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Explicador. Mesmo grupo, estratégias opostas: porque é que a Porsche não quer fabricar carros nos EUA como a Audi?

Explicador. Mesmo grupo, estratégias opostas: porque é que a Porsche não quer fabricar carros nos EUA como a Audi?
Francisco Laranjeira

Decisão da Porsche surge numa altura em que a indústria alemã enfrenta uma pressão crescente para transferir parte da produção para os EUA

A Audi prepara um investimento superior a 3,4 mil milhões de euros para construir a sua primeira fábrica nos Estados Unidos. A Porsche, que pertence ao mesmo grupo Volkswagen e enfrenta exatamente o mesmo problema com as tarifas comerciais de Donald Trump, não quer seguir esse caminho. Porque é que duas marcas do mesmo grupo chegam a conclusões tão diferentes? A resposta envolve custos de produção, rentabilidade, empregos na Alemanha e uma mudança que pode redesenhar o mapa da indústria automóvel.

Segundo a revista francesa ‘L’Automobile Magazine’, a decisão da Porsche surge numa altura em que a indústria alemã enfrenta uma pressão crescente para transferir parte da produção para os EUA. O objetivo é escapar aos direitos aduaneiros sobre os automóveis importados, mas construir uma fábrica no estrangeiro pode representar um risco financeiro ainda maior.

O que está em causa?

A Audi anunciou um investimento superior a quatro mil milhões de dólares, cerca de 3,4 mil milhões de euros, destinado a reforçar a sua presença industrial nos EUA, incluindo a construção da primeira fábrica da marca naquele país.

A decisão está diretamente relacionada com as tarifas impostas pela Administração Trump aos automóveis importados. Para os veículos provenientes da União Europeia, o atual enquadramento prevê uma taxa aduaneira de 15%.

Na prática, fabricar automóveis na Europa e vendê-los nos EUA tornou-se mais caro. As marcas têm duas opções principais: continuar a exportar e suportar os encargos ou investir na produção local para reduzir a exposição às tarifas.

A Audi escolheu a segunda via. A Porsche, pelo menos para já, prefere a primeira.

Porque é que a Porsche não quer seguir a Audi?

A Porsche não tem fábricas nos EUA e exporta todos os automóveis que vende naquele mercado, um dos mais importantes para a marca.

Seria, por isso, natural considerar uma unidade de produção local ou aproveitar a futura fábrica da Audi.

Mas Jochen Breckner, diretor financeiro da Porsche, afastou essa possibilidade.

“Na hipótese de ser construída uma fábrica da Audi nos Estados Unidos, não prevemos transferir a produção da Porsche para essa unidade”, afirmou, acrescentando que a marca continuará a acompanhar a concretização do investimento.

A principal razão é económica.

A Porsche produz menos automóveis do que a Audi e tem uma gama com características técnicas distintas, desde o 911 aos SUV e modelos elétricos.

Instalar a produção nos EUA exigiria adaptar linhas de montagem, organizar fornecedores e garantir volumes suficientes para compensar o investimento.

Uma fábrica que faça sentido para a Audi não é, necessariamente, rentável para a Porsche.

Então é preferível pagar tarifas de 15%?

Nas condições atuais, é essa a conclusão da Porsche.

A marca considera que os custos adicionais das exportações são menos prejudiciais do que o investimento necessário para criar uma estrutura de produção nos EUA.

Importa perceber que uma tarifa de 15% não corresponde automaticamente a um aumento de 15% no preço de venda de um automóvel.

O fabricante pode absorver parte do encargo, ajustar as margens ou repercutir uma parcela no consumidor.

Mesmo assim, a exposição é significativa. A América do Norte representa aproximadamente um terço das vendas mundiais da Porsche, pelo que qualquer alteração nas condições comerciais tem consequências importantes.

A diferença está na capacidade de diluir os custos de uma fábrica por um grande número de automóveis.

