A Mercedes-Benz decidiu alterar a sua estratégia para a condução autónoma. Depois de ter sido pioneira na introdução de um sistema de nível 3, a marca alemã está agora a apostar numa tecnologia de nível 2 mais avançada, enquanto prepara o salto para o nível 4, que não deverá chegar antes de 2030.
A mudança foi explicada por Jörg Burzer, diretor de tecnologia da Mercedes-Benz, durante um encontro com jornalistas, segundo a publicação ‘Road & Track’. O responsável reconheceu que a marca chegou demasiado cedo ao mercado com uma tecnologia cuja utilização prática acabaria por revelar algumas limitações.
A Mercedes-Benz tinha conseguido um marco importante quando o seu sistema Drive Pilot recebeu autorização para funcionar no estado do Nevada, nos EUA, tornando-se uma das primeiras soluções de condução automatizada de nível 3 disponíveis comercialmente.
O problema estava nas condições em que podia ser utilizado. O sistema funcionava apenas até cerca de 64 km/h, uma velocidade que restringia significativamente a sua utilidade nas autoestradas, sobretudo fora das situações de trânsito congestionado.
“Por vezes, quando chegamos demasiado cedo, percebemos que temos de trabalhar naquilo que o cliente realmente pretende”, reconheceu Burzer, apontando a utilização prática como um dos principais desafios enfrentados pela marca.
Um passo atrás que pode representar um avanço
Em vez de continuar a desenvolver imediatamente o Drive Pilot de nível 3, a Mercedes-Benz decidiu concentrar os seus esforços num sistema de assistência à condução de nível 2 mais sofisticado, que designa por nível 2++.
A tecnologia está a ser introduzida no Classe S renovado e deverá chegar a outros modelos da marca.
Embora represente formalmente um nível inferior de automatização, poderá revelar-se mais útil no quotidiano, permitindo uma assistência mais abrangente em diferentes condições de circulação.
A distinção fundamental está na responsabilidade do condutor.
Num sistema de nível 3, quando estão reunidas as condições de funcionamento e a tecnologia assume efetivamente a condução, o automobilista pode deixar de acompanhar permanentemente a estrada, embora tenha de estar disponível para retomar o controlo quando solicitado.
Já no nível 2, mesmo nas versões mais avançadas, o condutor continua responsável pela condução e tem de supervisionar permanentemente o funcionamento do sistema.
A Mercedes-Benz pretende, contudo, ir além da assistência convencional em autoestrada.
O objetivo é permitir que o automóvel execute percursos entre dois destinos, incluindo em ambiente urbano, realizando grande parte das tarefas de condução, mas sempre sob supervisão humana.
Esta capacidade deverá ser introduzida progressivamente, nos próximos meses, nos mercados e modelos em que a tecnologia estiver disponível.
O verdadeiro objetivo é chegar ao nível 4
A decisão não significa que a Mercedes-Benz tenha abandonado a ambição de desenvolver automóveis capazes de circular sem intervenção humana.
Pelo contrário, a experiência acumulada com o Drive Pilot e com os novos sistemas de assistência levou a marca a redefinir as suas prioridades.
Segundo Burzer, o Classe S pode integrar até 27 sensores associados ao sistema de nível 2++, uma arquitetura que permitirá continuar a desenvolver as capacidades de perceção e automatização do veículo.
“Com esta experiência, decidimos essencialmente avançar para o nível 4”, explicou o responsável.
Neste patamar, o automóvel pode executar todas as tarefas de condução sem necessidade de intervenção humana, desde que permaneça dentro das condições e áreas para as quais o sistema foi concebido.
Ao contrário do nível 3, o condutor não tem de estar preparado para assumir imediatamente o controlo quando o sistema está a funcionar dentro dessas condições.
A Mercedes-Benz reconhece, porém, que ainda será necessário ultrapassar importantes desafios tecnológicos antes de disponibilizar esta capacidade nos seus automóveis de passageiros.
Burzer aponta para uma chegada posterior a 2030, admitindo que a introdução das diferentes funcionalidades deverá acontecer de forma gradual.
A circulação autónoma em ambiente urbano, onde existem peões, ciclistas, cruzamentos e situações de trânsito mais imprevisíveis, deverá ser uma das últimas capacidades a ficar plenamente disponível.
A estratégia da Mercedes-Benz passa, assim, por privilegiar sistemas de assistência mais úteis e abrangentes no presente, enquanto prepara uma geração de automóveis capazes de assumir verdadeiramente a condução no futuro.
Uma mudança de prioridades que demonstra como, na corrida à condução autónoma, chegar primeiro nem sempre significa oferecer a melhor solução.






