O Mercer-Cobra Roadster é um dos protótipos mais invulgares da história automóvel. Construído em Itália sobre um chassis AC Cobra, combinou um motor Ford V8 com um desenho inspirado nos automóveis do início do século XX e uma utilização surpreendente de cobre e latão. O resultado foi um exemplar único que continua a despertar curiosidade mais de seis décadas depois.
A história começa com Virgil Exner, um dos grandes nomes do design automóvel dos EUA, responsável por alguns dos modelos mais marcantes da Chrysler durante a década de 1950. Em 1963, a revista Esquire desafiou-o a imaginar como seriam algumas marcas históricas se os seus automóveis fossem reinterpretados com a tecnologia e as proporções da época.
Exner apresentou quatro propostas inspiradas em fabricantes clássicos: Stutz, Duesenberg, Packard e Mercer. Esta última recuperava o espírito do Mercer Raceabout, um automóvel do início do século XX conhecido pelo longo capô, habitáculo recuado e guarda-lamas separados da carroçaria.
Segundo o Motor1, o desenho chamou a atenção de George M. Hartley, presidente da Copper Development Association, uma associação dedicada à promoção do cobre e das suas aplicações industriais.
A ideia era transformar o projeto num automóvel funcional que demonstrasse as possibilidades de utilização do cobre e das suas ligas na indústria automóvel.
Um desportivo americano com carroçaria italiana
Para concretizar o projeto, Exner recorreu à Carrozzeria Sibona-Basano, uma empresa de Turim especializada na construção artesanal de carroçarias. A escolha teve também a influência do designer Brooks Stevens.
A base mecânica era um AC Cobra, cujo chassis foi adquirido através da Shelby American. No entanto, a estrutura teve de ser modificada para receber a nova carroçaria, com a distância entre eixos a aumentar para 2,74 metros.
Debaixo do longo capô encontrava-se um motor Ford V8 de 4,7 litros, associado a uma caixa manual de quatro velocidades. O conjunto incluía suspensão independente nas quatro rodas e travões de disco, soluções que garantiam uma base técnica avançada para a época.
Mas era sobretudo o desenho que distinguia o Mercer-Cobra de qualquer outro automóvel.
A dianteira apresentava uma enorme grelha de inspiração clássica, enquanto os guarda-lamas dianteiros, separados da carroçaria, deixavam parcialmente expostos alguns elementos mecânicos.
Os faróis constituíam outra das particularidades: estavam instalados em suportes móveis e podiam recolher lateralmente, junto ao capô, quando não eram necessários.
O resultado era uma combinação pouco habitual entre as proporções de um desportivo dos anos 60 e a aparência dos automóveis de competição das primeiras décadas do século XX.
Cobre e latão em quase todos os pormenores
A verdadeira originalidade do Mercer-Cobra estava, contudo, nos materiais utilizados.
O cobre e o latão surgiam em numerosos componentes da carroçaria e do habitáculo, desde o painel de instrumentos aos revestimentos das portas.
O volante utilizava uma liga de cobre e crómio de elevada resistência, enquanto as jantes de raios de 16 polegadas recebiam acabamentos em latão. Algumas molduras eram fabricadas em bronze de silício.
Nem o compartimento do motor escapou a esta filosofia. As tampas das válvulas, o filtro de ar, o tampão do óleo e diversos outros componentes apresentavam acabamentos em cobre e latão.
Até determinados elementos do sistema de travagem recorriam a ligas de cobre, aproveitando a capacidade de transferência de calor deste material.
Mais do que uma extravagância estética, o Mercer-Cobra funcionava como uma demonstração tecnológica das aplicações possíveis destes metais na construção automóvel.
Um exemplar único que percorreu o mundo
A construção ficou concluída no final de 1964, aproximadamente um ano depois do início do projeto.
O Mercer-Cobra tornou-se então uma espécie de embaixador da indústria do cobre, participando em exposições e encontros técnicos em diferentes países.
A sua aparência invulgar despertou também a atenção da imprensa especializada, incluindo a revista Automobile Quarterly, que lhe dedicou uma reportagem de seis páginas na edição de inverno de 1964.
Ao contrário de muitos protótipos que desaparecem depois de cumprirem a sua função promocional, o Mercer-Cobra sobreviveu às décadas seguintes, passando pelas mãos de diferentes colecionadores.
Em 2011, voltou a ganhar destaque quando foi apresentado num leilão da RM Sotheby’s, em Monterey, nos EUA.
O automóvel acabou por ser vendido por 660 mil dólares, encerrando mais um capítulo de uma história que começou com um exercício de design.
O Mercer-Cobra nunca chegou à produção em série, nem foi concebido com esse objetivo. Mas continua a ser um exemplo fascinante de uma época em que os construtores e designers tinham liberdade para experimentar soluções que dificilmente encontrariam lugar num automóvel convencional.
E, neste caso, tudo começou com um chassis AC Cobra que atravessou o Atlântico para receber uma carroçaria italiana e transformar-se em algo completamente diferente.






