Os principais fabricantes automóveis representados nos Estados Unidos estão a pressionar o Congresso para transformar as atuais restrições aos veículos chineses numa proibição permanente. A iniciativa reúne empresas como a General Motors, Toyota, Ferrari e Porsche e surge numa altura em que a presença de automóveis produzidos na China continua a crescer no mercado europeu.
Segundo a ‘Road & Track’, a posição foi defendida por John Bozzella, presidente e diretor executivo da Alliance for Automotive Innovation, uma associação que representa um conjunto alargado de fabricantes automóveis com atividade no mercado dos EUA.
O responsável considera que a entrada de veículos chineses representa simultaneamente um risco para a segurança nacional e uma ameaça à competitividade da indústria automóvel instalada no país.
“Precisamos de proteger o mercado dos EUA de uma inundação de importações chinesas que representam riscos de vigilância e prejudicam os fabricantes que realizaram investimentos de várias gerações nas comunidades americanas”, afirmou Bozzella, citado pela ‘Reuters’.
A associação defende, por isso, que o Congresso aprove legislação capaz de impedir permanentemente a entrada destes veículos no mercado.
Democratas e republicanos estão de acordo
A proposta conta com apoios dos dois principais partidos dos EUA, algo particularmente relevante num contexto de forte polarização política.
A senadora democrata Elissa Slotkin e o senador republicano Bernie Moreno apresentaram este ano o Connected Vehicle Security Act of 2026, um projeto legislativo destinado a reforçar as restrições aos veículos chineses conectados.
A iniciativa foi aprovada por unanimidade na Comissão de Comércio do Senado durante o verão e poderá ser submetida a votação na próxima semana, durante a curta sessão legislativa que se segue às eleições intercalares.
Na Câmara dos Representantes, uma proposta equivalente já reuniu mais de uma centena de congressistas como copatrocinadores.
Apesar destes apoios, a aprovação definitiva ainda não está garantida.
Segundo a ‘Reuters’, assessores parlamentares e especialistas do setor admitem que o calendário legislativo poderá ser demasiado apertado para concluir o processo nesta sessão.
Fabricantes apontam para o que está a acontecer na Europa
Para a indústria automóvel instalada nos EUA, o crescimento das importações europeias provenientes da China constitui um aviso sobre as consequências de permitir a entrada destes fabricantes.
John Bozzella afirmou que a União Europeia importou mais de 1,1 milhões de automóveis produzidos na China durante os primeiros oito meses de 2026.
Segundo os números apresentados pelo responsável, este volume ultrapassa o total registado durante todo o ano de 2025.
Importa, contudo, distinguir automóveis fabricados na China de veículos pertencentes exclusivamente a marcas chinesas, uma vez que várias marcas internacionais também produzem automóveis naquele país.
A pressão competitiva já está a provocar mudanças importantes na indústria europeia.
O Grupo Volkswagen, também representado pela Alliance for Automotive Innovation, apontou a concorrência dos fabricantes chineses como um dos fatores que contribuíram para o seu plano de reestruturação anunciado este ano.
O programa prevê uma redução significativa de postos de trabalho e uma reorganização da gama de modelos.
Bozzella considera que os EUA devem evitar uma situação semelhante.
“Perante o evidente risco para a segurança nacional e o padrão de práticas desleais da China, o Congresso deve proteger a nossa base industrial de defesa e de produção avançada e impedir que os fabricantes chineses façam aqui aquilo que conseguiram fazer na Europa”, defendeu.
Restrições começaram durante a presidência de Joe Biden
A atual ofensiva legislativa não representa o início das limitações impostas aos automóveis chineses.
As primeiras regras foram introduzidas durante a administração de Joe Biden, tendo como principal justificação os riscos associados à privacidade dos dados e à segurança dos veículos conectados.
Estas medidas restringem a utilização de determinadas tecnologias e componentes associados à China, afetando a possibilidade de comercialização de veículos no mercado dos EUA.
Segundo a ‘Road & Track’, uma das marcas atingidas por este enquadramento é a Polestar, cuja atividade comercial no país ficará condicionada pelas regras previstas para 2027.
A nova proposta legislativa pretende ir mais longe, procurando transformar as restrições existentes numa proibição permanente.
A senadora Elissa Slotkin considera que a questão ultrapassa a concorrência comercial.
“Penso que é uma questão de segurança económica e de segurança nacional”, afirmou numa entrevista concedida à ‘Road & Track’ em abril.
A responsável acusa o Governo chinês de subsidiar fortemente a sua indústria e de utilizar essa vantagem para colocar produtos no mercado a preços capazes de prejudicar os concorrentes.
Slotkin apontou também os setores dos drones e da energia solar como exemplos de áreas em que considera que a estratégia industrial chinesa produziu efeitos significativos.
Estas acusações integram a posição política dos defensores das restrições e não constituem, por si só, uma demonstração de que todos os veículos chineses representam um risco concreto de vigilância.
Tarifas de 100% já dificultam a entrada dos elétricos chineses
Mesmo sem uma nova proibição legislativa, os fabricantes chineses enfrentam obstáculos significativos para entrar no mercado dos EUA.
Entre eles encontra-se uma tarifa de 100% aplicada aos automóveis elétricos importados da China, que continua em vigor.
Esta barreira comercial, associada às restrições tecnológicas já existentes, limita fortemente a competitividade dos veículos chineses naquele mercado.
A legislação agora em discussão pretende acrescentar uma proteção de caráter permanente, reduzindo a possibilidade de futuras alterações políticas permitirem uma abertura mais ampla.
A decisão terá implicações que ultrapassam o mercado dos EUA.
Enquanto os fabricantes chineses procuram reforçar a sua presença na Europa e noutros mercados internacionais, a indústria automóvel instalada nos EUA pretende garantir que o seu mercado permanece protegido de uma concorrência que considera simultaneamente económica e estrategicamente arriscada.
Para já, a aprovação da nova lei continua dependente do Congresso. Mas a pressão dos fabricantes e o apoio de democratas e republicanos mostram que as restrições aos automóveis chineses se tornaram uma prioridade partilhada por diferentes setores da política dos EUA.






