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Fecho de fábricas, milhares de empregos em risco e pressão chinesa: automóvel europeu enfrenta o maior teste em décadas

Automonitor

Indústria automóvel europeia poderá estar perante um dos maiores processos de reestruturação da sua história moderna

A indústria automóvel europeia poderá estar perante um dos maiores processos de reestruturação da sua história moderna. A análise é da XTB, que alerta para o impacto dos recentes relatos de que a Volkswagen estará a avaliar o fecho de quatro fábricas na Alemanha e o corte de até 100 mil postos de trabalho.

Em causa estarão unidades em Hanover, Zwickau, Emden e a fábrica da Audi em Neckarsulm. A notícia provocou forte pressão nos mercados financeiros e arrastou as ações da Volkswagen para mínimos de 16 anos, num sinal da preocupação dos investidores com a dimensão da crise que atravessa o maior grupo automóvel europeu.

Segundo a XTB, os cortes que estarão a ser ponderados pelo presidente executivo da Volkswagen, Oliver Blume, superam em escala algumas das maiores reestruturações conhecidas no setor, incluindo a da General Motors durante a crise de 2009. Além da redução de postos de trabalho, a marca deverá também cortar em 15% o investimento em Investigação e Desenvolvimento nos próximos cinco anos.

A pressão sobre a Volkswagen não se explica apenas pelos elevados custos de produção na Alemanha ou pela rigidez laboral. Para a XTB, a causa central está na crise de vendas e na perda acelerada de quota de mercado, sobretudo na China, onde a marca alemã deixou de dominar e caiu para a terceira posição, atrás da BYD e da Geely.

Do ponto de vista técnico, a XTB assinala que as ações da Volkswagen já quebraram os mínimos registados em 2020 e caminham para uma zona considerada relevante, entre cerca de 61,30 e 66 euros. Essa área coincide com máximos registados no início dos anos 2000 e em 2006, bem como com mínimos de 2010, segundo a análise feita através da plataforma xStation5.

A dúvida que se coloca agora é se a crise da Volkswagen pode contagiar o resto da indústria automóvel europeia. A Stellantis, dona de marcas como Peugeot, Fiat e Citroën, continua a ser a segunda maior força na Europa, mas tem vindo a perder terreno. O grupo enfrenta dificuldades na transição para os veículos elétricos e uma procura mais fraca nos segmentos de combustão interna mais acessíveis.

A pressão competitiva tem obrigado a Stellantis a entrar numa guerra de preços que ameaça diretamente as margens operacionais. Segundo a XTB, a tendência técnica ascendente que vinha desde 2008 foi quebrada no primeiro trimestre de 2025, com as ações a registarem novos mínimos relativos desde então.

A BMW surge como uma das fabricantes mais resistentes, tendo conseguido contrariar parte da contração do setor e manter um crescimento sólido de registos na Europa. Ainda assim, a XTB sublinha que a marca não está imune às dificuldades atuais: apesar de cair com menor intensidade do que outras empresas do setor, permanece num processo lateral de longo prazo e registou recentemente novos mínimos relativos.

A Mercedes-Benz apresenta um comportamento semelhante ao da BMW. A marca continua a crescer em alguns mercados periféricos, incluindo Portugal, onde tem registado volumes de vendas fortes, mas também enfrenta riscos. A desaceleração económica na China já começou a pressionar as perspetivas de lucro no segmento premium, embora a XTB considere que Mercedes-Benz e BMW continuam entre as fabricantes europeias mais resilientes.

A Renault tem conseguido resistir melhor através da aposta em marcas de valor económico, como a Dacia, e em parcerias estratégicas na área dos motores híbridos. Ainda assim, o volume global do grupo na Europa permanece ameaçado pela entrada de marcas asiáticas nos segmentos mais acessíveis. Tecnicamente, a XTB nota que a Renault está próxima dos mínimos de 2022, que coincidem também com níveis registados entre 2008 e 2011.

A pressão sobre as fabricantes europeias não pode ser dissociada do crescimento dos concorrentes chineses. Marcas como BYD, Chery, SAIC e Leapmotor duplicaram a sua quota de mercado combinada na Europa em 2026, mesmo num contexto de tarifas aduaneiras e tensões geopolíticas.

A vantagem chinesa na cadeia de abastecimento de baterias continua a ser um dos principais fatores de desequilíbrio. Essa capacidade permite às marcas chinesas colocar no mercado veículos tecnologicamente avançados a preços que os fabricantes europeus têm dificuldade em replicar sem comprometer as suas margens.

Para a XTB, o caso da Volkswagen não deve ser visto como um episódio isolado, mas como o início de um “choque de realidade” para a indústria automóvel europeia. O setor, tradicionalmente valorizado pelos dividendos atrativos, terá agora de provar que consegue manter fluxos de caixa suficientes num contexto de quebra de vendas e pressão sobre margens.

Os investidores deverão acompanhar de perto a evolução do free cash flow das principais marcas e a capacidade de manter a remuneração aos acionistas. Ao mesmo tempo, a volatilidade no setor automóvel europeu poderá aumentar, em especial no índice alemão DAX, muito exposto a grupos como Volkswagen e BMW.

A XTB alerta ainda para o impacto das batalhas laborais que deverão surgir na Alemanha, nomeadamente com sindicatos como o IG Metall, perante eventuais fechos de fábricas e cortes de emprego. Para os mercados, a mensagem é clara: as fabricantes tradicionais, intensivas em capital e mais lentas nas reformas estruturais, estão a ser penalizadas, enquanto os investidores procuram cada vez mais setores ligados à tecnologia, inteligência artificial e eficiência de software.