa área à montagem final e até pequenos robots terrestres desenvolvidos pela Piaggio Fast Forward que recebem as motos no final da linha e as transportam para os testes finais.
Parece uma fábrica do futuro. Mas há uma parte onde os robots não entram.
“É uma peça de arte”
A montagem das motos continua a depender fortemente das mãos de quem ali trabalha.
“Moto Guzzi é feita à mão, é um produto artesanal, é uma peça de arte”, explicou à ‘Associated Press’ Matteo Boddi, responsável de produção do Grupo Piaggio. A automação, acrescentou, não substitui essa parte central do processo: serve sobretudo para aumentar a segurança e sustentabilidade da produção. É uma distinção importante.
Quem visitar a fábrica pode agora observar precisamente esse trabalho através de novos pontos de observação, vendo as motos serem montadas enquanto percorre um espaço pensado simultaneamente como unidade industrial e destino turístico.
Até o edifício procura ligar as duas coisas. Há 1.300 metros quadrados de painéis fotovoltaicos, utilização reforçada de luz natural e os novos edifícios cumprem requisitos de eficiência energética Classe A.
Mas o antigo portão vermelho da Via Parodi ficou onde sempre esteve. A Moto Guzzi decidiu preservá-lo como símbolo da continuidade entre aquilo que existia e aquilo que acaba de construir.
Mais de 160 motos contam o resto da história
Ao lado da fábrica nasceu também um novo museu com cerca de 3.000 metros quadrados. No interior estão mais de 160 motos restauradas, começando pela G.P., o protótipo único que esteve na origem da Moto Guzzi, e atravessando mais de um século de competição, viagens, cinema, veículos militares e policiais e modelos de estrada.
É possível encontrar também as máquinas associadas aos 14 títulos mundiais conquistados pela Moto Guzzi nas competições de motociclismo.
E uma das peças mais importantes do património da marca nem sequer tem duas rodas.
O histórico túnel de vento, inaugurado em 1954 e considerado revolucionário na indústria da época, foi restaurado e integrado no novo complexo.
A ideia é transformar Mandello não apenas no local onde se fabricam motos, mas num destino aberto durante todo o ano, com museu, loja, café, auditório, áreas para eventos e duas novas praças arborizadas.
E eles vieram
A primeira grande prova chegou praticamente no momento da inauguração.
Os Moto Guzzi World Days decorreram entre 3 e 6 de setembro e a marca anunciou a expectativa de receber dezenas de milhares de motociclistas e entusiastas de todo o mundo. Logo no primeiro dia, milhares atravessaram o famoso portão vermelho.
Neste sábado realizou-se a grande parada entre Lecco e Mandello del Lario, com milhares de Moto Guzzi a percorrerem em conjunto as estradas junto ao lago.
Alguns atravessaram continentes para estar ali.
A ‘Associated Press’ encontrou, por exemplo, Timothy Bennett, de 58 anos, vindo do estado da Geórgia, nos EUA. Comprou a primeira Moto Guzzi quando tinha pouco mais de 20 anos depois de ter visto uma numa revista, juntado dinheiro e encontrado uma 850-T usada.
Mais de três décadas depois, continua a ter uma Moto Guzzi e regressou pela segunda vez a Mandello del Lario.
Também encontrou Roland Rampnoux, membro de um clube parisiense com cerca de 150 aficionados da marca, que visita regularmente a fábrica desde 1980.
Para ele, a atração não está apenas nas máquinas. “Gosto da mentalidade das pessoas que as conduzem”, explicou à AP. E há outra coisa que considera difícil de replicar: quando aparece uma Moto Guzzi, reconhece-se imediatamente.
Mais do que uma fábrica
Mandello del Lario não é apenas o endereço que aparece nos documentos da Moto Guzzi. Ao fim de 105 anos, tornou-se parte da identidade da própria marca. É isso que ajuda a explicar por que razão milhares de motociclistas continuam a viajar até esta pequena localidade junto ao Lago de Como. Muitos chegam ao guiador de motos que saíram daquela fábrica há décadas. Outros atravessam países apenas para passar pelo histórico portão vermelho e conhecer o lugar onde a sua Moto Guzzi nasceu.
E é também isso que ajuda a perceber uma decisão que, vista apenas através dos números, poderia parecer pouco óbvia. O Grupo Piaggio investiu mais de 50 milhões de euros na modernização de Mandello del Lario quando poderia ter começado de novo noutro lugar. Preferiu reconstruir a fábrica sem cortar a ligação ao passado.
Mudaram as linhas de produção. Chegaram robots, painéis solares e novas tecnologias. A capacidade pode agora ultrapassar as 30 mil motos por ano. O museu cresceu e o complexo abriu-se ainda mais a quem quiser visitá-lo.
Mas o essencial ficou.
Quando uma nova Moto Guzzi chegar ao fim da linha de montagem, continuará a sair pelo mesmo lugar onde esta história começou em 1921.
E talvez seja por isso que, para tantos motociclistas, Mandello del Lario não é simplesmente uma fábrica.
É a casa da Moto Guzzi.












