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O primeiro veleiro da Ferrari vai ‘voar’ sobre o mar… e há tecnologia portuguesa a bordo

Automonitor

O Hypersail está longe de ser apenas um exercício de marketing com o símbolo do Cavallino Rampante numa vela: o projeto é liderado pelo navegador italiano Giovanni Soldini e foi concebido pelo arquiteto naval Guillaume Verdier

A Ferrari passou décadas a tentar fazer os seus carros colarem-se ao asfalto. Agora está a trabalhar no problema contrário: construir uma máquina capaz de se levantar da água e “voar” sobre o oceano.

Chama-se Ferrari Hypersail, tem 100 pés — cerca de 30 metros — e é o primeiro grande projeto da marca de Maranello na vela oceânica. Mas há um detalhe menos conhecido: uma parte da tecnologia aplicada ao veleiro chega através de uma empresa controlada pela portuguesa CIN.

A ligação é feita pela Boero Yacht Coatings, especialista italiana em revestimentos para embarcações e parceira técnica do Hypersail. A própria empresa identifica a CIN – Corporação Industrial do Norte como a entidade responsável pela sua direção e coordenação.

E a história voltou a ganhar atualidade esta semana. A Boero anunciou a 16 de setembro que levará a colaboração com o Ferrari Hypersail ao Monaco Yacht Show, que decorre entre 23 e 26 de setembro.

Um Ferrari feito para “voar”

O Hypersail está longe de ser apenas um exercício de marketing com o símbolo do Cavallino Rampante numa vela.

O projeto é liderado pelo navegador italiano Giovanni Soldini e foi concebido pelo arquiteto naval Guillaume Verdier. O monocasco utiliza foils para elevar grande parte do casco acima da água e reduzir a resistência, permitindo-lhe literalmente navegar apoiado em vários pontos enquanto “voa” sobre a superfície.

A Ferrari explica que uma das soluções mais invulgares passa pela utilização da própria quilha basculante como suporte de um dos foils. Os restantes pontos de apoio são um foil no leme e, alternadamente, os foils laterais.

Há também tecnologia diretamente ligada à experiência automóvel da Ferrari. O sistema de controlo de voo foi desenvolvido a partir de conhecimentos adquiridos nos automóveis da marca, incluindo processos de cálculo aerodinâmico e estrutural. O projeto já originou nove patentes, com outras seis em preparação quando foi apresentado.

Sem motor de combustão e sem “pit stops”

Talvez o número mais impressionante seja, porém, zero.

O Hypersail não terá qualquer motor de combustão. A Ferrari diz que toda a energia necessária para operar os sistemas de controlo dos foils, quilha e leme, bem como computadores e restantes equipamentos de bordo, terá de ser produzida durante a navegação.

Para isso recorrerá exclusivamente a fontes renováveis, incluindo energia solar, eólica e cinética. O objetivo é permitir que o veleiro atravesse o oceano sem escalas, sem assistência exterior e, como gosta de dizer a Ferrari, sem “pit stops”.

E onde entra Portugal?

É precisamente num dos detalhes em que a Ferrari costuma ser obsessiva: o peso.

A Boero Yacht Coatings desenvolveu para o Hypersail um sistema integrado de revestimento do casco e das superfícies, pensado para resistir às condições extremas da navegação oceânica.

Esta semana, a empresa revelou mais sobre esse trabalho: o desenvolvimento concentrou-se na otimização das espessuras e dos materiais utilizados, procurando reduzir o peso total e contribuir para aumentar a eficiência da embarcação. Num projeto em que cada grama conta, até a pintura deixa de ser apenas pintura.

A ligação portuguesa surge através da CIN, grupo português que controla o Gruppo Boero. É assim que conhecimento industrial sob controlo português acaba integrado num dos projetos tecnológicos mais invulgares alguma vez desenvolvidos pela Ferrari.

A decoração final já foi revelada: combina o Grigio Hypersail, inspirado na aparência natural da fibra de carbono, com o Giallo Fly, amarelo historicamente associado à Ferrari.

O Hypersail foi anunciado com lançamento à água previsto para 2026, seguindo-se os primeiros testes. Para a Ferrari, porém, o objetivo vai muito além de construir um veleiro rápido: a marca assume o projeto como um laboratório onde tecnologias desenvolvidas no oceano poderão regressar, um dia, aos automóveis.

Depois de Le Mans e da Fórmula 1, Maranello encontrou assim um novo circuito de testes. Só que desta vez não há asfalto, boxes ou escapatórias.

Há um oceano inteiro.