Para a Audi, a produção local pode justificar um investimento de milhares de milhões. Para a Porsche, os volumes e a diversidade dos modelos tornam essa decisão mais difícil de rentabilizar.

Porque é que o investimento da Audi está a provocar polémica na Alemanha?

A decisão não está a ser discutida apenas pelas suas consequências económicas.

Gernot Döllner, presidente executivo da Audi, apresentou o investimento durante um evento de Donald Trump, numa altura politicamente sensível nos EUA.

A presença do responsável ao lado do presidente dos EUA provocou críticas entre os representantes dos trabalhadores na Alemanha.

Dani Cavallo, dirigente da representação laboral do grupo Volkswagen, acusou o responsável de se associar a um espetáculo de propaganda política.

A polémica é agravada pela situação da indústria automóvel alemã, onde vários fabricantes enfrentam reestruturações, pressão sobre os custos e incerteza quanto ao futuro de algumas unidades.

A perspetiva de investir milhares de milhões de euros e criar empregos nos EUA, enquanto existem preocupações com as fábricas alemãs, tornou-se particularmente sensível.

No caso da Audi, o futuro da unidade de Neckarsulm está entre os temas que alimentam essa inquietação.

O que pode acontecer aos empregos e às fábricas europeias?

A transferência de investimento para os EUA não significa necessariamente que uma fábrica alemã vá fechar.

Uma nova unidade pode servir sobretudo para abastecer o mercado local, reduzindo custos de transporte e tarifas.

Mas existe uma consequência potencial: parte do investimento que poderia ser realizado na Europa passa a ser direcionado para outro país.

A longo prazo, isso pode influenciar decisões sobre novos modelos, fornecedores, contratação e capacidade industrial.

É precisamente esta possibilidade que preocupa os representantes dos trabalhadores alemães.

A Porsche, ao manter a produção fora dos EUA, evita por agora essa transferência. Contudo, a decisão não elimina os problemas de rentabilidade e competitividade que a marca enfrenta.

E os consumidores portugueses? Podem ser afetados?

As tarifas em causa aplicam-se aos automóveis importados pelos EUA, pelo que não existe um aumento direto de 15% nos preços dos Porsche ou Audi vendidos em Portugal.

Os efeitos para o mercado europeu são sobretudo indiretos.

Se as marcas tiverem de suportar custos adicionais elevados nos EUA, poderão rever investimentos, estratégias comerciais e prioridades de desenvolvimento.

Por outro lado, a instalação de novas fábricas fora da Europa pode alterar, ao longo dos anos, a distribuição da produção e o lançamento de determinados modelos.

Não significa que os preços em Portugal vão necessariamente aumentar, mas mostra como uma decisão comercial tomada em Washington pode influenciar o futuro de fabricantes e fábricas europeias.

O que está agora em cima da mesa?

A Audi pretende avançar com a produção nos EUA, enquanto a Porsche não prevê transferir os seus automóveis para uma eventual unidade da marca irmã.

A evolução das tarifas continuará a ser determinante.

Se os encargos sobre as importações aumentarem, fabricar nos EUA poderá tornar-se mais interessante. Se diminuírem, manter a produção europeia poderá revelar-se uma opção financeiramente mais favorável.

Para já, a Volkswagen tem duas marcas perante o mesmo problema, mas com respostas diferentes.

A Audi considera que investir milhares de milhões de euros numa fábrica é a melhor forma de proteger o seu negócio nos EUA. A Porsche entende que esse investimento seria demasiado complexo e difícil de recuperar.

O caso mostra que as tarifas de Trump não estão apenas a encarecer automóveis importados. Estão também a obrigar os fabricantes a decidir onde querem produzir, investir e criar emprego nas próximas décadas.

A pressão sobre o grupo Volkswagen não se limita às tarifas dos EUA. Saiba também porque é que a Porsche deixou de ser a máquina de lucros do grupo e descubra como a marca pretende recuperar a rentabilidade vendendo menos automóveis.

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