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Jorge Farromba
Opinião
Jorge Farromba

A lição da Mercedes: liderar é assumir riscos

Jorge Farromba

Mercedes demonstrou isso mesmo ao promover um jovem talento da sua formação – Kimi Antonelli – para substituir uma lenda; Lewis Hamilton

Desengane-se quem pense que liderar é gerir o presente. Muito pelo contrário, é ter a coragem para apostar no futuro, mesmo quando tudo indica que pode ser arriscado, precipitado, imprudente ou incompreendido.

A Mercedes demonstrou isso mesmo ao promover um jovem talento da sua formação – Kimi Antonelli – para substituir uma lenda: Lewis Hamilton.

A contratação deste jovem tem todos os ingredientes para um case study sobre liderança, visão estratégica e confiança no talento jovem: a célebre geração Z de que todos falamos hoje em dia.

Quando Hamilton decidiu a sua saída para a Ferrari, Toto Wolff não procurou a segurança ou um nome que confortasse os acionistas, um veterano ou uma solução para o curto prazo; decidiu apostar na nova geração, num adolescente com talento extraordinário, mas que nem sequer tinha experiência na Fórmula 1.

Esta foi uma decisão corajosa, mas, a meu ver, também de visão estratégica, pois a Mercedes escolheu o potencial em vez de garantias, o crescimento em vez do conforto.

Antonelli tinha sido bicampeão europeu de karting aos 15 anos, tinha quatro títulos de monolugares em duas épocas e duas vitórias na Fórmula 2.

Mas todos sabemos que o talento, por si só, não vence corridas. E, por isso, a Mercedes não apostou apenas num piloto rápido, mas apostou num projeto: algo em que ela própria pudesse promover o seu desenvolvimento e crescimento, moldar a sua mentalidade e integrá-lo na sua cultura.

Esta é uma lição de estratégia a longo prazo: construir em vez de apostar na continuidade.

Várias foram as vozes que duvidaram, como Eddie Jordan e outros; mas é aqui que a liderança se separa da gestão, porque, enquanto o gestor evita o risco, o líder assume-o, desde que acredite na pessoa e no processo!

O que distingue Antonelli dos outros pilotos não é apenas a velocidade, a maturidade ou a forma como já encara o desafio, mas também a maneira como assumiu o papel de segundo piloto, com a pressão de substituir uma lenda e a exigência de provar que merecia aquele lugar. Nesta idade, saber equilibrar tudo isto é de louvar.

Nunca se escondeu! Desde o início, quis conhecer os limites do carro, aprender com os erros e crescer rápido. Mas, assim que errou, lembraram-lhe que a Fórmula 1 não era uma PlayStation.

Na realidade, na sua primeira sessão oficial ao volante de um F1 – o Mercedes W15 – impressionou logo pela velocidade. Se na primeira volta lançada registou 1:23,955 e chegou momentaneamente ao topo da tabela de tempos, na segunda volta lançada esteve ainda mais rápido, com o melhor primeiro setor e o segundo setor a violeta – a marca mais rápida em pista. Na tentativa de levar o carro ao limite absoluto nessa mesma volta, entrou demasiado rápido na curva Parabolica (Curva Alboreto), perdeu a traseira e despistou-se contra a barreira de pneus, num impacto de cerca de 52 G. O “ruído exterior” focou-se imediatamente no erro e no despiste de um “adolescente impulsivo”, mas a telemetria, até ao momento do despiste, vinha a mostrar que efetivamente era o mais rápido de todos na pista.

A maioria olhou para o erro; a Mercedes viu alguém em aprendizagem. E a humildade deste piloto é, paradoxalmente, a sua maior arma. Quando lhe perguntaram sobre substituir Hamilton, ele respondeu que não era possível substituir uma lenda.

Kimi não tentou ser Hamilton, mas ser Antonelli, uma lição de humildade e liderança de um piloto tão jovem.

Não imitar quem veio antes, mas honrar o legado, construindo o seu próprio trajeto. Hamilton, aliás, defendeu-o publicamente, dizendo que estava a fazer um trabalho fantástico. Outro líder que não viu o sucessor como uma ameaça, mas como algo natural.

Apostar na juventude, nesta geração Z, seja na F1, seja em qualquer profissão, exige paciência, tolerância ao erro, tempo e capacidade para suportar a pressão interna e externa.

A adaptação de Antonelli não foi linear, mas a Mercedes não desistiu e deu-lhe tempo, estrutura e responsabilidade; três ingredientes-chave que transformam potencial em excelência.

Aos 20 anos, tornou-se o campeão mundial mais jovem da história da Fórmula 1, batendo o recorde de Sebastian Vettel, e tornou-se o primeiro italiano a conquistar o título desde Alberto Ascari, em 1953.

Afinal, a aposta que ao início parecia imprudente deu-lhe um título, e bastou apenas um ano de aprendizagem na categoria.

A história de Antonelli mostra que liderar é, antes de mais, ter visão, saber identificar talento antes de este se tornar óbvio para todos e dar oportunidade a quem ainda não provou tudo, mas mostra tudo o que é preciso para provar.

Liderar é isso mesmo, aceitar e assumir que o erro faz parte do crescimento e da aprendizagem e que, muitas vezes, proteger demais é a maior forma de limitar.

Líderes como Toto Wolff não estão a arriscar, mas a investir; quando acertam, como foi o caso, não conquistam apenas resultados, mas constroem legados.

 

Fotografia: Créditos – F1 e AMG Petronas F1