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Explicador. Os híbridos plug-in estão mesmo a cumprir aquilo que prometem?

Automonitor

Os números oficiais ajudam: há modelos grandes e potentes homologados com consumos próximos de 1 ou 2 litros aos 100 quilómetros e emissões de CO2 surpreendentemente baixas

Um automóvel capaz de fazer dezenas — e, nos modelos mais recentes, mais de 100 — quilómetros sem gastar uma gota de gasolina, mas que mantém um motor de combustão para quando a bateria acaba. No papel, o híbrido plug-in parece reunir o melhor dos dois mundos.

Os números oficiais ajudam: há modelos grandes e potentes homologados com consumos próximos de 1 ou 2 litros aos 100 quilómetros e emissões de CO2 surpreendentemente baixas.

Mas estarão os híbridos plug-in realmente a cumprir aquilo que prometem?

Um estudo publicado pelo International Council on Clean Transportation (ICCT), baseado em dados de cerca de 920 mil híbridos plug-in matriculados na Europa entre 2021 e 2023, concluiu que as emissões reais destes automóveis são, em média, 4,6 vezes superiores aos valores oficiais.

E dados mais recentes, relativos aos PHEV matriculados em 2024 e analisados pela Transport & Environment (T&E), aumentam ainda mais a diferença: 145 gramas de CO2 por quilómetro em utilização real contra apenas 24 g/km nos valores oficiais.

Quase seis vezes mais.

Significa isto que os híbridos plug-in não funcionam? Não necessariamente. O problema começa na diferença entre a utilização que os testes pressupõem e aquilo que muitos condutores realmente fazem.

O que é afinal um híbrido plug-in?

Um PHEV (Plug-in Hybrid Electric Vehicle) combina um motor de combustão com um ou mais motores elétricos e uma bateria significativamente maior do que a de um híbrido convencional.

E há uma diferença fundamental: pode ser ligado à tomada.

A ideia é simples. Nas deslocações diárias, o condutor utiliza sobretudo a energia carregada na bateria e circula em modo elétrico. Quando precisa de fazer uma viagem longa, tem o motor de combustão disponível e não fica dependente de carregamentos.

Com alguns modelos atuais a anunciarem mais de 100 quilómetros de autonomia elétrica, um proprietário que percorra 30 ou 40 quilómetros por dia e carregue todas as noites pode passar grande parte da semana utilizando muito pouca gasolina.

É aqui que está a promessa do PHEV.

Como consegue então anunciar 1 ou 2 l/100 km?

Esta é a chave para perceber a discussão.

O consumo homologado de um PHEV não corresponde simplesmente à quantidade de gasolina que o motor térmico gasta quando está a funcionar.

O cálculo considera que uma determinada percentagem dos quilómetros será percorrida utilizando a energia carregada na bateria. Quanto maior a autonomia elétrica, maior poderá ser a proporção de utilização elétrica considerada.

É o chamado “utility factor”, ou fator de utilização.

O problema é que os dados dos próprios automóveis mostram que, na vida real, os proprietários não têm utilizado eletricidade tanto quanto os cálculos oficiais pressupunham.

No papel melhoraram. Na estrada, não

É aqui que os números do ICCT se tornam particularmente interessantes.

Nos híbridos plug-in matriculados em 2021, as emissões oficiais médias rondavam 37 g/km de CO2. Na utilização real, atingiam aproximadamente 130 g/km.

Em 2023, a tecnologia tinha evoluído e as emissões homologadas baixaram para 29 g/km.

As reais, porém, subiram para cerca de 134 g/km.

Ou seja, no papel as emissões diminuíram aproximadamente 22%. Na estrada, aumentaram ligeiramente.

A diferença entre homologação e realidade passou de cerca de 3,5 para 4,6 vezes.

Os dados relativos aos automóveis matriculados em 2024, analisados pela T&E, são ainda mais expressivos: 24 g/km oficialmente contra 145 g/km em utilização real.

Então os fabricantes estão a mentir?

Não é essa a conclusão que estes números permitem retirar.

Os fabricantes seguem procedimentos regulamentados de homologação. O problema está na diferença entre as condições previstas nesses testes e a utilização real.

E num híbrido plug-in essa diferença pode ser enorme.

Pense em dois proprietários do mesmo modelo.

Um faz 40 quilómetros por dia, tem uma tomada em casa e carrega todas as noites. Se o automóvel tiver 80 ou 100 quilómetros de autonomia elétrica, poderá fazer praticamente todas as deslocações quotidianas sem recorrer significativamente à gasolina.

