A história do automóvel está cheia de invenções que transformaram a forma como conduzimos, mas também de soluções engenhosas que acabaram por desaparecer. Algumas protegiam os ocupantes e os peões, outras facilitavam pequenas tarefas quotidianas. Apesar das vantagens, nunca conseguiram conquistar um lugar permanente nos automóveis mais comuns. Recordamos cinco exemplos que mostram como uma boa ideia nem sempre é suficiente para garantir o sucesso.
O desenvolvimento automóvel nem sempre segue uma linha contínua de progresso. Por cada tecnologia que se generaliza, existem outras que desaparecem devido aos custos de produção, à complexidade mecânica, às preferências dos consumidores ou simplesmente porque surgem alternativas mais fáceis de implementar.
Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, vários fabricantes experimentaram soluções particularmente interessantes nas últimas duas décadas, algumas das quais chegaram a equipar modelos vendidos em Portugal.
E, olhando para estes exemplos, é difícil não pensar que algumas mereciam uma segunda oportunidade.
1. Ford Focus: a proteção que aparecia quando abria a porta
Quem nunca abriu a porta do automóvel num estacionamento apertado e receou bater no veículo estacionado ao lado?
Em 2012, a Ford apresentou uma solução tão simples quanto eficaz na terceira geração do Focus: o Door Edge Protector.
O sistema utilizava uma pequena proteção de borracha que se deslocava automaticamente para a extremidade da porta quando esta era aberta.
Se a porta tocasse numa parede, num pilar ou noutro automóvel, a proteção ajudava a amortecer o contacto e a evitar danos na pintura.
Ao fechar a porta, o mecanismo recolhia novamente, ficando praticamente invisível.
A particularidade estava na simplicidade. Não eram necessários motores elétricos, câmaras ou sensores sofisticados. O funcionamento era essencialmente mecânico.
Apesar da utilidade evidente, sobretudo nos estacionamentos cada vez mais apertados das cidades, a solução não se tornou habitual na indústria.
Os custos adicionais, a necessidade de integrar o mecanismo na porta e a procura de soluções de construção mais simples ajudam a explicar a sua reduzida utilização.
É um daqueles equipamentos cuja ausência só parece fazer sentido até ao momento em que alguém abre uma porta com demasiada força.
2. Citroën C4: um volante que girava, mas cujo centro ficava imóvel
Quando a Citroën apresentou a primeira geração do C4, em 2004, surpreendeu com uma solução que parecia saída de um protótipo.
O volante tinha um centro fixo.
Na prática, o aro girava normalmente para permitir a condução, mas a parte central permanecia imóvel, independentemente da posição das rodas.
A solução permitia manter os comandos sempre no mesmo lugar, facilitando a sua identificação e utilização.
Mas havia uma razão ainda mais importante: a segurança.
Num volante convencional, o airbag do condutor tem de funcionar independentemente da posição em que o volante se encontra no momento de uma colisão.
Com o centro fixo, os engenheiros da Citroën podiam desenvolver um airbag com uma geometria específica, otimizada para proteger a cabeça e o tórax do condutor.
O sistema chegou também ao C4 Picasso de primeira geração e ao C5 de segunda geração.
Apesar das vantagens, nunca conquistou uma aceitação generalizada. O custo de produção e a necessidade de os condutores se habituarem a um volante diferente contribuíram para o seu abandono nos modelos seguintes.
Curiosamente, a ideia não desapareceu por completo.
O Bugatti Tourbillon recuperou o conceito de um volante com centro fixo, embora num automóvel de produção muito limitada e com um posicionamento completamente diferente.
A tecnologia continua, portanto, a existir. Simplesmente deixou de fazer parte dos automóveis que encontramos habitualmente nas estradas.
3. Citroën C3: uma câmara que podia ajudar a esclarecer um acidente
Hoje, as câmaras de bordo, conhecidas como dashcams, são relativamente comuns como acessórios instalados pelos próprios condutores.
Mas em 2016, a Citroën decidiu integrar uma solução semelhante diretamente no C3.
Chamava-se ConnectedCAM e estava instalada junto ao espelho retrovisor interior.
Tratava-se de uma câmara grande-angular, com um campo de visão de 120 graus e capacidade para gravar imagens em Full HD.
A utilização não se limitava à segurança.
O condutor podia registar fotografias ou pequenos vídeos durante uma viagem e transferi-los para o telemóvel através de uma aplicação.
Contudo, a função mais interessante surgia em caso de acidente.
Quando o sistema detetava uma colisão, podia guardar automaticamente imagens correspondentes aos 30 segundos anteriores e ao minuto seguinte ao impacto.
Estas gravações poderiam ajudar a esclarecer as circunstâncias de um acidente, sobretudo em situações nas quais existissem versões contraditórias dos intervenientes.
Apesar do potencial, a ConnectedCAM não se generalizou.
O preço adicional do equipamento, a dependência de uma aplicação e as questões relacionadas com a gestão das imagens contribuíram para limitar o interesse dos compradores.
Entretanto, as dashcams continuaram a evoluir, mas sobretudo através de equipamentos independentes.
A ideia de integrar uma câmara de gravação de percurso diretamente num automóvel familiar continua a parecer perfeitamente razoável.
