Quando Benno Graas comprou uma Royal Enfield Bullet 350 usada, no início dos anos 80, dificilmente imaginaria que aquela pequena moto acabaria por acompanhá-lo durante décadas de viagens pelo mundo. Com apenas 17 cv, um motor de 350 cm³ e uma mecânica de outra época, a máquina atravessou desertos, montanhas e estradas de vários continentes. Pelo caminho, acumulou mais de 580 mil quilómetros, o equivalente a mais de 14 voltas à Terra.
A história é contada pelo ‘L’Automobile Magazine’ e tem como protagonistas Benno e Thecla Graas, um casal neerlandês que decidiu descobrir o mundo sem depender de uma moto potente, moderna ou particularmente confortável.
A companheira de viagem escolhida foi uma Royal Enfield Bullet de 1982, comprada em segunda mão por um valor que corresponderia a menos de 2.000 euros atuais.
Quatro décadas depois, a mesma moto continua a ser o símbolo de uma aventura extraordinária.
Tudo começou com uma viagem de 8.000 quilómetros
Em 1984, Benno e Thecla decidiram partir numa primeira grande viagem pela Europa de Leste.
Percorreram cerca de 8.000 quilómetros, passando pela Polónia e pela antiga Checoslováquia, até às proximidades da fronteira com a Ucrânia.
A Bullet estava longe de ser a escolha mais confortável. O motor monocilíndrico de 350 cm³ desenvolvia aproximadamente 17 cv, uma potência modesta mesmo para os padrões da época.
As avarias também fizeram parte da experiência desde cedo. Mas Benno tinha uma vantagem importante: trabalhara como mecânico de veículos pesados e sabia identificar problemas, desmontar componentes e reparar a moto.
Em vez de procurar uma máquina mais potente, decidiu continuar a viajar com aquela que já conhecia.
Do Sahara ao Alasca, muitas vezes com uma remorque
As viagens tornaram-se progressivamente mais ambiciosas.
O casal atravessou África, percorreu a América do Norte desde o Alasca até ao México e aventurou-se pela América do Sul, incluindo a Patagónia e o Pantanal brasileiro.
Muitas destas viagens foram realizadas com os dois ocupantes na moto e uma pequena remorque destinada a transportar bagagem e equipamento.
Com apenas 17 cv, subir montanhas ou enfrentar terrenos difíceis exigia paciência. Em determinadas etapas, como nas montanhas do Peru, foi mesmo necessário descer e empurrar a Bullet.
Noutras ocasiões, a moto teve de recorrer a meios de transporte alternativos. Foi transportada num camião durante parte da travessia da Amazónia e embarcada num barco para subir o rio Nilo.
Houve também momentos verdadeiramente difíceis. Em 1992, Thecla contraiu malária durante uma viagem à Tanzânia e precisou de ser hospitalizada.
A aventura, afinal, estava muito longe das viagens organizadas em que tudo corre conforme o planeado.
Mas como é possível uma moto durar 580 mil quilómetros?
A resposta está na manutenção e nas reparações constantes.
Ao contrário do que o número impressionante de quilómetros pode sugerir, a Royal Enfield não percorreu toda essa distância com o motor e a transmissão originais intactos.
Ao longo dos anos, Benno substituiu peças, reparou componentes e introduziu melhorias para manter a moto em funcionamento.
A simplicidade mecânica da Bullet foi uma vantagem importante. Com um motor de carburador e poucos componentes eletrónicos, muitas intervenções podiam ser realizadas sem equipamentos especializados.
Isso não significa que a moto fosse indestrutível. Significa que podia ser reparada repetidamente, mesmo em locais afastados de oficinas.
A experiência profissional de Benno também foi decisiva para prolongar a vida da máquina e permitir que o casal continuasse a viajar.
Será que precisamos mesmo de motos tão potentes para viajar?
A história ganha uma dimensão curiosa quando comparada com o mercado atual.
Hoje, muitas motos de aventura ultrapassam os 100 cv, algumas chegam a superar os 150 cv e os equipamentos eletrónicos tornaram-se cada vez mais sofisticados.
A pequena Royal Enfield de Benno e Thecla não tinha controlo de tração, modos de condução ou sistemas avançados de assistência.
Também não oferecia o conforto, a capacidade de travagem ou a segurança de uma moto moderna.
Mas tinha algo que acabou por ser fundamental: uma mecânica relativamente simples, que o proprietário conhecia profundamente e conseguia manter em funcionamento.
A experiência do casal não prova que uma moto antiga seja necessariamente mais económica ou fiável do que uma moderna. Quatro décadas de reparações e substituição de componentes representam custos e muito trabalho.
Mostra, isso sim, que a aventura não depende exclusivamente da potência, da tecnologia ou do preço de compra.
Benno e Thecla atravessaram continentes numa moto de 17 cv, muitas vezes carregada com bagagem e uma remorque. E, ao fim de mais de 580 mil quilómetros, a maior lição talvez seja esta: para conhecer o mundo sobre duas rodas, é preciso muito mais vontade de partir do que cavalos no motor.