O outro não consegue carregar em casa, liga o automóvel à tomada ocasionalmente e faz frequentemente grandes distâncias.

Têm o mesmo carro, mas podem acabar com consumos completamente diferentes.

E há o problema do peso

Um PHEV transporta praticamente dois sistemas de propulsão: bateria e motor elétrico, mas também motor de combustão, depósito de combustível e restantes componentes associados.

Isso acrescenta peso.

Se o automóvel for carregado frequentemente, essa bateria permite realizar muitos quilómetros sem utilizar gasolina e o compromisso pode compensar.

Se raramente vir uma tomada, o cenário muda. O motor de combustão terá de deslocar um automóvel pesado que transporta uma bateria cuja principal vantagem não está a ser aproveitada.

Há ainda outro pormenor: ter energia na bateria não significa necessariamente que o motor de combustão permaneça sempre desligado. Dependendo do modelo, das condições de utilização, da temperatura ou da potência exigida, o motor térmico pode entrar em funcionamento.

Então quando é que um PHEV compensa?

É provavelmente uma boa opção para quem:

consegue carregar regularmente em casa ou no trabalho;
faz diariamente distâncias inferiores à autonomia elétrica do automóvel;
realiza muitas deslocações curtas durante a semana;
mas também faz viagens longas e não quer depender exclusivamente da rede de carregamento.

Nesse cenário, o PHEV pode funcionar durante grande parte do tempo quase como um elétrico e utilizar a gasolina sobretudo quando é realmente necessária.

E quando pode não compensar?

O cenário oposto também é relativamente fácil de identificar.

Se não tem onde carregar regularmente, faz sobretudo grandes distâncias ou passa grande parte do tempo em autoestrada, vale a pena fazer muito bem as contas antes de escolher um plug-in.

Utilizá-lo quase sempre como um automóvel a gasolina elimina uma parte importante da vantagem de transportar uma bateria de grande capacidade.

E há um número que merece ser procurado antes da compra: o consumo do automóvel quando já não dispõe da carga elétrica inicial.

Esse valor pode ser bastante mais representativo para alguém que faça frequentemente viagens longas do que o espetacular 1 ou 2 l/100 km apresentado no consumo combinado homologado.

A Europa já está a mudar as contas

A distância entre homologação e utilização real tornou-se suficientemente grande para levar a União Europeia a rever os fatores utilizados no cálculo das emissões dos PHEV.

O objetivo é aproximar os valores oficiais da forma como estes automóveis são realmente utilizados, estando prevista uma nova correção em 2027.

A mudança também importa para os fabricantes, uma vez que as emissões homologadas dos PHEV entram nas contas utilizadas para determinar o cumprimento das metas europeias de CO2.

Antes de comprar, responda a cinco perguntas

Mais importante do que perguntar se um híbrido plug-in é bom ou mau é perceber se encaixa na sua vida.

– Tem onde o carregar regularmente?

– Quantos quilómetros faz diariamente?

– Essa distância cabe na autonomia elétrica do modelo?

– Quanto do seu percurso é feito em autoestrada ou em viagens longas?

– E quanto consome o automóvel depois de terminada a autonomia elétrica inicial?

As respostas provavelmente dizem mais sobre aquilo que vai gastar do que o número apresentado em destaque na ficha técnica.

Veredicto: os PHEV cumprem o que prometem?

Podem cumprir — mas há uma condição fundamental.

Um híbrido plug-in faz mais sentido quando é utilizado como aquilo que realmente é: um automóvel que deve ser carregado frequentemente e que permite reservar o motor de combustão sobretudo para quando a autonomia elétrica não chega.

Os dados europeus mostram que essa não tem sido, em média, a realidade.

Os 145 g/km de CO2 registados na utilização real dos PHEV matriculados em 2024, contra apenas 24 g/km oficialmente, revelam uma distância demasiado grande entre a homologação e aquilo que acontece na estrada.

Isso não significa que todos os proprietários emitam seis vezes mais do que esperavam. São valores médios de uma grande frota e a utilização individual pode ser radicalmente diferente.

É precisamente aí que está o veredicto.

Para quem consegue carregar praticamente todos os dias e faz a maioria das deslocações dentro da autonomia elétrica, um PHEV pode continuar a oferecer aquilo que promete: condução elétrica no quotidiano e liberdade do motor de combustão nas viagens longas.

Para quem raramente o vai ligar à tomada, a resposta é bastante diferente.

Antes de comprar um híbrido plug-in, talvez a pergunta mais importante não seja “quanto consome?”.

É esta: “Quantas vezes vou realmente carregá-lo?”