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Ensaio. XPENG P7+: quando o automóvel deixa de ser apenas… um automóvel?

Jorge Farromba

Cinco metros de fastback, arquitetura de 800 volts, inteligência artificial, bancos com massagem, suspensão adaptativa e um habitáculo pensado quase como uma sala privada. Jorge Farromba conta-nos a experiência

Cinco metros de fastback, arquitetura de 800 volts, inteligência artificial, bancos com massagem, suspensão adaptativa e um habitáculo pensado quase como uma sala privada.

Estes são os itens com que o XPENG P7+ chega à Europa e percebe-se que não é apenas para disputar o mercado dos elétricos mas para apresentar uma ideia diferente sobre o que um automóvel deve fazer hoje pelo seu ocupante.

Há automóveis que se avaliam pelo motor. Outros pela qualidade dos materiais. Outros ainda pela dinâmica, pelo consumo ou pela capacidade da bateria.

Contudo, o XPENG P7+ obriga a uma abordagem diferente. Porque, neste caso, olhar apenas para o automóvel é insuficiente porque é preciso olhar para o ecossistema, para a arquitetura eletrónica, a inteligência artificial, o carregamento, a suspensão, a acústica, os bancos, a climatização, o espaço e, para tudo aquilo que acontece quando o automóvel deixa de estar simplesmente a transportar alguém e começa a tentar criar uma determinada experiência dentro do habitáculo.

E é aí que o P7+ começa verdadeiramente a revelar a sua filosofia.

Uma dimensão diferente

O primeiro contacto com o P7+ é físico. São 5,071 metros de comprimento, 1,937 metros de largura, 1,512 metros de altura e uma distância entre eixos de exatamente de  três metros. O P7+ tem claramente dimensões de automóvel de segmento superior.

Mas existe uma diferença importante entre crescer por fora e saber utilizar esse crescimento por dentro, e a XPENG aproveitou os três metros de distância entre eixos para construir uma segunda fila particularmente generosa.

E existe outro detalhe particularmente interessante: o banco traseiro pode ser reclinado eletricamente em 10º – até possui uma mesa de trabalho no encosto do banco dianteiro. Nas versões Long Range (e também na Performance) surge o aquecimento, ventilação e massagem nos bancos traseiros.

Tudo isto revela a  forma como a XPENG está a posicionar o P7+:  não  apenas um automóvel para quem conduz mas para quem viaja. 

O Fastback que esconde uma carrinha

O P7+ adota a silhueta fastback, uma  solução estética, mas também funcional com uma capacidade da bagageira de 573 litros, podendo atingir 1.931 litros com os bancos traseiros rebatidos.

Isto altera a leitura do carro, porque o P7+ parece uma berlina, comporta-se conceptualmente como um fastback mas aproxima-se de uma solução familiar. Trata-se de uma combinação particularmente inteligente para quem não quer conduzir um SUV.

Até a aerodinâmica faz parte da experiência

A XPENG anuncia um coeficiente aerodinâmico de 0,211 e este  valor não serve apenas para impressionar numa ficha técnica, pois num  elétrico cada decisão aerodinâmica tem consequências sobre o consumo energético, o ruído de vento e a autonomia em velocidades elevadas.

E é também  aqui que a filosofia do P7+ começa a fazer ainda mais sentido. A forma exterior, o tejadilho, a traseira escalonada, os puxadores embutidos e outros elementos não são independentes, mas sim peças de uma mesma equação.

A XPENG desenhou um automóvel que gasta pouca energia para avançar rapidamente.

800 volts: Escondida mas relevante

A arquitetura elétrica merece umas linhas;  dado que a plataforma utiliza uma arquitetura de 800 V e baterias LFP de 61,7 kWh ou 74,9 kWh, (a do ensaio com 313 cv e até até 530 km WLTP)

Mas há algo mais interessante do que os cavalos que é o tempo parado pois não se trata apenas de perguntar:

Quantos quilómetros faz?

mas

Quanto tempo preciso para recuperar centenas de quilómetros?

Ok, mas 446 kW é uma potência máxima anunciada e não significa que qualquer carregador entregue essa potência – a Galp já os possui com 400kw.

É precisamente esta distinção entre capacidade técnica e experiência real que deve fazer parte de qualquer avaliação séria.

O Detalhe: A bateria é LFP

A  escolha da química da bateria influencia características como densidade energética, comportamento térmico, custo e estratégia de utilização e até aqui o P7+ mostra uma abordagem interessante:

bateria relativamente eficiente + arquitetura de alta tensão + carregamento extremamente rápido.

A XPENG não está a tentar ganhar apenas através de uma bateria gigantesca, mas através da velocidade com que a energia pode entrar dentro do automóvel.

