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A China encontrou uma brecha nos híbridos plug-in. Agora a Europa prepara-se para fechar a porta

Automonitor

Desde o outono de 2024, os automóveis 100% elétricos produzidos na China e importados para a União Europeia estão sujeitos a direitos aduaneiros adicionais, além da taxa base de 10%

A Europa prepara uma nova resposta à ofensiva automóvel chinesa. Depois de ter aplicado taxas adicionais aos carros elétricos fabricados na China, Bruxelas está agora a olhar para outro tipo de veículo que ganhou força nos últimos meses: os híbridos plug-in. O ‘L’Automobile Magazine’ avança que a Comissão Europeia se prepara para criar novas taxas sobre estes modelos, numa tentativa de travar aquilo que é visto como uma nova porta de entrada para os construtores chineses no mercado europeu.

Desde o outono de 2024, os automóveis 100% elétricos produzidos na China e importados para a União Europeia estão sujeitos a direitos aduaneiros adicionais, além da taxa base de 10%. Estas sobretaxas foram definidas depois de uma investigação europeia às subvenções públicas chinesas e variam consoante o fabricante: 17% para a BYD, 18,8% para a Geely e até 35,3% para a SAIC, grupo que detém a MG.

Na prática, alguns modelos elétricos chineses passaram a enfrentar uma carga fiscal superior a 45% à entrada no mercado europeu. Mas a medida tinha uma limitação clara: aplicava-se apenas aos carros totalmente elétricos. Os híbridos plug-in continuaram sujeitos apenas ao direito aduaneiro base de 10%, sem sobretaxa associada às ajudas estatais chinesas.

Foi essa diferença que vários construtores chineses terão aproveitado. Em vez de concentrarem toda a ofensiva nos elétricos puros, mais penalizados pelas novas tarifas, marcas como BYD, MG e Chery passaram a reforçar a presença europeia através dos híbridos plug-in, uma tecnologia que combina motor de combustão com capacidade de circulação elétrica e que, até agora, escapava à nova pressão alfandegária.

Os números ajudam a perceber a mudança. Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, a BYD cresceu 145% em França no último ano, impulsionada sobretudo pelo Seal U DM-i Super Hybride. Este SUV híbrido plug-in vendeu 6.058 unidades e tornou-se não só o modelo mais vendido da marca no país, como também o veículo que permitiu à BYD liderar o segmento.

A ofensiva não fica por aqui. A marca chinesa acaba de lançar o Dolphin G DM-i, um SUV urbano compacto com 4,16 metros de comprimento e tecnologia híbrida plug-in, anunciado em França com um preço agressivo de 23.990 euros. O posicionamento mostra como os construtores chineses estão a tentar combinar preço, eletrificação e autonomia alargada para conquistar clientes europeus que ainda não querem dar o salto para um elétrico puro.

Perante este cenário, Bruxelas prepara uma nova frente comercial. De acordo com fontes internas citadas pela imprensa económica alemã ‘Handelsblatt’ e referidas pelo ‘L’Automobile Magazine’, já estará em curso uma investigação anti-subvenções dedicada aos híbridos plug-in chineses. O mecanismo deverá ser semelhante ao aplicado aos elétricos: direitos adicionais calculados marca a marca, somados à taxa de 10% já existente.

Ainda assim, as novas taxas poderão ser inferiores às aplicadas aos elétricos puros. A razão é técnica e económica: num híbrido plug-in, a bateria representa uma parte menor do custo total do veículo do que num carro totalmente elétrico, o que poderá reduzir o peso das eventuais subvenções consideradas distorcivas pela União Europeia.

A mudança também tem uma dimensão política. Em 2024, a Alemanha mostrou reservas perante as taxas sobre os elétricos chineses, receando represálias de Pequim contra as marcas premium alemãs, muito dependentes do mercado chinês. Agora, o contexto parece diferente. O aumento do défice comercial europeu face à China e a dependência de matérias-primas críticas importadas de Pequim alteraram o equilíbrio do debate.

Para os fabricantes chineses, os híbridos plug-in tornaram-se uma resposta pragmática às barreiras levantadas contra os elétricos. Para Bruxelas, essa estratégia pode ser vista como uma forma de contornar a política comercial europeia. E para o consumidor, a consequência poderá ser simples: se as novas taxas avançarem, alguns modelos chineses eletrificados poderão perder parte da vantagem de preço que os tornou tão competitivos.

A questão vai além da fiscalidade. Está em causa uma disputa pelo futuro do automóvel na Europa, num momento em que os fabricantes tradicionais enfrentam pressão nos elétricos, nos híbridos, nos preços e na tecnologia. Depois dos elétricos chineses, os híbridos plug-in podem tornar-se o novo campo de batalha entre Bruxelas e Pequim.

A Europa tentou travar a primeira vaga com taxas sobre os elétricos. A China respondeu mudando de porta de entrada. Agora, Bruxelas prepara-se para fechar também essa porta — e a próxima decisão poderá mexer diretamente com o preço e a disponibilidade de alguns dos carros eletrificados mais competitivos do mercado.