Há Ferraris raros. Há Ferraris feitos para clientes especiais. E depois há um Ferrari do qual, literalmente, não existe outro igual.
À primeira vista, pode parecer apenas um Enzo pintado de preto mate. Mas aquele Nero Opaco não foi aplicado anos mais tarde para satisfazer o gosto de algum colecionador.
Saiu assim de Maranello.
Dos 400 Ferrari Enzo produzidos entre 2002 e 2004, este terá sido o único entregue novo pela fábrica com acabamento preto mate. Foi uma encomenda especial de um membro da família real do Brunei, conhecida por ter reunido uma das coleções automóveis mais extraordinárias do mundo e por convencer fabricantes a criar automóveis que dificilmente fariam para qualquer outro cliente.
Mais de duas décadas depois, o carro voltou ao mercado.
A RM Sotheby’s colocou-o à venda através do leilão Sealed September. O preço esperado não é divulgado publicamente e está disponível apenas mediante pedido.
Mas há algumas pistas sobre aquilo que poderá estar em causa.
400 Enzo. Só um saiu assim de Maranello
O Ferrari Enzo já não precisava de qualquer ajuda para se tornar raro. Produzido entre 2002 e 2004 e batizado em homenagem ao fundador da marca, tornou-se num dos Ferrari mais desejados deste século.
Mas o cliente deste exemplar não queria a configuração que se esperaria encontrar num dos supercarros mais especiais de Maranello. Nada de Rosso Corsa. Escolheu Nero Opaco.
Segundo a RM Sotheby’s, tornou-se no único Enzo entregue novo pela Ferrari com aquele acabamento preto mate de fábrica.
A construção começou a 8 de junho de 2004 e ficou concluída em outubro.
O destino seguinte também não foi propriamente comum. Londres.
De Maranello para uma residência da família real do Brunei
O Enzo foi inicialmente mantido na residência londrina da família real do Brunei.
E não passou toda a vida escondido numa garagem.
Segundo o historial apresentado pela leiloeira, o Ferrari fez aparições ocasionais pelas ruas de Hampstead, Mayfair e Knightsbridge antes de ser posteriormente levado para a região da Ásia-Pacífico.
O preto continuava no interior.
Bancos em pele Nero e alcatifas da mesma tonalidade contrastam apenas com alguns apontamentos, entre os quais a instrumentação vermelha. Este exemplar recebeu também os bancos de maiores dimensões.
Debaixo da aparência quase furtiva estava, naturalmente, a mesma mecânica que ajudou a transformar o Enzo numa referência da sua geração.
Um V12 que não precisava de eletrificação
No centro de tudo está um V12 atmosférico de 6,0 litros.
São cerca de 660 cv, enviados às rodas através de uma caixa manual automatizada de seis velocidades, numa máquina construída extensivamente em fibra de carbono e carregada de tecnologia derivada da Fórmula 1.
A velocidade máxima ronda os 350 km/h.
Hoje, números desta ordem já aparecem associados a hipercarros eletrificados com potências muito superiores.
Em 2004, o Enzo fazia-o com um V12 atmosférico, baixo peso e tecnologia que aproximava a estrada do universo da Fórmula 1.
Mas a vida deste exemplar ainda teria outro capítulo.
Mais de 110 mil euros para voltar a ser exatamente como nasceu
Em 2022, o carro regressou à Europa e foi entregue à Carrozzeria Zanasi, especialista historicamente ligada aos trabalhos mais exclusivos da Ferrari.
A intervenção não foi pequena.
Foram gastos mais de 110 mil euros numa restauração estética que incluiu novos faróis, substituição do vidro da cobertura traseira e intervenção nos conhecidos comandos interiores da época, cuja superfície tende a tornar-se pegajosa com o passar dos anos.
Mas o trabalho mais importante estava do lado de fora.
O Enzo foi integralmente repintado. Na mesma cor com que tinha saído de Maranello: Nero Opaco.
Nesse mesmo ano recebeu a certificação Ferrari Classiche, mantendo chassis, motor, caixa de velocidades e carroçaria originais.
22 anos e apenas 5.763 quilómetros
Há outro número capaz de tornar este Enzo ainda mais apetecível para um colecionador.
5.763 quilómetros.
É tudo o que percorreu desde novo.
Em agosto de 2024, quando o conta-quilómetros marcava 5.742 km, recebeu ainda uma nova embraiagem e duas bombas de combustível.
Ou seja, desde essa intervenção percorreu apenas algumas dezenas de quilómetros.
E agora pode mudar novamente de garagem.
Quanto vale o único Enzo preto mate de fábrica?
A RM Sotheby’s não publicou uma estimativa aberta para o automóvel, disponibilizando-a apenas mediante pedido.
Há uma certeza: os cerca de 660 mil dólares que um Enzo custava quando era novo pertencem a outra era.
Os exemplares mais especiais já entraram há muito no território dos vários milhões.
Em janeiro de 2026, um Enzo particularmente significativo chegou mesmo aos 17 milhões de dólares numa venda, embora esse valor não possa ser utilizado diretamente como referência para todos os exemplares.
Este tem outro argumento.
Não é apenas um Ferrari Enzo com poucos quilómetros.
É um Enzo encomendado pela família real do Brunei, que viveu numa residência londrina, regressou às mãos de especialistas ligados à Ferrari para uma restauração superior a 110 mil euros e conserva a certificação Ferrari Classiche.
E, sobretudo, é preto mate.
Hoje isso pode não parecer particularmente revolucionário.
Em 2004, convencer Maranello a entregar um Enzo assim era outra história.
Dos 400 que a Ferrari construiu, só um nasceu desta maneira.






