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Explicador: Europa quer travar a chegada de milhões de carros chineses. Vão ficar mais caros em Portugal?

Francisco Laranjeira

Depois de meses de negociações, Bruxelas anunciou um acordo para reduzir as exportações de automóveis híbridos chineses para a Europa, numa tentativa de proteger a indústria europeia e travar um desequilíbrio comercial

A União Europeia e a China chegaram a um entendimento que poderá alterar profundamente o mercado automóvel europeu nos próximos anos. Depois de meses de negociações, Bruxelas anunciou um acordo para reduzir as exportações de automóveis híbridos chineses para a Europa, numa tentativa de proteger a indústria europeia e travar um desequilíbrio comercial que já ultrapassa os mil milhões de euros por dia.

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O objetivo é ambicioso: reduzir em mais de metade as exportações chinesas de veículos híbridos e híbridos plug-in para a União Europeia, tendo como referência projeções para os próximos quatro anos. Segundo a Comissão Europeia, isso poderá significar menos vários milhões de automóveis chineses no mercado europeu.

Mas o entendimento anunciado esta sexta-feira, após dois dias de negociações em Pequim, levanta várias questões. Porque quer a Europa limitar estes automóveis? O que conseguiu a China em troca? Os carros chineses vão ficar mais caros? E o que poderá mudar para quem pretende comprar um automóvel em Portugal?

Porque é que a Europa quer limitar os carros chineses?

A resposta está no crescimento das importações e nas dificuldades que a indústria europeia enfrenta para competir com os fabricantes chineses.

Nos últimos anos, a China transformou-se numa potência mundial da indústria automóvel, particularmente nos veículos eletrificados. Marcas chinesas têm aumentado a sua presença na Europa, oferecendo automóveis com equipamentos competitivos e preços frequentemente inferiores aos de modelos europeus equivalentes.

O problema, na perspetiva de Bruxelas, não está apenas no crescimento das vendas chinesas. Está também nas diferenças entre as condições de concorrência enfrentadas pelos fabricantes europeus e chineses.

A União Europeia considera que determinadas práticas comerciais e apoios à produção na China podem criar vantagens difíceis de acompanhar pelas empresas europeias.

Ao mesmo tempo, a indústria automóvel europeia enfrenta custos de produção elevados, a necessidade de investir na eletrificação e uma concorrência internacional cada vez mais intensa.

O receio é que a entrada de grandes volumes de automóveis chineses a preços reduzidos pressione as margens das fabricantes europeias, comprometa investimentos e coloque empregos em risco.

O que foi realmente acordado entre Bruxelas e Pequim?

O entendimento foi anunciado pelo comissário europeu do Comércio, Maroš Šefčovič, depois de dois dias de reuniões com o ministro chinês do Comércio, Wang Wentao.

O responsável europeu explicou que as duas partes chegaram a um compromisso para moderar as exportações chinesas de automóveis híbridos e híbridos plug-in para a União Europeia.

Segundo Šefčovič, o acordo abre a possibilidade de reduzir essas exportações em mais de metade, relativamente às projeções para um período de quatro anos.

Na prática, isso poderá representar vários milhões de automóveis que deixariam de entrar no mercado europeu face ao cenário inicialmente previsto.

Há, contudo, uma distinção fundamental: não foi anunciada uma proibição geral de venda de automóveis chineses na Europa.

Também não significa que metade dos carros chineses atualmente em circulação ou à venda vá desaparecer do mercado.

O objetivo anunciado é moderar o crescimento futuro das exportações de determinados tipos de veículos. Os mecanismos concretos para alcançar essa redução ainda não foram totalmente esclarecidos.

Porque estão os híbridos no centro das negociações?

A escolha dos híbridos não é casual.

Os veículos híbridos convencionais combinam um motor de combustão com um motor elétrico e uma bateria, normalmente sem necessidade de carregamento externo. Já os híbridos plug-in permitem carregar a bateria numa tomada e percorrer determinadas distâncias em modo exclusivamente elétrico.

Ambas as tecnologias ganharam importância na transição energética, oferecendo alternativas aos automóveis exclusivamente a gasolina ou gasóleo.

Para os fabricantes chineses, os híbridos representam também uma oportunidade de expansão na Europa, sobretudo junto dos consumidores que ainda não estão preparados para comprar um automóvel totalmente elétrico.

