O preço que aparece no enorme painel à entrada do posto é aquele que todos vemos. Mas não é necessariamente aquele que acaba por sair da carteira — e muito menos permite, sozinho, perceber se estamos a pagar mais ou menos do que seria expectável pelos combustíveis.
As novas contas da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) ajudam a responder à pergunta. E os dados mais recentes mostram algo curioso: apesar de gasolina e gasóleo continuarem caros, os consumidores estavam, em média, a abastecer abaixo do chamado Preço Eficiente nos dois combustíveis.
No gasóleo, a diferença chegou aos 7,8 cêntimos por litro.
Mas afinal quanto estamos a pagar a menos?
A ERSE calcula semanalmente o chamado Preço Eficiente, um referencial que procura refletir os principais custos associados à disponibilização de gasolina e gasóleo ao consumidor.
Depois compara-o com aquilo que acontece realmente no mercado.
Há, contudo, um desfasamento: os dados relativos aos preços efetivamente praticados dizem respeito à semana anterior àquela para a qual é calculado o novo Preço Eficiente.
Na informação mais recente disponível, os Preços com Descontos publicados pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) ficaram 1,7 cêntimos por litro abaixo do Preço Eficiente na gasolina 95 simples.
No gasóleo, a diferença foi muito maior: 7,8 cêntimos por litro abaixo.
Em termos percentuais, estamos a falar de valores 0,8% inferiores ao referencial na gasolina e 3,6% inferiores no gasóleo.
Num depósito de 60 litros são quase cinco euros
Alguns cêntimos por litro podem parecer pouco quando olhamos apenas para o painel do posto.
Multiplique-os por um depósito e a diferença torna-se mais fácil de perceber.
Na gasolina, 1,7 cêntimos por litro correspondem a 1,02 euros num abastecimento de 60 litros.
No gasóleo, 7,8 cêntimos representam 4,68 euros.
Isto não significa que todos os condutores tenham poupado exatamente estes valores. Estamos perante médias nacionais e cada posto pratica os seus próprios preços.
Mostra, contudo, que o preço médio efetivamente pago estava abaixo do referencial calculado pela ERSE — sobretudo no gasóleo.
Então estamos a pagar menos do que “devíamos”?
Sim, mas há uma explicação importante para aquelas aspas.
O Preço Eficiente não determina quanto um litro de gasolina ou gasóleo “deve” custar. Não é um preço regulado, máximo ou recomendado pela ERSE.
Os operadores continuam a definir livremente aquilo que cobram.
O Preço Eficiente funciona antes como uma régua.
Para chegar ao valor, a ERSE soma os principais custos associados à disponibilização dos combustíveis: preços nos mercados internacionais de referência e respetivos fretes marítimos, logística primária, reservas estratégicas e de segurança do Sistema Petrolífero Nacional, incorporação de biocombustíveis, componente de retalho e impostos.
Para as cotações internacionais é utilizada a média da semana anterior, enquanto a componente de retalho corresponde à média dos últimos quatro anos, tendo como base os preços anunciados.
É comparando esta referência com os preços do mercado que conseguimos perceber se, em média, os portugueses estão a abastecer acima ou abaixo dela.
O preço que vê no painel não é necessariamente aquele que paga
É aqui que aparece outra diferença importante.
A ERSE distingue o Preço de Pórtico do chamado Preço com Descontos.
O primeiro é aquele que o posto anuncia antes da aplicação de cartões, vales, descontos de frota ou outras campanhas comerciais.
O segundo incorpora esses benefícios e aproxima-se, por isso, mais do valor médio que efetivamente sai da carteira dos consumidores.
E os números mostram como olhar apenas para o painel pode contar uma história diferente.
Na semana analisada, o preço médio de pórtico da gasolina encontrava-se 1,1 cêntimos por litro acima do Preço Eficiente.
Depois dos descontos, porém, o preço médio efetivamente pago passava para 1,7 cêntimos abaixo do referencial.
No gasóleo, o preço médio anunciado já se encontrava 3,4 cêntimos por litro abaixo do Preço Eficiente. Depois dos descontos, a distância aumentava para 7,8 cêntimos.
Porque consegue um posto vender abaixo do Preço Eficiente?
Estar abaixo deste referencial não significa automaticamente que um posto esteja a vender combustível com prejuízo.
O cálculo da ERSE trabalha com componentes e médias destinadas a representar o mercado nacional. Cada operador tem, por sua vez, a sua estrutura de custos, logística, estratégia comercial e política de descontos.
E nem todos os postos funcionam da mesma maneira.
A média nacional inclui companhias de bandeira, que geralmente apresentam preços de pórtico mais elevados mas também descontos mais expressivos, operadores low cost e hipermercados, que tendem a apresentar ofertas mais competitivas.
É por isso perfeitamente possível encontrar diferenças significativas entre dois postos, mesmo que estejam relativamente próximos.
E agora? Gasolina desce, gasóleo sobe
Entretanto, já há um novo Preço Eficiente para a semana de 14 a 20 de setembro.
A gasolina 95 simples desce 1,2%, passando de 2,115 para 2,090 euros por litro.
O gasóleo segue precisamente no sentido contrário: sobe 2,3%, de 2,188 para 2,239 euros por litro.
A diferença entre ambos passa assim de 7,3 para 14,9 cêntimos por litro.
A explicação está sobretudo nos mercados internacionais. Segundo a ERSE, as cotações internacionais da gasolina 95 simples recuaram 3,5% na última semana, enquanto as do gasóleo aumentaram 3,9%.
Também houve alterações no ISP: a taxa aumentou cerca de 0,96 cêntimos por litro na gasolina e diminuiu aproximadamente 0,11 cêntimos no gasóleo, antes de IVA.
Há uma forma simples de saber se pode pagar menos
As médias nacionais servem para perceber aquilo que está a acontecer ao mercado, mas não respondem à pergunta mais importante quando chega o momento de abastecer: onde consegue pagar menos naquele momento?
Dois postos podem praticar valores bastante diferentes e os descontos disponíveis podem alterar novamente a conta.
Por isso, a ERSE disponibiliza um Comparador de Preços de Combustíveis, onde podem ser consultados os valores comunicados pelos postos.
E os números mais recentes deixam uma conclusão interessante: combustíveis caros não significam necessariamente que os consumidores estejam a pagar acima do referencial dos custos calculado pela ERSE.
Na última comparação disponível, acontecia precisamente o contrário nos dois combustíveis.
E, no gasóleo, havia quase oito cêntimos por litro de diferença.






