Os automóveis ainda não voam como muitas previsões futuristas imaginaram, mas já são capazes de “ver” o que os rodeia. No caso de alguns Tesla, porém, essa capacidade está a produzir resultados particularmente estranhos: condutores começaram a publicar vídeos em que os automóveis representam figuras humanas no ecrã enquanto circulam por cemitérios, mesmo quando aparentemente não existe ninguém junto ao veículo.
Segundo o ‘El Economista’, o fenómeno tornou-se viral nas redes sociais, onde vários utilizadores decidiram levar os seus Tesla a cemitérios para testar o comportamento do sistema.
O resultado em alguns desses vídeos é desconcertante: no ecrã do automóvel surgem representações de pessoas junto ao veículo, apesar de nas imagens partilhadas serem visíveis essencialmente campas e lápides.
Foi o suficiente para os Tesla ganharem nas redes sociais uma nova alcunha: “caça-fantasmas”.
O Tesla está realmente a ver pessoas?
Não há, naturalmente, qualquer evidência de fantasmas envolvidos.
O que os vídeos mostram é a forma como o sistema do automóvel interpreta e representa determinados elementos existentes à sua volta.
Os Tesla utilizam câmaras e sistemas de processamento de imagem para reconhecer veículos, peões e outros elementos do ambiente. Essa informação é depois utilizada pelos sistemas de assistência à condução e parte dela pode ser apresentada graficamente ao condutor no ecrã.
O problema é que os sistemas de reconhecimento não são infalíveis.
Uma lápide, uma estátua, uma sombra ou uma combinação de formas e contrastes pode, em determinadas circunstâncias, ser interpretada pelo sistema como algo diferente daquilo que realmente é.
É essa possibilidade de classificação incorreta que fornece uma explicação plausível para as figuras humanas apresentadas nos vídeos — e não a presença de pessoas que apenas o automóvel conseguiria “ver”.
@yucalike Conductor de Tesla se Sorprende al Detectar "Personas" y una Motocicleta en un Cementerio Un conductor de Tesla se sorprendió al ver en el monitor de su vehículo la presencia de tres personas y una motocicleta mientras circulaba por un cementerio. Al detenerse y revisar el área, descubrió que no había nadie, solo flores y una motocicleta de juguete. Compartió su experiencia en redes sociales, y otros propietarios de Teslas confirmaron haber tenido experiencias similares. #tesla #Noticias ♬ Suspense, horror, piano and music box – takaya
Condutores começaram a testar o fenómeno
Depois dos primeiros vídeos, outros proprietários começaram a repetir a experiência.
Segundo o ‘El Economista’, as redes sociais encheram-se de publicações de utilizadores que visitaram cemitérios para verificar se os respetivos Tesla também apresentavam figuras humanas junto às campas.
Em alguns casos, aparecem no ecrã silhuetas utilizadas pelo sistema para representar peões, apesar de os autores dos vídeos afirmarem não existir qualquer pessoa naquele local.
Isso transformou um possível erro de interpretação do sistema num fenómeno viral, com utilizadores a brincar com a ideia de que os automóveis da Tesla seriam capazes de “detetar fantasmas”.
Reconhecer o mundo é fundamental para a condução autónoma
Por trás da curiosidade existe, porém, uma tecnologia fundamental para o futuro do automóvel.
Um veículo capaz de circular com níveis cada vez maiores de automatização precisa de identificar continuamente aquilo que existe à sua volta: outros automóveis, pessoas, bicicletas, obstáculos e elementos da estrada.
É precisamente essa interpretação do ambiente que permite ao sistema tomar decisões e tentar antecipar potenciais situações de perigo.
A Tesla tem colocado esta tecnologia no centro da sua estratégia de condução autónoma e de robotáxis.
A empresa de Elon Musk lançou recentemente no Texas o seu serviço Cybercab e expandiu a frota para mais de 420 veículos.
Empresas como Waymo e Uber estão igualmente a desenvolver ou explorar serviços ligados à condução autónoma, numa tecnologia que já colocou robotáxis nas ruas de algumas cidades dos EUA e que deverá continuar a expandir-se nos próximos anos.
Dos “fantasmas” a um problema bem real
Os vídeos dos cemitérios têm sobretudo uma dimensão curiosa e viral. Mas mostram também, de forma particularmente visual, um dos desafios que os sistemas automatizados enfrentam: uma máquina não “vê” necessariamente o mundo da mesma forma que uma pessoa.
As câmaras recolhem imagens e os sistemas de processamento tentam classificá-las segundo padrões aprendidos. E essa interpretação pode produzir falsos positivos.
Assim, quando um Tesla apresenta no ecrã a silhueta de uma pessoa junto de uma campa, isso não significa necessariamente que tenha detetado fisicamente um ser humano naquele ponto.
Pode simplesmente significar que encontrou formas suficientes para concluir, erradamente, que estava alguém ali.
Menos sobrenatural do que sugerem os vídeos — mas provavelmente muito mais interessante para perceber como os automóveis tentam aprender a interpretar o mundo que os rodeia.