Ao escolher este segmento como ponto de partida, Bruxelas procura testar uma nova forma de gerir as relações comerciais com Pequim, sem avançar imediatamente para uma confrontação mais ampla.

O próprio Šefčovič descreveu o entendimento como uma experiência inicial que poderá servir de modelo para outros setores industriais.

Os carros chineses vão ficar mais caros?

É uma possibilidade, mas ainda não existe uma decisão definitiva que permita antecipar aumentos de preços.

Uma das soluções em discussão poderá passar pela introdução de compromissos de preços mínimos para determinados automóveis chineses vendidos na União Europeia.

O Ministério do Comércio chinês referiu procedimentos relacionados com compromissos de preços assumidos pelas empresas, o que sugere que este mecanismo poderá integrar a aplicação do entendimento.

Se forem estabelecidos preços mínimos, determinados fabricantes poderão deixar de conseguir comercializar alguns modelos abaixo de um valor previamente definido.

Isso reduziria a vantagem de preço de algumas propostas chinesas, mas não significa necessariamente que todos os automóveis dessas marcas fiquem mais caros.

O efeito dependerá dos modelos abrangidos, das regras finais e das decisões comerciais de cada fabricante.

Por enquanto, não foram divulgadas tabelas de preços, limites concretos ou datas de entrada em vigor.

E o que muda para quem quer comprar um carro em Portugal?

No imediato, não existe qualquer alteração automática aos preços ou à disponibilidade dos automóveis chineses vendidos em Portugal.

O entendimento ainda terá de ser discutido pelos líderes dos 27 Estados-membros e os detalhes da sua aplicação permanecem por definir.

A médio prazo, porém, poderão existir consequências para os consumidores portugueses.

Se o número de automóveis híbridos chineses disponíveis no mercado europeu crescer menos do que estava previsto, algumas marcas poderão rever a sua estratégia comercial, a gama de modelos ou os planos de expansão.

Se forem introduzidos preços mínimos, determinadas propostas poderão perder parte da vantagem económica que apresentam face à concorrência europeia.

Por outro lado, uma menor pressão sobre os fabricantes europeus poderá dar-lhes mais margem para investir em novos modelos e tecnologias.

Há ainda um possível efeito menos favorável para os consumidores: quando a concorrência diminui, também pode diminuir a pressão para baixar os preços.

É por isso que proteger a indústria europeia e garantir automóveis acessíveis aos consumidores são dois objetivos que nem sempre avançam na mesma direção.

O acordo também envolve as terras raras. Porque são tão importantes?

As negociações não se limitaram aos automóveis.

A China concordou em facilitar os procedimentos de concessão de licenças de exportação de terras raras e ímanes permanentes para a União Europeia.

Estes materiais são essenciais para várias indústrias estratégicas, incluindo a automóvel, a defesa e as tecnologias associadas à transição energética.

Na indústria automóvel, determinados elementos de terras raras são utilizados no fabrico de ímanes permanentes presentes em muitos motores elétricos.

A dependência europeia destes materiais tornou-se uma preocupação crescente, sobretudo depois de Pequim ter imposto restrições às exportações em 2025.

Ao facilitar o acesso às terras raras, a China poderá ajudar a reduzir dificuldades de abastecimento enfrentadas por fabricantes europeus.

Mas importa não confundir uma simplificação das licenças com a eliminação de todas as restrições. O entendimento anunciado não garante um acesso ilimitado a estes materiais.

O que ganhou a Europa além das restrições aos automóveis?

Bruxelas anunciou igualmente progressos no acesso de produtos europeus ao mercado chinês.

Segundo Šefčovič, o entendimento abrange exportações europeias avaliadas em cerca de quatro mil milhões de euros, incluindo componentes automóveis, azeite e calçado.

A redução de barreiras aduaneiras poderá gerar poupanças de pelo menos 225 milhões de euros em direitos alfandegários, de acordo com os valores apresentados pelo comissário.

Para os fabricantes europeus de componentes automóveis, a abertura do mercado chinês poderá representar uma oportunidade de aumentar a competitividade e facilitar as exportações.

O acordo pretende, assim, funcionar nos dois sentidos: limitar determinadas exportações chinesas para a Europa e melhorar as condições de acesso das empresas europeias à China.

Porque se fala num défice comercial de mais de mil milhões de euros por dia?

A relação comercial entre a União Europeia e a China apresenta um desequilíbrio significativo.