O conforto começa nos bancos

É impossível escrever sobre o P7+ sem falar dos bancos. Os dianteiros têm regulação elétrica, memória, aquecimento, ventilação e massagem, e nas versões Long Range e Performance, a filosofia estende-se à segunda fila, com bancos traseiros aquecidos, ventilados e com massagem; ou seja, a massagem não é apenas um truque para impressionar no concessionário mas faz parte de uma arquitetura de conforto. E, se, num automóvel tradicional, conforto significa sobretudo suspensão, bancos e isolamento, no P7+, conforto é uma combinação de:

banco + climatização + iluminação + som + posição + silêncio + software

Na minha opinião, trata-se de uma mudança profunda na definição do produto automóvel.

MINDFULNESS MODE: O automóvel que tenta mudar o estado de espírito 

A documentação oficial europeia da XPENG inclui “Meditation Mode” no sistema Xmart OS. É importante chamar pelo nome original, sendo que agora sim tem o nome Mindfulness mode, com o sistema a ajustar a iluminação ambiente, sons relaxantes e a posição dos bancos para criar um ambiente de serenidade a bordo.

O sistema não é apenas uma função médica ou terapêutica de “mindfulness”. mas o conceito é extraordinariamente revelador, pois demonstra que o automóvel começa a ser pensado não somente como uma máquina para mudar a posição geográfica dos utilizadores, mas como um ambiente digital capaz de alterar a experiência durante a permanência no veículo.

No passado, ligávamos o rádio, depois passámos a ter sistemas de infotainment e agora o automóvel começa a perguntar: Como se quer sentir?”; e esta mudança conceptual é muito maior do que aparenta.

Quanto o silêncio é tecnologia

A XPENG dedicou especial atenção ao isolamento acústico, onde já não basta ter vidros duplos e laminados nas portas. Aqui utiliza até 62 pontos específicos de redução de ruído, 26 barreiras de cavidades e 36 elementos de absorção sonora.

Mesmo que o número  impressione, torna-se importunar compreender a finalidade. Num elétrico, a ausência do motor de combustão deixa expostos outros ruídos como:

  • pneus;
  • vento;
  • suspensão;
  • vibrações estruturais;
  • ruído aerodinâmico.

Por isso, o  isolamento acústico não é um luxo, mas tem de fazer parte da engenharia de um elétrico premium.

20 altifalantes e um estudio sobre rodas

O sistema de som dispõe de 20 altifalantes, incluindo elementos integrados nos apoios de cabeça dianteiros e zonas de zonas áudio independentes.

Mas uma vez, o interessante aqui não é o número mas a arquitetura, pois o passageiro deixa de ser necessariamente obrigado a ouvir exatamente aquilo que o condutor ouve, o que aproxima o habitáculo de uma experiência multimédia individualizada.

A SUSPENSÃO:  Onde o P7+ tem de provar o que vale

É aqui que começa a verdadeira prova. O P7+ utiliza suspensão dianteira double-wishbone e traseira de cinco braços/multilink, enquanto o sistema adaptativo DCC permite variar a atuação dos amortecedores, numa arquitetura tecnicamente interessante.

A sofisticação de arquitetura não é sinónimo automático de excelência dinâmica, pois as afinações, o funcionamento do chassis ativo, direção, regeneração e travagem mecânica são elementos envolvidos na equação.

A XPENG claramente privilegiou uma experiência de conforto e  uma viagem refinada em vez de transformar o P7+ numa berlina desportiva.

Portanto, talvez a pergunta mais interessante seja:

“Consegue ser confortável sem perder controlo corporal e precisão?”

Sim!

A inteligência artificial colou-se à pele do P7+

O P7+ europeu utiliza a arquitetura de computação Turing AI, anunciada pela XPENG com capacidade de até 750 TOPS (*), seis câmaras de alta resolução, quatro câmaras surround-view, três radares de ondas milimétricas e 12 sensores ultrassónicos, de acordo com a configuração apresentada pela XPENG.

(*)  métrica de desempenho computacional – 750 Terabytes de Operações por Segundo ou seja é capaz de  realizar 750 biliões de operações matemáticas básicas por segundo (no padrão europeu) e posiciona-se no topo do mercado de computação acelerada.

O resultado surge como  uma plataforma concebida para alimentar:

  • assistência à condução;
  • manutenção na faixa;
  • cruise control adaptativo;
  • mudança de faixa assistida;
  • estacionamento automático;
  • visão 360º;
  • deteção de obstáculos;
  • monitorização do condutor.

Mas não confundir hardware preparado para inteligência artificial com condução autónoma pois na Europa, a lei continua a determinar aquilo que os sistemas podem efetivamente fazer.

