Quando o automóvel surge tinha uma função simples: deslocar/transportar pessoas de um ponto para outro.
Posteriormente, evoluiu e incluiu conforto, segurança, prestígio, tecnologia ao serviço do produto.
A “máquina” ganhou estatuto e cada marca procurou diferenciar-se… aquilo que falamos do ADN. Só que a lógica manteve-se, pois:
“o valor estava no viagem, não na paragem.”
Os construtores chineses surgiram no mercado e com alguma retração por parte do consumidor e sabiam que alterar o “tabuleiro” tinha de ser feito com algo diferente. E, para isso
- introduziram inovação, tecnologia e baixo custo (não interpretar com baixa qualidade),
- assistência à condução, integração vertical (na gestão e do software ao chassis) e arquitetura de 800 V
- baterias inovadoras, cada vez mais densas e rápidas a carregar.
Se, inicialmente o preço era o elemento diferenciador, o mercado asiático demonstrou:
- capacidade e qualidade industrial,
- inovação aplicada ao produto
num momento em que a Europa ainda se focava ainda na imagem de marca.
E, quando a industria europeia se está a aproximar da asiática, esta resolve antecipar tendências e incorporar algo para quando o automóvel… está estacionado.
Trata-se claramente de políticas da estratégia do Oceano Azul preconizada pela China pois esta não tenta lutar contra a concorrência, mas criar novos mercados inexplorados, tornando a concorrência irrelevante.
Vários exemplos têm permitido essa estratégia:
- A contratação dos melhores especialistas mundiais em tecnologia, matemáticos (para padronizar modelos matemáticos), filósofos (para questões como responder com ética)
- Uma radical reforma curricular iniciada 2021 provocada …. pelo avanço da Inteligência Artificial (IA) e pela automação, onde consideram que “não se deve gastar tempo a estudar aquilo que a IA já consegue fazer melhor e mais rápido”
- Mudanças no ensino básico e secundário integrando a IA no currículo mas mantendo o foco nas soft skills – no desenvolvimento do pensamento independente, crítico, resolução de problemas complexos, comunicação e cooperação, onde até o uso controlado de Chatbots foi considerado para tirar dúvidas e personalizar a aprendizagem, mas impedindo que a tecnologia faça todo o trabalho escolar.
- no Ensino Superior retirou mais de 30% das licenciaturas do país, onde eliminaram, suspenderem ou reformularam 12.200 cursos nas áreas ligadas das artes, humanidades, línguas estrangeiras, gestão de empresas e design técnico por serem áreas consideradas obsoletas ou facilmente substituíveis pela IA para criarem 10.200 novos cursos com programas totalmente focados em Inteligência Artificial, robótica, sistemas inteligentes e tecnologias estratégicas de ponta.
Esta visão do país de alinhar a educação em tempo recorde com a economia do futuro, prepara os jovens para o futuro em vez de competirem com elas.
No setor automóvel o XPeng P7+ é o exemplo mais nítido dessa alteração. O ecrã do “Espaço Mindfulness” não é decoração:
- O sistema ajusta o banco e o interior, “pede atenção” à segurança e desliga temporariamente o alerta de crianças no interior;
- O modo de relaxamento transforma o interior do veículo num espaço de tranquilidade através do ajuste automático dos bancos, iluminação ambiente e sons relaxantes;
- Ao seu lado está o Sleep Space – modos de cama. Nos bancos da frente, aquecimento, ventilação e massagem são de série (perto de 8 opções).
- A suspensão (double wishbone à frente, multi-link atrás, com amortecimento de controlo contínuo em várias versões) está afinada para conforto de viagem, não para teatro desportivo.
A XPENG oficializa isto como cenário inteligente, só que não é poesia, mas sim o software a organizar hardware que já existe.
Outras marcas já gravitam no mesmo território – bancos zero-gravity, massagem, modos de descanso, interiores que se reconfiguram; a diferença está em que estas marcas não considerem isto um extra de luxo mas uma tendência.
Veja-se o exempo do SUV Xiaomi SkyNomad:
- bancos da frente com massagem de 16 pontos, zero-gravity com apoio de pernas, rotação de 180° com o automóvel parado, cama no piso em dezenas de segundos e, na versão Studio, um loft no teto com colchão.
- A marca não quer vender somente um SUV mas um espaço habitável com autonomia de extensor
É a mesma ideia do P7+, aqui ampliada à escala familiar e de viagem.
A “próxima batalha do setor automóvel” pode muito bem não ser a autonomia ou a potência, mas o…”tempo morto” e quem ocupar a pausa – com massagem, silêncio, uma postura de descanso e, quando fizer sentido, uma cama verdadeira – define o produto.
O P7+ faz isso na berlina. O SkyNomad faz isso no SUV e portanto já não se trata de uma discussão sobre conforto, conceção ou sobre tecnologia mas uma nova tendência ao espaços “ainda não preenchidos “ o que num mercado cada vez mais concorrencial permite criar posicionamento e notoriedade relevante e, com isso impulsionar vendas.