A maioria das motos elétricas dispensa uma caixa de velocidades convencional. Basta acelerar e seguir viagem, sem mudanças de relação como acontece nas motos com motor de combustão. Mas uma empresa britânica decidiu recuperar precisamente aquilo que parecia ter ficado para trás: uma caixa de duas velocidades, capaz de mudar de relação sem interromper a força transmitida à roda.
Segundo o ‘Electrek’, a novidade será apresentada no salão de motos EICMA, em Milão, entre 3 e 8 de novembro, e poderá abrir caminho a uma nova geração de motos elétricas com melhor aceleração e maior eficiência.
Por detrás da tecnologia está a E-Motiv Shift Systems, empresa britânica que desenvolveu uma transmissão designada “seamless powershift”, pensada especificamente para veículos elétricos ligeiros.
Mas porque precisa uma moto elétrica de mudanças?
Nas motos tradicionais, a caixa de velocidades permite adaptar a força do motor às diferentes situações de condução. Uma relação mais curta favorece o arranque e a aceleração; uma relação mais longa ajuda a circular a velocidades superiores.
Os motores elétricos funcionam de maneira diferente. Como conseguem disponibilizar um binário elevado desde baixas rotações e trabalhar numa ampla faixa de funcionamento, a maioria das motos elétricas utiliza uma única relação de transmissão.
É uma solução simples, mas implica compromissos.
Uma relação escolhida para privilegiar a aceleração pode não ser a mais adequada para velocidades elevadas. E uma transmissão otimizada para circular depressa pode limitar a resposta inicial.
É precisamente aqui que entra a proposta da E-Motiv.
Com duas relações, os engenheiros podem procurar um melhor equilíbrio entre aceleração, velocidade e eficiência energética.
A empresa acredita que a solução poderá também ajudar a reduzir o consumo de energia, embora ainda não tenha apresentado números concretos sobre eventuais ganhos de autonomia.
Duas velocidades, mas sem perder força nas mudanças
A particularidade do sistema não está apenas na existência de duas relações.
Segundo a E-Motiv, a transmissão consegue passar de uma velocidade para outra sem interromper a entrega de binário à roda traseira.
Numa caixa convencional, a mudança de relação pode provocar uma breve interrupção da força transmitida. O sistema “seamless powershift” foi concebido para evitar essa quebra, mantendo a aceleração mais contínua.
A empresa afirma ainda que os fabricantes poderão ajustar o comportamento das mudanças às características de cada moto, criando respostas mais suaves ou mais desportivas.
E há um detalhe curioso: a ideia tem raízes no mundo da competição.
A ligação ao MotoGP
A tecnologia desenvolvida pela E-Motiv resulta da evolução de um sistema criado originalmente pela Zeroshift para motores de combustão, há cerca de 25 anos.
Uma versão dessa tecnologia foi integrada na Aprilia RS-GP de MotoGP em 2015.
A solução agora apresentada para motos elétricas não é a mesma caixa utilizada nas pistas. Trata-se de um desenvolvimento específico para motores elétricos, mas que aproveita princípios tecnológicos anteriormente explorados na competição.
O projeto recebeu financiamento de um milhão de libras através do programa britânico Innovate UK e envolveu a fabricante de motos BSA, a Universidade de Bath e o Instituto de Sistemas Avançados de Propulsão Automóvel (IAAPS).
Quando chega às estradas?
Para demonstrar o funcionamento da transmissão, está a ser construída uma moto experimental chamada Demo 1, com desenho de inspiração retro.
O projeto visual foi desenvolvido pela consultora britânica Envisage, enquanto a construção decorre nas instalações do IAAPS.
A apresentação pública da tecnologia está prevista para a EICMA, mas os primeiros testes da moto em condições reais só deverão começar no primeiro trimestre de 2027.
Ainda não existe uma data anunciada para a chegada desta caixa de velocidades a motos de produção, nem foram divulgados preços ou especificações completas de um eventual modelo comercial.
Também não há resultados independentes que permitam quantificar as melhorias de desempenho ou autonomia prometidas.
Para já, a E-Motiv quer demonstrar que uma solução praticamente dispensada pelas motos elétricas pode, afinal, voltar a ter utilidade.
E a ironia é essa: numa altura em que a eletrificação simplificou a condução e eliminou a necessidade de mudar de velocidade na maioria das motos, uma das novidades tecnológicas mais curiosas passa precisamente por recuperar as mudanças.
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