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Europa abre-lhes as portas, os EUA querem fechá-las de vez: grandes fabricantes exigem proibição dos carros chineses

Europa abre-lhes as portas, os EUA querem fechá-las de vez: grandes fabricantes exigem proibição dos carros chineses
Francisco Laranjeira

Posição foi defendida por John Bozzella, presidente e diretor executivo da Alliance for Automotive Innovation, uma associação que representa um conjunto alargado de fabricantes automóveis com atividade no mercado dos EUA

Os principais fabricantes automóveis representados nos Estados Unidos estão a pressionar o Congresso para transformar as atuais restrições aos veículos chineses numa proibição permanente. A iniciativa reúne empresas como a General Motors, Toyota, Ferrari e Porsche e surge numa altura em que a presença de automóveis produzidos na China continua a crescer no mercado europeu.

Segundo a ‘Road & Track’, a posição foi defendida por John Bozzella, presidente e diretor executivo da Alliance for Automotive Innovation, uma associação que representa um conjunto alargado de fabricantes automóveis com atividade no mercado dos EUA.

O responsável considera que a entrada de veículos chineses representa simultaneamente um risco para a segurança nacional e uma ameaça à competitividade da indústria automóvel instalada no país.

“Precisamos de proteger o mercado dos EUA de uma inundação de importações chinesas que representam riscos de vigilância e prejudicam os fabricantes que realizaram investimentos de várias gerações nas comunidades americanas”, afirmou Bozzella, citado pela ‘Reuters’.

A associação defende, por isso, que o Congresso aprove legislação capaz de impedir permanentemente a entrada destes veículos no mercado.

Democratas e republicanos estão de acordo

A proposta conta com apoios dos dois principais partidos dos EUA, algo particularmente relevante num contexto de forte polarização política.

A senadora democrata Elissa Slotkin e o senador republicano Bernie Moreno apresentaram este ano o Connected Vehicle Security Act of 2026, um projeto legislativo destinado a reforçar as restrições aos veículos chineses conectados.

A iniciativa foi aprovada por unanimidade na Comissão de Comércio do Senado durante o verão e poderá ser submetida a votação na próxima semana, durante a curta sessão legislativa que se segue às eleições intercalares.

Na Câmara dos Representantes, uma proposta equivalente já reuniu mais de uma centena de congressistas como copatrocinadores.

Apesar destes apoios, a aprovação definitiva ainda não está garantida.

Segundo a ‘Reuters’, assessores parlamentares e especialistas do setor admitem que o calendário legislativo poderá ser demasiado apertado para concluir o processo nesta sessão.

Fabricantes apontam para o que está a acontecer na Europa

Para a indústria automóvel instalada nos EUA, o crescimento das importações europeias provenientes da China constitui um aviso sobre as consequências de permitir a entrada destes fabricantes.

John Bozzella afirmou que a União Europeia importou mais de 1,1 milhões de automóveis produzidos na China durante os primeiros oito meses de 2026.

Segundo os números apresentados pelo responsável, este volume ultrapassa o total registado durante todo o ano de 2025.

Importa, contudo, distinguir automóveis fabricados na China de veículos pertencentes exclusivamente a marcas chinesas, uma vez que várias marcas internacionais também produzem automóveis naquele país.

A pressão competitiva já está a provocar mudanças importantes na indústria europeia.

O Grupo Volkswagen, também representado pela Alliance for Automotive Innovation, apontou a concorrência dos fabricantes chineses como um dos fatores que contribuíram para o seu plano de reestruturação anunciado este ano.

O programa prevê uma redução significativa de postos de trabalho e uma reorganização da gama de modelos.

Bozzella considera que os EUA devem evitar uma situação semelhante.

“Perante o evidente risco para a segurança nacional e o padrão de práticas desleais da China, o Congresso deve proteger a nossa base industrial de defesa e de produção avançada e impedir que os fabricantes chineses façam aqui aquilo que conseguiram fazer na Europa”, defendeu.

Restrições começaram durante a presidência de Joe Biden

A atual ofensiva legislativa não representa o início das limitações impostas aos automóveis chineses.

As primeiras regras foram introduzidas durante a administração de Joe Biden, tendo como principal justificação os riscos associados à privacidade dos dados e à segurança dos veículos conectados.

Estas medidas restringem a utilização de determinadas tecnologias e componentes associados à China, afetando a possibilidade de comercialização de veículos no mercado dos EUA.

Segundo a ‘Road & Track’, uma das marcas atingidas por este enquadramento é a Polestar, cuja atividade comercial no país ficará condicionada pelas regras previstas para 2027.

A nova proposta legislativa pretende ir mais longe, procurando transformar as restrições existentes numa proibição permanente.

A senadora Elissa Slotkin considera que a questão ultrapassa a concorrência comercial.

“Penso que é uma questão de segurança económica e de segurança nacional”, afirmou numa entrevista concedida à ‘Road & Track’ em abril.

A responsável acusa o Governo chinês de subsidiar fortemente a sua indústria e de utilizar essa vantagem para colocar produtos no mercado a preços capazes de prejudicar os concorrentes.

Slotkin apontou também os setores dos drones e da energia solar como exemplos de áreas em que considera que a estratégia industrial chinesa produziu efeitos significativos.

Estas acusações integram a posição política dos defensores das restrições e não constituem, por si só, uma demonstração de que todos os veículos chineses representam um risco concreto de vigilância.

Tarifas de 100% já dificultam a entrada dos elétricos chineses

Mesmo sem uma nova proibição legislativa, os fabricantes chineses enfrentam obstáculos significativos para entrar no mercado dos EUA.

Entre eles encontra-se uma tarifa de 100% aplicada aos automóveis elétricos importados da China, que continua em vigor.

Esta barreira comercial, associada às restrições tecnológicas já existentes, limita fortemente a competitividade dos veículos chineses naquele mercado.

A legislação agora em discussão pretende acrescentar uma proteção de caráter permanente, reduzindo a possibilidade de futuras alterações políticas permitirem uma abertura mais ampla.

A decisão terá implicações que ultrapassam o mercado dos EUA.

Enquanto os fabricantes chineses procuram reforçar a sua presença na Europa e noutros mercados internacionais, a indústria automóvel instalada nos EUA pretende garantir que o seu mercado permanece protegido de uma concorrência que considera simultaneamente económica e estrategicamente arriscada.

Para já, a aprovação da nova lei continua dependente do Congresso. Mas a pressão dos fabricantes e o apoio de democratas e republicanos mostram que as restrições aos automóveis chineses se tornaram uma prioridade partilhada por diferentes setores da política dos EUA.