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Stellantis ‘arruma a casa’ para o futuro: há marcas que ganham força e outras que perdem autonomia. O que vai mudar?

Automonitor

As alterações entram em vigor esta terça-feira e enquadram-se na execução do plano estratégico FaSTLAne 2030

A Stellantis começou a transformar em decisões concretas a nova hierarquia que pretende estabelecer entre as suas 14 marcas. A reorganização anunciada no final de agosto mexe nas lideranças de Fiat, Abarth, Lancia, Citroën, DS Automobiles e Jeep e deixa um sinal particularmente claro: nem todas terão o mesmo peso no futuro do grupo.

As alterações entram em vigor esta terça-feira e enquadram-se na execução do plano estratégico FaSTLAne 2030. Segundo a ‘L’Automobile Magazine’, a nova estrutura aproxima a DS da Citroën e a Lancia da Fiat, reduzindo a autonomia organizacional das duas marcas, enquanto a Jeep segue precisamente o caminho contrário e passa a contar com uma liderança especificamente dedicada ao mercado europeu.

No centro da reorganização está Arnaud Belloni, que regressa à Stellantis para assumir a liderança da Fiat, Abarth e Lancia, acumulando ainda a responsabilidade pelo marketing do grupo na Europa Alargada.

Belloni sucede a Olivier François, que deixa as funções executivas depois de mais de três décadas no setor automóvel e passa a desempenhar funções de consultor estratégico da Stellantis.

DS com Citroën, Lancia com Fiat

Mais do que uma simples mudança de nomes no organograma, a reorganização permite perceber como a Stellantis está a agrupar as marcas para a próxima fase da sua estratégia.

Xavier Chardon passa a acumular a liderança da DS Automobiles com as atuais responsabilidades na Citroën. Arnaud Belloni fará algo semelhante com Fiat, Abarth e Lancia.

A mesma lógica desce pela estrutura europeia. Gaetano Thorel, responsável pela Fiat e Abarth na Europa Alargada, passa também a responder pela Lancia, enquanto Laurent Diot acrescenta a DS às responsabilidades que já tinha sobre a Citroën.

Na prática, a Stellantis coloca sob a mesma liderança uma marca de maior volume e outra de posicionamento mais especializado: Fiat e Lancia de um lado, Citroën e DS do outro.

A intenção declarada continua a ser preservar identidades, gamas e posicionamentos distintos. Mas, segundo a ‘L’Automobile Magazine’, a autonomia organizacional de DS e Lancia fica claramente reduzida.

Não significa que as duas marcas estejam a caminho de desaparecer ou de serem fundidas com Citroën e Fiat. Significa, porém, que passarão a operar de forma muito mais próxima destas.

Stellantis já escolheu as prioridades

A mudança está diretamente relacionada com a estratégia apresentada pela Stellantis para os próximos anos.

No âmbito do FaSTLAne 2030, o grupo liderado por Antonio Filosa estabeleceu uma hierarquia mais clara entre as suas 14 marcas e pretende concentrar recursos onde considera existir maior potencial de criação de valor.

Segundo a ‘L’Automobile Magazine’, cerca de 70% dos investimentos destinados a marcas e produtos deverão concentrar-se na Jeep, Ram, Peugeot, Fiat e na divisão de veículos comerciais Pro One.

DS e Lancia ficam, pelo contrário, destinadas a desempenhar papéis mais especializados dentro do gigantesco portefólio do grupo.

A nova organização coloca agora essa estratégia no próprio organograma da empresa.

Jeep segue na direção contrária

Se DS e Lancia passam a partilhar cada vez mais estruturas de liderança, a Jeep recebe um tratamento muito diferente.

A Stellantis criou um cargo especificamente dedicado à marca na Europa, que será ocupado por Xavier Peugeot. O responsável ficará diretamente ligado a Emanuele Cappellano, diretor de Operações da Stellantis para a Europa Alargada.

A decisão pretende dar à Jeep maior capacidade para desenvolver a estratégia de produtos, marketing e vendas no mercado europeu e evidencia o peso que a marca terá no futuro do grupo.

Ou seja, enquanto algumas insígnias são aproximadas e passam a partilhar níveis de decisão, a Jeep recebe uma estrutura própria para acelerar o crescimento.

O regresso de Arnaud Belloni

Outra peça importante da reorganização é o regresso de Arnaud Belloni, que conhece bem várias das marcas que passa agora a comandar.

De nacionalidade francesa e com raízes familiares italianas, Belloni trabalhou durante 16 anos no universo que atualmente integra a Stellantis. Entre 2004 e 2015 esteve ligado ao marketing e comunicação da Fiat, Alfa Romeo e Lancia em França, passando posteriormente pela FCA na região Ásia-Pacífico.

Seguiu-se a Citroën, onde participou no reposicionamento da marca e em projetos como o pequeno Ami. Em 2020 mudou-se para o Grupo Renault, assumindo responsabilidades globais de marketing e marca durante a implementação da estratégia “Renaulution”, então liderada por Luca de Meo.

Agora regressa com três marcas sob responsabilidade direta e vários problemas para resolver.

Fiat, Lancia e Abarth têm desafios diferentes

Na Fiat, um dos principais eixos será a expansão da nova família baseada na plataforma Smart Car, inaugurada pelo Grande Panda e que deverá dar origem a novos modelos, incluindo propostas de formato SUV e Fastback.

A marca terá ainda de gerir a coexistência entre versões elétricas acessíveis e motorizações híbridas num mercado europeu onde a pressão dos fabricantes chineses e das propostas de baixo custo continua a aumentar.

Há ainda a questão do Fiat 500. A introdução da versão híbrida pretende aumentar a utilização da fábrica de Mirafiori, complementando a produção do elétrico 500e.

Na Lancia, Belloni herda o processo de recuperação de uma das marcas históricas italianas. Depois do novo Ypsilon, está prevista a chegada do Gamma, um crossover fastback do segmento D produzido em Melfi sobre a plataforma STLA Medium, além de um futuro Delta.

A Abarth enfrenta talvez uma das equações mais delicadas: encontrar rentabilidade numa gama atualmente centrada nos elétricos 500e e 600e, sem perder os clientes historicamente associados aos motores de combustão e à componente emocional da marca. A própria Stellantis já admitiu estudar o regresso de um Abarth com motor térmico.

Uma nova ordem entre 14 marcas

A reorganização ajuda, assim, a perceber como Antonio Filosa pretende gerir um dos maiores desafios herdados pela Stellantis: um portefólio de 14 marcas com histórias, mercados, dimensões e desempenhos muito diferentes.

A empresa não está a abandonar DS ou Lancia, mas passa a integrá-las mais estreitamente nas estruturas de Citroën e Fiat. Ao mesmo tempo, concede maior autonomia à Jeep e concentra grande parte dos investimentos num conjunto mais reduzido de prioridades.

A hierarquia que até agora era sobretudo visível nos planos de investimento começa, desta forma, a aparecer também nos nomes, nos cargos e nas linhas de comando.

A Stellantis está a “arrumar a casa” — e o novo organograma começa a mostrar quais serão as divisões que terão mais espaço na casa do futuro.