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A fraude no conta-quilómetros sai cara aos condutores portugueses: compradores podem perder milhares sem perceber

Automonitor

Manipulação da quilometragem faz aumentar, em média, 20,1% o valor atribuído aos veículos afetados no mercado nacional

Comprar um automóvel usado por 20 mil euros e descobrir que, na realidade, vale apenas cerca de 16.700 euros. É este o impacto que a fraude no conta-quilómetros pode ter em Portugal, segundo um estudo da carVertical, que conclui que a manipulação da quilometragem faz aumentar, em média, 20,1% o valor atribuído aos veículos afetados no mercado nacional.

O problema vai, no entanto, além do dinheiro pago no momento da compra. Um automóvel que percorreu dezenas de milhares de quilómetros a mais do que indica o conta-quilómetros pode implicar manutenção inesperada, avarias mais frequentes e até riscos de segurança para um comprador que desconhece o verdadeiro desgaste do veículo.

Segundo a carVertical, 5,2% dos veículos analisados em Portugal apresentavam sinais de manipulação da quilometragem. Nos casos identificados, tinham sido retirados, em média, cerca de 55.500 quilómetros ao valor real.

“Uma vez que nem todos os registos de quilometragem estão digitalizados, pode ser bastante difícil determinar se o conta-quilómetros de um veículo foi adulterado. Além disso, os países ainda não trocam dados sobre veículos de forma consistente, o que deixa os compradores de carros usados na ignorância”, explica Matas Buzelis, especialista no mercado automóvel da carVertical.

A fraude no conta-quilómetros sai cara aos condutores portugueses: compradores podem perder milhares sem perceber

Um carro de 20 mil euros pode valer apenas 16.700

As consequências financeiras podem ser consideráveis. De acordo com os cálculos apresentados pela empresa, a fraude no conta-quilómetros inflaciona em média 20,1% o valor dos veículos afetados em Portugal.

Assim, um automóvel colocado à venda por 20 mil euros depois de ter a quilometragem manipulada poderá ter um valor real de aproximadamente 16.700 euros — uma diferença de cerca de 3.300 euros.

“Ao diminuir os quilómetros, os vendedores desonestos podem criar a ilusão de que um veículo está em melhor estado do que realmente está. Quanto mais caro for o carro, mais dinheiro os compradores podem perder. Isto é especialmente relevante para quem compra veículos usados mais recentes e de gama alta”, alerta Buzelis.

Em Portugal são apagados, em média, 55.500 quilómetros

Os dados mostram também diferenças consideráveis entre mercados europeus.

Entre os veículos analisados pela carVertical em Portugal, 5,2% apresentavam quilometragem manipulada, com uma redução média de aproximadamente 55.500 quilómetros.

Na Alemanha, a percentagem de automóveis em que foi detetada esta prática foi inferior, de 1,7%, mas o impacto estimado no valor dos veículos adulterados chegou aos 49,3%, o mais elevado entre os países incluídos no estudo. Em média, terão sido retirados 34.400 quilómetros.

No extremo oposto surge a Sérvia, onde a carVertical estima que a manipulação da quilometragem provoque um impacto de 9,3% no valor. Cerca de 3,9% dos automóveis analisados apresentavam quilometragem adulterada, com uma redução média de 53.500 quilómetros.

Comprar fora do país pode dificultar a deteção

A circulação de automóveis usados entre diferentes países europeus acrescenta outra dificuldade. Segundo Buzelis, a inexistência de uma partilha consistente de informação sobre o histórico dos veículos permite que algumas irregularidades sejam mais difíceis de identificar quando um carro atravessa fronteiras.

A carVertical salienta que a Alemanha é o maior exportador de automóveis usados da União Europeia, estimando cerca de dois milhões de veículos exportados anualmente para outros Estados-membros, seguida por Itália, Bélgica e Países Baixos.

Quando parte da informação relativa ao histórico desses automóveis não acompanha o veículo, sustenta a empresa, o comprador pode ficar sem dados importantes para avaliar aquilo que está realmente a adquirir.

“Quando os condutores compram carros cuja quilometragem real é significativamente superior à anunciada, não só pagam em excesso, como também podem ter dificuldade em planear corretamente a manutenção, ter avarias mais frequentes ou até acabar por conduzir um veículo inseguro”, refere Buzelis.

Como reduzir o risco?

A recomendação da carVertical passa por verificar o histórico do automóvel antes de concluir a compra, procurando registos anteriores de quilometragem e eventuais discrepâncias ao longo da vida do veículo.

A análise pode permitir perceber não apenas se houve uma redução artificial dos quilómetros apresentados, mas também a dimensão da alteração e, quando existirem dados suficientes, o momento em que terá ocorrido.

O estudo da carVertical abrangeu 16 países europeus e utilizou relatórios de histórico de veículos adquiridos pelos clientes da empresa entre abril de 2025 e março de 2026. Foram analisados automóveis fabricados entre 2005 e 2025, comparando veículos com quilometragem real e manipulada.

A carVertical é uma empresa especializada em dados do setor automóvel e afirma recolher informação proveniente de mais de mil fontes globais, incluindo registos nacionais e regionais, autoridades policiais, instituições financeiras e plataformas de classificados em 37 países.