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Luís Augusto, presidente da Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting (ALF)
Opinião
Luís Augusto, presidente da Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting (ALF)

A mobilidade elétrica não se faz apenas com carros elétricos

Falar de mobilidade elétrica é, muitas vezes, falar de automóveis, da evolução da tecnologia, da autonomia das baterias, dos preços, da rede de carregamento ou da crescente oferta de modelos. Tudo isto é importante, mas há uma dimensão que merece maior atenção: como garantir que empresas e consumidores conseguem efetivamente aceder a esta nova mobilidade?

Falar de mobilidade elétrica é, muitas vezes, falar de automóveis, da evolução da tecnologia, da autonomia das baterias, dos preços, da rede de carregamento ou da crescente oferta de modelos. Tudo isto é importante, mas há uma dimensão que merece maior atenção: como garantir que empresas e consumidores conseguem efetivamente aceder a esta nova mobilidade?

Porque a transição energética não se concretiza apenas quando um veículo elétrico sai da fábrica ou chega a um stand. Concretiza-se quando esse veículo passa a integrar o quotidiano de pessoas e empresas. E, para isso, é necessário olhar também para as condições de financiamento e para as diferentes formas de acesso à mobilidade.

Os números mostram que esta questão já não é meramente teórica. Em 2025, foram contratadas 10.827 viaturas 100% elétricas através de empresas de Renting, mais 17,6% do que no ano anterior. Estes veículos representaram 25,6% da produção total de Renting e, considerando também os híbridos e híbridos plug-in, mais de metade das novas viaturas adquiridas através deste canal já tinha uma motorização eletrificada.

Mais revelador ainda: uma em cada cinco viaturas ligeiras 100% elétricas novas vendidas em Portugal em 2025 foi adquirida por empresas de Renting. Este número diz-nos algo importante sobre a transição em curso. Diz-nos que o financiamento especializado não está simplesmente a acompanhar a eletrificação do mercado automóvel, está a contribuir para que ela aconteça.

Também o Leasing (locação financeira) tem vindo a desempenhar um papel relevante neste processo. Em 2025, através de contratos de Leasing foram financiadas cerca de 5 500 viaturas elétricas, correspondentes a 17% da produção de Leasing automóvel de viaturas ligeiras.

Estes dados mostram que a eletrificação está a acontecer através de diferentes modelos de acesso e financiamento.

Esta realidade é particularmente relevante quando pensamos nas empresas. A renovação de uma frota representa uma decisão de investimento com impacto direto na tesouraria, nos custos operacionais e na competitividade. A escolha de uma viatura elétrica implica, além disso, gerir novas variáveis como o investimento inicial, a evolução tecnológica, a autonomia, a infraestrutura de carregamento, o seu custo e o valor residual.

É precisamente aqui que soluções como o Leasing e o Renting assumem uma importância que vai muito além da dimensão financeira. O acesso a uma viatura através de uma solução de Leasing permite distribuir no tempo o esforço financeiro associado ao investimento, facilitando a renovação de equipamento e viaturas sem concentrar todo o custo no momento de aquisição.

O Renting acrescenta previsibilidade e flexibilidade, permitindo às empresas utilizar uma viatura e integrar numa única solução diferentes serviços associados à sua utilização e gestão, com custos fixos conhecidos e sem ficar com o ónus de desvalorização da mesma.

Num contexto de transformação tecnológica acelerada, esta capacidade de distribuir investimento, reduzir incerteza e adaptar soluções às necessidades concretas de cada empresa pode ser determinante para acelerar decisões que, de outra forma, poderiam ser adiadas.

O parque automóvel nacional ainda tem um peso significativo de veículos com motores de combustão. A sua renovação será necessariamente gradual e exigirá investimento. Ao mesmo tempo, as empresas têm de conciliar os objetivos de descarbonização com uma realidade económica em que a eficiência dos recursos financeiros é cada vez mais importante.

Não podemos, por isso, pensar a mobilidade elétrica apenas como uma questão de oferta. É também uma questão de acesso.

Se queremos que mais empresas renovem as suas frotas, precisamos de garantir que têm à sua disposição soluções que lhes permitam fazê-lo sem comprometer a sua capacidade de investimento. Se é um objetivo nacional que mais consumidores adotem veículos elétricos, tem de se assegurar que a transição não está limitada a quem tem capacidade financeira para suportar diretamente o custo de aquisição.

É por isso que as políticas públicas de promoção da mobilidade elétrica devem considerar todas as formas de acesso a um veículo, quer seja novo ou usado. A própria ALF tem defendido que programas de incentivo à aquisição e renovação do parque automóvel devem abranger soluções de Leasing e de Renting, precisamente porque estas representam uma parcela muito significativa das viaturas adquiridas em Portugal, e uma porta de acesso às diferentes formas de mobilidade.

Existe um ecossistema na cadeia de valor da mobilidade onde se deve reconhecer que as empresas e os consumidores têm necessidades diferentes e devem poder escolher a solução que melhor se adapta à sua capacidade financeira e ao seu perfil de utilização. Esta flexibilidade é ainda mais importante num momento em que a transição energética se cruza com outro desafio igualmente relevante: a competitividade das empresas portuguesas.

A sustentabilidade deixou de ser uma questão separada da estratégia empresarial. É cada vez mais uma componente da eficiência, da gestão de custos e da capacidade de responder às exigências de clientes, investidores e cadeias de valor. Renovar uma frota por veículos mais eficientes pode significar não apenas reduzir emissões, mas também melhorar a previsibilidade dos custos de mobilidade e preparar a empresa para as exigências da economia do futuro.

O crescimento do Renting mostra que esta transformação já está a acontecer. Em 2025, a frota gerida pelas empresas de Renting atingiu 146.160 viaturas, das quais mais de 27 mil eram veículos de emissões nulas, um crescimento de 46% face ao ano anterior.

O desafio agora é garantir que esta dinâmica não abranda por falta de condições de acesso. Portugal tem vindo a avançar na eletrificação da mobilidade, mas a velocidade da transição dependerá da capacidade de alinhar vários fatores: oferta de veículos, infraestrutura de carregamento, enquadramento fiscal, incentivos públicos e, inevitavelmente, soluções de financiamento adequadas.

Não basta tornar o veículo elétrico desejável. É preciso torná-lo acessível.

É aqui que o financiamento especializado pode reforçar o seu papel estratégico. Leasing e Renting não são apenas formas alternativas de aceder ou utilizar uma viatura. Podem ser instrumentos de aceleração da renovação do parque automóvel e, consequentemente, da própria transição energética.

A verdadeira transição não acontecerá apenas quando produzirmos mais veículos elétricos. Acontecerá quando criarmos as condições para que mais empresas e mais pessoas possam ter acesso a eles.

E essa é uma responsabilidade que deve ser partilhada entre indústria, setor financeiro, empresas de mobilidade e decisores políticos. O desafio da mobilidade elétrica já não é tecnológico. É garantir que empresas e cidadãos conseguem aceder a essa tecnologia. Porque a transição energética só será bem-sucedida quando os veículos elétricos deixarem de ser apenas uma opção disponível e passarem a ser uma opção acessível.