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O silêncio está a sair caro à Harley-Davidson: aposta nas motos elétricas enfrenta futuro incerto

O silêncio está a sair caro à Harley-Davidson: aposta nas motos elétricas enfrenta futuro incerto
Automonitor

Situação ganhou uma nova dimensão esta quinta-feira, com a divulgação dos resultados financeiros da LiveWire, controlada maioritariamente pela Harley-Davidson.

O som inconfundível dos motores é uma das imagens de marca da Harley-Davidson. Mas o futuro elétrico que a fabricante imaginou está a revelar-se mais complicado do que o previsto. As motos silenciosas não conseguiram conquistar muitos dos motociclistas tradicionais e a LiveWire, empresa responsável pela aposta elétrica da marca, enfrenta agora dificuldades financeiras que colocam em dúvida a sua continuidade como negócio independente.

A situação ganhou uma nova dimensão esta quinta-feira, com a divulgação dos resultados financeiros da LiveWire, controlada maioritariamente pela Harley-Davidson.

Segundo o jornal espanhol ‘El Economista’, a resistência dos motociclistas mais fiéis à marca tem sido um dos obstáculos à aceitação das motos elétricas. Para muitos destes condutores, o som e as vibrações dos grandes motores de combustão fazem parte da experiência de condução.

Contudo, os problemas da LiveWire vão muito além da ausência do característico rugido de uma Harley-Davidson.

As vendas crescem, mas continuam muito longe das expectativas

Os resultados mais recentes mostram uma realidade contraditória.

No terceiro trimestre de 2026, a LiveWire comercializou 241 motos elétricas, um crescimento de 31% relativamente às 184 unidades registadas no mesmo período do ano anterior.

Apesar da evolução positiva, os números continuam a ser reduzidos para uma empresa que nasceu com a ambição de liderar a transformação elétrica do motociclismo.

Nos primeiros nove meses do ano, foram comercializadas 599 motos elétricas LiveWire, enquanto a Harley-Davidson registou mais de 111 mil vendas mundiais de motos da sua marca no mesmo período.

A comparação ilustra a diferença de escala entre o negócio tradicional e a aposta elétrica, embora os dois números correspondam a marcas e segmentos de mercado distintos.

A LiveWire registou receitas consolidadas de 7,9 milhões de dólares no terceiro trimestre, mas terminou o período com prejuízos líquidos de 18,6 milhões de dólares.

O problema não está apenas no barulho

Uma das dificuldades da LiveWire é conseguir convencer motociclistas habituados a motores de combustão a mudar para uma experiência de condução completamente diferente.

As Harley-Davidson tradicionais distinguem-se pelo som, pelas vibrações e por uma identidade construída ao longo de décadas. Nas motos elétricas, grande parte destas características desaparece, sendo substituída por uma aceleração imediata, funcionamento silencioso e ausência de mudanças convencionais.

Mas existem outros fatores que ajudam a explicar a procura limitada.

O preço elevado de alguns modelos, a autonomia disponível e a necessidade de planear os carregamentos continuam a representar obstáculos para quem utiliza a moto em viagens longas.

A LiveWire enfrenta ainda o desafio de conquistar um público diferente daquele que tradicionalmente compra uma Harley-Davidson.

A aposta elétrica pode interessar a motociclistas que valorizam o desempenho, a tecnologia e a facilidade de utilização, mas isso não significa que consigam substituir rapidamente os clientes mais fiéis aos modelos de combustão.

LiveWire admite dúvidas sobre a sua sobrevivência

A situação financeira tornou-se suficientemente preocupante para levar a empresa a reconhecer oficialmente a existência de dúvidas significativas sobre a sua capacidade de continuar a operar nos próximos 12 meses.

No comunicado de resultados divulgado esta quinta-feira, a LiveWire aponta os prejuízos recorrentes, os fluxos de caixa negativos e a necessidade de obter financiamento adicional como fatores que ameaçam a continuidade das operações.

A empresa terminou setembro com cerca de 39,9 milhões de dólares em caixa, menos de metade dos 82,8 milhões que tinha no final de 2025.

Perante este cenário, foi criada uma comissão especial para avaliar alternativas estratégicas, incluindo a entrada de investidores, novas parcerias, operações de financiamento, venda de ativos ou uma eventual reestruturação.

A LiveWire retirou também as suas previsões financeiras para 2026, que apontavam para prejuízos operacionais entre 70 e 80 milhões de dólares.

Isto não significa que o encerramento esteja decidido, mas confirma que a empresa enfrenta uma fase decisiva.

O futuro elétrico da Harley-Davidson ainda está por definir

A LiveWire nasceu da aposta da Harley-Davidson nas motos elétricas e tornou-se uma empresa autónoma em 2022, embora a fabricante continue a ser a sua principal acionista.

Desde então, procurou desenvolver uma identidade própria, afastando-se progressivamente da imagem tradicional da marca.

Mais recentemente, a estratégia passou também por modelos elétricos mais pequenos e acessíveis, como a gama S4 Honcho, numa tentativa de conquistar novos utilizadores.

Apesar das dificuldades, a LiveWire afirma deter cerca de 80% do mercado dos EUA de motos elétricas de estrada com potência superior a 50 kW, um segmento ainda relativamente pequeno.

O desafio é transformar essa posição num negócio financeiramente sustentável.

Para já, o contraste é evidente: enquanto a Harley-Davidson continua a depender das motos de combustão que construíram a sua reputação, a empresa criada para desenvolver o seu futuro elétrico procura financiamento para garantir a continuidade.

E a questão vai muito além do som dos motores. A LiveWire terá de demonstrar que existe procura suficiente para justificar uma aposta que, até agora, continua a acumular prejuízos.