Segundo os dados das Nações Unidas citados pela ‘Deutsche Welle’, as exportações chinesas para a UE atingiram aproximadamente 500 mil milhões de euros no último ano analisado, enquanto as importações chinesas de produtos europeus ficaram perto dos 240 mil milhões.

Isto significa que a Europa compra à China substancialmente mais bens do que aqueles que consegue vender ao mercado chinês.

Os valores apresentados nas negociações apontam para um desequilíbrio comercial diário superior a mil milhões de euros, embora o montante exato dependa do período e da metodologia estatística utilizados.

Este problema ultrapassa largamente o setor automóvel.

Indústrias como a química, maquinaria, metalurgia, energia solar, vidro e cimento também alertam para as dificuldades de concorrência com produtos chineses.

Esta sexta-feira, 44 organizações industriais europeias defenderam uma resposta mais eficaz da União Europeia às práticas comerciais que consideram desleais.

Porque preferiu Bruxelas negociar em vez de impor novas tarifas?

A União Europeia dispõe de instrumentos comerciais que permitem investigar práticas consideradas desleais e, em determinadas circunstâncias, aplicar direitos aduaneiros adicionais ou outras medidas de defesa comercial.

Contudo, uma escalada de tarifas pode desencadear respostas equivalentes da China, prejudicando exportadores europeus e aumentando os custos para empresas e consumidores.

Šefčovič reconheceu que uma guerra comercial, depois de iniciada, pode ser muito difícil de travar.

Por isso, Bruxelas procurou uma solução negociada que permita moderar as exportações chinesas sem desencadear imediatamente um novo confronto tarifário.

O comissário destacou que esta é a primeira vez que a China aceita discutir uma moderação das exportações neste formato, sem ser necessário passar previamente por uma fase de conflito comercial.

O entendimento poderá, assim, tornar-se um modelo para negociações futuras noutros setores.

O acordo já está fechado? E o que acontece a seguir?

Não completamente.

O entendimento anunciado em Pequim representa a conclusão de uma primeira fase das negociações, mas ainda existem questões fundamentais por resolver.

Os líderes dos 27 Estados-membros deverão analisar os resultados numa cimeira em Bruxelas, na próxima quinta-feira.

Entre os pontos por esclarecer estão os mecanismos de limitação das exportações, a eventual aplicação de preços mínimos, os modelos abrangidos e a forma de acompanhar o cumprimento dos compromissos.

Bruxelas admite recorrer a medidas comerciais mais duras se considerar que os resultados ficam aquém das expectativas.

A Alemanha e a França já defenderam uma atuação mais firme perante práticas chinesas que consideram prejudiciais à indústria europeia, enquanto o Parlamento Europeu também apelou a respostas mais determinadas.

Afinal, quem ganha e quem perde com este entendimento?

Para os fabricantes europeus, uma redução da pressão concorrencial chinesa poderá criar melhores condições para defender a produção, os investimentos e o emprego.

Para as marcas chinesas, o acordo poderá significar novas limitações à expansão no mercado europeu, sobretudo no segmento dos híbridos, embora o impacto concreto dependa das regras finais.

Para a indústria europeia, a melhoria do acesso às terras raras e ao mercado chinês poderá trazer benefícios que ultrapassam o setor automóvel.

Já para os consumidores, o resultado é menos evidente.

A maior proteção da indústria europeia poderá contribuir para preservar a oferta de marcas e modelos a longo prazo. Mas eventuais restrições à concorrência também poderão limitar a disponibilidade de automóveis mais baratos.

O ponto essencial é que a Europa não anunciou o fim dos carros chineses, nem uma proibição dos híbridos fabricados na China. O que está em discussão é uma forma de controlar o crescimento das exportações chinesas e alterar as condições em que estes automóveis competem no mercado europeu.

Para quem pretende comprar um carro, a principal conclusão é simples: nada muda automaticamente nas concessionárias portuguesas, mas as decisões tomadas nas próximas semanas poderão influenciar os preços, a oferta e a concorrência no mercado automóvel europeu durante os próximos anos.

Leia também: A Automonitor já tinha explicado como a China encontrou uma brecha nos híbridos plug-in e levou Bruxelas a preparar uma resposta. Em Portugal, a procura por carros chineses quase triplicou, enquanto a BYD ultrapassou as 3.200 vendas de híbridos plug-in.