O P7+ é um automóvel altamente assistido, não um convite para retirar a responsabilidade do condutor.

O Head-Up Display

O W-HUD  projeta informação relevante no campo de visão do condutor, até mesmo as câmaras que habitualmente vemos no ecrã central o que, em matéria de segurança permite que o condutor não desvie os olhos da estrada (o espelho retrovisor central também possui câmara traseira e, já agora, a grelha dianteira do P7+ é dinâmica, sendo gerida pelo software).

Esta “pequena” alteração de interface  pode ter uma consequência enorme; pois quanto mais tecnologia existe no automóvel, mais importante se torna esconder essa tecnologia quando ela não é necessária. E isto exige know-how.

O ecrã 15,6″ não é o automóvel

No centro do habitáculo está um ecrã de 15,6″, acompanhado por um painel de instrumentos de 8,8 polegadas numa filosofia já conhecida. Contudo, o  ecrã não pode nem deve  ser confundido com inovação.

Inovação é quando a tecnologia resolve um problema

Porque, se o ecrã obriga o condutor a executar cinco operações para realizar uma tarefa, que anteriormente necessitava apenas de um botão, temos tecnologia  mas não necessariamente melhor experiência do utilizador; e aqui a XPENG soube resolver esse desafio.

O P7+ possui bomba de calor X-HP, climatização automática de duas zonas e sistema de purificação de ar XfreeBreath, com filtragem de pólen e PM2.5, o que significa entrar no automóvel e encontrar:

temperatura certa, ar limpo, pouco ruído, banco confortável e posição correta.

É por isso importante analisar a experiência de utilização como um conjunto.

Produção em Graz

Produzido na fábrica da Magna Steyr, em Graz, Áustria, o P7+ aproxima-se  assim das exigências do mercado europeu mas a verdadeira questão que se impõe é se a tecnologia pode substituir a tradição?

A indústria automóvel europeia construiu durante décadas a sua reputação em torno de motores, chassis, materiais, ergonomia e engenharia mecânica e a nova geração de fabricantes chineses “entra por outra porta” –  software, baterias, eletrónica, conectividade, inteligência artificial e velocidade de desenvolvimento.

O XPENG P7+ quer convencer através da soma:

software + bateria + carregamento + conforto + inteligência artificial + espaço + experiência digital

Ao volante, o XPENG P7+ revela uma personalidade onde a primeira impressão é de serenidade: a suspensão, com arquitetura double wishbone à frente e multilink atrás e amortecimento adaptativo, privilegia claramente o conforto, filtrando as irregularidades e mantendo a carroçaria controlada, sem procurar transformar o P7+ numa berlina desportiva.

A direção é precisa e fácil de dosear, embora eu gosto de ter mais informação dela; a regeneração permite escolher diferentes níveis de intervenção e, no mais intenso, desacelerar significativamente o automóvel quando se levanta o acelerador, pode  mesmo levar à imobilização. A travagem convencional, por sua vez, apresenta uma resposta forte, progressiva e sensível.

A experiência de condução:

rápido quando se pede, confortável quando se quer e sempre muito filtrado na relação com a estrada.

Não procura a condução visceral de uma berlina desportiva, mas prefere a compostura, o silêncio e a suavidade, fazendo da viagem uma experiência descontraída com a autonomia a nem ser uma  preocupação, bem como, a velocidade de carregamento. Diria que consigo 400–460 km reais para utilização mista, e 330–400 km em autoestrada, dependendo fortemente da velocidade e temperatura.

O XPeng P7+ foi muito otimizado com o apoio da IA, principalmente no desenvolvimento aerodinâmico e eficiência energética mas a equipa partiu de uma “folha de papel com as linhas visuais de estilo da marca”, o resto foi utilização intensiva nos processos de engenharia e otimização da carroçaria para garantir um coeficiente aerodinâmico excecional e uma eficiência líder no segmento

Para a Xpeng é o primeiro veículo definido por IA também pelo uso de tecnologia integrada a bordo, como o sistema de condução autónoma impulsionado pela  AI Hawkeye, o chip  Turing AI e os assistentes virtuais de inteligência artificial generativa.

Preço: desde 38.200+IVA

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A Xpeng, porém, já há muito deixou de ser apenas uma fabricante de automóveis. Na Automonitor, explicámos como a marca chinesa, juntamente com a Xiaomi, está a tentar ocupar o chamado “tempo morto” dos condutores através de uma estratégia que leva a experiência automóvel muito além da condução. E a ambição não termina nos carros: a empresa já entrou também no universo da robótica, com o humanoide IRON a dar recentemente mais um passo ao sair sozinho da fábrica.