4. Volvo V40: um airbag que protegia quem estava fora do automóvel
Quando pensamos em airbags, imaginamos normalmente dispositivos destinados a proteger os ocupantes.
Em 2012, a Volvo decidiu aplicar o mesmo princípio a quem se encontrava fora do automóvel.
O V40 tornou-se conhecido por incorporar um airbag exterior destinado à proteção dos peões.
O funcionamento era particularmente engenhoso.
Em determinadas colisões com peões, sensores instalados na dianteira identificavam o impacto e acionavam um mecanismo que levantava ligeiramente a parte traseira do capô.
Ao mesmo tempo, um airbag insuflava-se na zona inferior do para-brisas, cobrindo parte dos seus pilares e a área junto aos limpa-para-brisas.
O objetivo era reduzir a gravidade das lesões provocadas pelo contacto da cabeça do peão com algumas das estruturas mais rígidas do automóvel.
A solução representava uma abordagem diferente à segurança rodoviária, procurando reduzir as consequências de um atropelamento depois de o impacto se tornar inevitável.
Apesar da inovação, o sistema não se generalizou.
A indústria passou a investir cada vez mais em tecnologias capazes de evitar o acidente, nomeadamente sistemas de travagem automática de emergência com deteção de peões.
Estes dispositivos procuram identificar antecipadamente situações de perigo e travar o automóvel, reduzindo a velocidade do impacto ou evitando-o por completo.
Naturalmente, a prevenção e a proteção não são conceitos incompatíveis. Um sistema que evita o atropelamento e outro que reduz as suas consequências podem complementar-se.
Mas a complexidade, os custos de reparação e a necessidade de substituir componentes após o acionamento ajudaram a limitar a expansão do airbag exterior.
5. Škoda Superb e BMW Série 5 GT: uma bagageira com duas formas de abrir
Há automóveis com uma tampa de bagageira convencional e outros com um portão traseiro que inclui o vidro.
Mas a Škoda e a BMW decidiram, em determinados modelos, oferecer as duas possibilidades no mesmo automóvel.
Em 2008, a segunda geração do Škoda Superb apresentou o sistema TwinDoor.
Através de um mecanismo específico, o condutor podia escolher entre abrir apenas a tampa da bagageira, como numa berlina tradicional, ou levantar toda a estrutura traseira, incluindo o vidro.
A primeira solução era prática para colocar pequenos objetos na bagageira sem expor completamente o habitáculo ao exterior.
A segunda facilitava o transporte de volumes maiores, graças à abertura mais ampla.
Em 2009, a BMW adotou uma solução semelhante no Série 5 Gran Turismo.
A ideia combinava a elegância de uma berlina com parte da versatilidade de um automóvel de cinco portas.
Na prática, porém, o sistema exigia mecanismos de articulação mais complexos, acrescentava peso e aumentava os custos de produção.
Com o passar dos anos, os fabricantes acabaram por privilegiar soluções mais simples.
Curiosamente, a Citroën já tinha explorado uma ideia diferente com um objetivo semelhante.
O XM, apresentado em 1989, dispunha de um vidro interior suplementar que ajudava a separar o habitáculo da zona da bagageira quando o portão traseiro era aberto, reduzindo a entrada de ar frio.
Mais um exemplo de como os fabricantes procuraram, durante décadas, resolver pequenos problemas quotidianos com soluções mecânicas originais.
Porque desapareceram tantas boas ideias?
Estes cinco exemplos mostram que a inovação automóvel nem sempre depende da complexidade tecnológica.
A proteção das portas do Ford Focus era essencialmente mecânica. O volante do Citroën C4 procurava melhorar a ergonomia e a segurança. A ConnectedCAM antecipou uma utilização que hoje associamos às câmaras de bordo.
Já o airbag exterior do Volvo V40 procurava proteger os peões, enquanto os sistemas de abertura dupla da bagageira ofereciam uma versatilidade pouco habitual.
Nenhuma destas soluções conseguiu, contudo, transformar-se num equipamento generalizado nos automóveis de utilização quotidiana.
As razões variam. Algumas exigiam componentes adicionais e aumentavam os custos de fabrico. Outras implicavam manutenção mais complexa ou obrigavam os condutores a alterar hábitos.
Houve também tecnologias que perderam protagonismo perante alternativas mais económicas ou fáceis de integrar.
Isso não significa que fossem más ideias.
A indústria automóvel procura constantemente equilibrar inovação, segurança, custos, fiabilidade e aquilo que os consumidores estão dispostos a pagar.
Por vezes, uma solução tecnicamente interessante acaba por ser abandonada não porque deixou de funcionar, mas porque não encontrou espaço nesse equilíbrio.
E há uma ironia nesta evolução: numa época em que os automóveis incorporam cada vez mais ecrãs, sensores e sistemas eletrónicos, algumas das invenções mais interessantes do passado resolviam problemas bastante simples.
Talvez seja essa a principal lição destes cinco exemplos. Nem todas as boas ideias conseguem sobreviver no mercado, mas isso não significa que tenham perdido a utilidade.
Algumas continuam a fazer falta, mesmo que os fabricantes já não pareçam interessados em recuperá-las.






