Foi construído para disputar o Campeonato do Mundo de Fórmula 1, tinha motor Cosworth V8, uma equipa preparada e um piloto com o sonho de chegar à categoria máxima do automobilismo. Mas nunca disputou um Grande Prémio. Na verdade, durante 45 anos, nem sequer percorreu um metro em pista.
O Riviera F.1 170, um dos projetos mais invulgares da história da Fórmula 1, vai ser uma das atrações do Estoril Classics 2026, que decorre entre 18 e 20 de setembro no Autódromo do Estoril, anunciou a organização.
A história começa em 1979. Alberto Colombo, piloto italiano de Fórmula 2 que já tinha passado pela ATS e pela Merzario, procurava concretizar a ambição de chegar à Fórmula 1. Com o apoio de investidores da região italiana de Brianza nasceu a Riviera F.1, uma pequena estrutura independente com planos para disputar quatro Grandes Prémios em 1980: Itália, França, Reino Unido e Alemanha.
O projeto técnico ficou nas mãos do engenheiro Giorgio Valentini, que tinha experiência na Autodelta e estivera envolvido no Merzario A3 de 1979. Mais tarde trabalharia também no Osella FA1C.
Cerca de 1.200 horas de trabalho deram origem ao Riviera F.1 170, um monolugar de efeito de solo equipado com o célebre motor Ford Cosworth DFV V8. O desenvolvimento ficou registado em dez volumosas pastas de desenhos.
A equipa chegou mesmo a reunir quatro motores Cosworth DFV. O monocoque foi construído pela britânica Thompson, enquanto as suspensões ficaram a cargo da Preatoni, em Novara.
O dinheiro travou o sonho
O Riviera estava praticamente pronto, mas havia um obstáculo que nenhuma solução de engenharia conseguia ultrapassar: dinheiro.
Segundo a organização do Estoril Classics, o orçamento inicial rondava os 600 milhões de liras — cerca de 1,75 milhões de euros a valores atuais — mas acabou por duplicar. E uma participação competitiva no Campeonato do Mundo exigiria aproximadamente dez mil milhões de liras, o equivalente a cerca de 29,4 milhões de euros atuais.
Foi então que Bernie Ecclestone entrou na história.
No início de 1980, Ecclestone analisou os desenhos e a situação financeira da Riviera durante uma reunião no Hotel Principe di Savoia, em Milão. Havia abertura para o projeto, mas as condições eram exigentes: pretendia um compromisso com todo o Campeonato do Mundo, garantias de continuidade e um plano competitivo para três anos.
O entendimento nunca aconteceu.
O Riviera F.1 170 estava construído e o motor podia funcionar, mas Alberto Colombo nunca teve a oportunidade de o levar à grelha de um Grande Prémio. O projeto acabou abandonado antes da estreia.
E o automóvel ficou parado. Durante 45 anos.
Encontrado num armazém prestes a ser demolido
Durante décadas, pouco mais restou do Riviera do que algumas fotografias e a memória de uma tentativa falhada de chegar à Fórmula 1.
Uma reportagem publicada pela revista italiana Autosprint, em 2020, voltou a chamar a atenção para a história. Cinco anos depois surgiu a descoberta decisiva.
O empresário e piloto de monolugares históricos Marco Fumagalli encontrou a carroçaria original num armazém que estava prestes a ser demolido. Junto ao automóvel estavam também os desenhos originais de Giorgio Valentini.
Fumagalli juntou-se então a Massimo Pollini, especialista na recuperação de automóveis históricos de competição, para devolver o Riviera à configuração imaginada pelos seus criadores.
E, finalmente, fazê-lo andar.
45 anos depois, percorreu os primeiros metros
A 18 de novembro de 2025, no circuito de Cremona, perto de Milão, aconteceu aquilo que deveria ter ocorrido em 1980.
Marco Fumagalli sentou-se ao volante e levou o Riviera F.1 170 para a pista. Foram realizadas quatro sessões e 15 voltas: os primeiros quilómetros da vida de um automóvel construído para a Fórmula 1 quatro décadas e meia antes.
“É um ‘wing-car’ e nunca tinha conduzido um carro deste tipo, apenas tinha feito algumas voltas ao volante dos carros de amigos. Utilizei o meu Riviera num teste longo e posso dizer que, nas curvas, é mais rápido quando o comparo com os meus Theodore ou Ensign”, explica Fumagalli, citado pela organização.
O piloto pôde também experimentar o efeito de solo que Valentini tinha projetado décadas antes.
“Senti o efeito de solo durante a primeira volta do teste em Cremona, no inverno de 2025, no final da reta. O carro estava muito próximo do chão e, nas boxes, está cinco centímetros mais alto”, recorda.
Riviera vai estar no Estoril Classics
Agora, o Riviera F.1 170 prepara-se para uma nova etapa da sua história. O monolugar estará no Estoril Classics, que decorre de 18 a 20 de setembro no Autódromo do Estoril, acompanhado por Marco Fumagalli.
Não será propriamente o regresso de um antigo Fórmula 1 às pistas: o Riviera nunca chegou a disputar qualquer corrida do Campeonato do Mundo. É precisamente essa circunstância que torna a sua presença invulgar.
Concebido para competir contra os melhores monolugares do mundo, ficou pelo caminho antes de chegar à primeira grelha, desapareceu durante décadas e só em 2025 percorreu os primeiros metros da sua existência.
Segundo a organização, mais de metade dos bilhetes disponíveis para o Estoril Classics 2026 já foram vendidos. A entrada é gratuita para jovens até aos 15 anos quando acompanhados por um adulto, até ao máximo de dois menores por adulto.
O estacionamento no parque de terra será gratuito, mediante disponibilidade, e a bancada da reta da meta terá acesso livre para todos os espectadores.






