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Carros elétricos crescem, marcas chinesas avançam e fornecedores apertam o cinto: setor automóvel entra em zona de risco

Automonitor

É uma das conclusões do Sector Atlas 2026, da Allianz Trade, que coloca o setor automóvel na categoria de “risco sensível”, numa escala que contempla quatro níveis: baixo, médio, sensível e elevado

A indústria automóvel está a vender mais carros na Europa e os elétricos continuam a ganhar terreno, mas isso não significa necessariamente que as contas estejam a melhorar. Pelo contrário: a pressão sobre as margens, o avanço dos fabricantes chineses e a fragilidade crescente dos fornecedores estão a colocar o setor numa posição mais delicada.

É uma das conclusões do Sector Atlas 2026, da Allianz Trade, que coloca o setor automóvel na categoria de “risco sensível”, numa escala que contempla quatro níveis: baixo, médio, sensível e elevado.

A análise avalia 17 setores através de quatro dimensões — procura, rentabilidade, liquidez e ambiente de negócio — procurando medir o risco de não pagamento das empresas através de dados internos, fontes externas e análise especializada.

No caso do automóvel, a Allianz Trade considera que o problema já não está apenas na procura. Está, sobretudo, em saber quanto dinheiro a indústria consegue ganhar com os carros que está a vender.

Elétricos crescem, mas as margens sentem a pressão

As matrículas de automóveis na Europa aumentaram 6% no primeiro semestre de 2026, segundo os dados apresentados no estudo.

Os veículos 100% elétricos representaram 21% do mercado, contra cerca de 16% um ano antes.

À primeira vista, são números positivos para uma indústria que está a investir milhares de milhões de euros na eletrificação. O problema, segundo a Allianz Trade, está no novo mix de vendas.

Uma parte crescente da procura está a deslocar-se para automóveis elétricos mais baratos e para segmentos nos quais os incentivos continuam a ter um peso importante. Isso significa que aumentar as vendas não se traduz automaticamente numa melhoria equivalente da rentabilidade.

É precisamente aqui que surge outra pressão.

Marcas chinesas já chegaram aos 10,9%

Os fabricantes chineses atingiram em junho uma quota recorde de 10,9% do mercado europeu, de acordo com a Allianz Trade.

O crescimento aumenta a concorrência num mercado em plena transição e exerce pressão descendente sobre os preços, reduzindo simultaneamente a capacidade dos fabricantes europeus para repercutirem nos consumidores o aumento dos seus próprios custos.

A resposta, segundo a análise, terá de passar por mais do que recuperar volumes de vendas.

Os fabricantes terão de procurar proteger as margens através do mix de produtos, de maior eficiência operacional e de novas fontes de receitas — incluindo serviços digitais, software e dados.

O problema pode estar escondido atrás das grandes marcas

É, no entanto, mais abaixo na cadeia automóvel que a Allianz Trade identifica uma das maiores vulnerabilidades.

Os grandes fabricantes mantêm, de forma geral, níveis de liquidez considerados adequados. Entre os fornecedores, sobretudo nos níveis tier-2 e tier-3, o cenário é mais difícil.

Segundo o Sector Atlas 2026, 76% dos fornecedores europeus esperam trabalhar com margens inferiores a 5% este ano.

É um nível que, segundo a análise, fica abaixo do necessário para financiar simultaneamente inovação, os investimentos exigidos pela eletrificação e a adaptação tecnológica.

E essa transformação está longe de estar concluída.

Construir o carro do futuro custa dinheiro agora

A passagem para o veículo elétrico é apenas uma das frentes.

A indústria está simultaneamente a investir no desenvolvimento de automóveis cada vez mais definidos por software e a reorganizar cadeias de abastecimento num contexto internacional mais complexo.

Tudo isso exige capital numa altura em que as margens estão pressionadas.

Por isso, a Allianz Trade considera que o principal risco no curto prazo não está necessariamente em deixar de haver compradores para automóveis. Está na capacidade das empresas para financiarem a transformação, absorverem custos e manterem a estabilidade financeira enquanto essa mudança acontece.

Uma economia que avança a três velocidades

O automóvel integra um cenário económico mais abrangente traçado pelo Sector Atlas 2026.

A Allianz Trade prevê que o crescimento económico mundial abrande para 2,5% em 2026, antes de recuperar para 2,9% em 2027, mas identifica diferenças muito significativas entre setores.

Energia, defesa e semicondutores concentram uma parte importante do crescimento das receitas, enquanto setores mais cíclicos — entre os quais automóvel, construção, retalho, têxteis, transportes e químicos — continuam pressionados por custos, tarifas, financiamento e margens reduzidas.

Na Europa, essa diferença é particularmente visível: energia, defesa e semicondutores apresentam melhor desempenho, enquanto automóvel, transportes, retalho discricionário e metais permanecem sob pressão.

É aquilo que a Allianz Trade descreve como uma economia “a três velocidades”.

Para o automóvel, a contradição é particularmente evidente: a eletrificação avança, o mercado europeu cresce e os consumidores compram cada vez mais veículos elétricos. Mas, nos bastidores, a disputa pelo preço e o investimento necessário para construir a próxima geração de automóveis estão a tornar mais difícil ganhar dinheiro com eles.