Durante décadas, as calotas foram uma solução económica para esconder as jantes de aço dos automóveis mais acessíveis. Com a popularização das jantes de liga leve, pareciam destinadas a desaparecer. Mas os carros elétricos estão a dar-lhes uma segunda vida, e desta vez a razão vai muito além da estética.
Houve uma época em que as calotas faziam parte da identidade visual de muitos automóveis. Algumas eram simples peças de plástico, destinadas a disfarçar as jantes de aço. Outras tinham acabamentos elaborados e chegavam a ser um elemento distintivo de modelos de prestígio.
Com o passar dos anos, as jantes de liga leve tornaram-se mais acessíveis e passaram a equipar cada vez mais automóveis. As calotas perderam protagonismo e acabaram por ficar associadas, sobretudo, às versões de entrada de gama.
Agora, porém, estão a regressar. E a explicação encontra-se numa das principais preocupações da indústria automóvel: a eficiência energética.
Segundo o jornal espanhol ‘El Economista’, os fabricantes estão a recuperar este elemento para melhorar a aerodinâmica das rodas, especialmente nos veículos elétricos.
Porque é que uma simples calota pode aumentar a autonomia?
Num automóvel elétrico, a resistência do ar tem uma influência importante no consumo de energia, sobretudo a velocidades mais elevadas.
Embora a atenção se concentre frequentemente na forma da carroçaria, nas entradas de ar ou nos retrovisores, as rodas também interferem com o fluxo de ar em torno do veículo.
As aberturas das jantes e o movimento de rotação podem gerar turbulência, aumentando a resistência aerodinâmica.
É aqui que entram as novas calotas.
Ao cobrirem parte da superfície da roda, estas peças ajudam a controlar a passagem do ar e podem reduzir as perdas aerodinâmicas. O resultado é uma melhoria potencial da eficiência e, consequentemente, da autonomia.
O ganho depende do desenho das rodas, da velocidade e das condições de utilização, pelo que não existe um aumento de autonomia igual para todos os automóveis.
A Tesla ajudou a recuperar uma ideia antiga
Um dos exemplos mais conhecidos encontra-se no Tesla Model 3.
O modelo utiliza coberturas aerodinâmicas que encaixam sobre as jantes, combinando a estrutura de liga leve com uma superfície exterior concebida para reduzir a resistência ao ar.
A solução demonstra que as calotas modernas já não servem apenas para esconder uma jante menos apelativa.
Pelo contrário, podem funcionar como um componente técnico, desenvolvido para melhorar o desempenho energético do automóvel.
O elEconomista destaca também o novo Lexus ES, que recorre a coberturas aerodinâmicas nas jantes de liga leve de 19 polegadas.
A presença desta solução num modelo de uma marca premium mostra como um elemento anteriormente associado à redução de custos pode passar a integrar uma estratégia de eficiência e de design.
A Citroën já tinha mostrado que as calotas podiam ser um luxo
Muito antes da chegada dos elétricos, a Citroën explorou o potencial estético das calotas.
O DS Pallas, por exemplo, destacou-se pelas coberturas de roda em aço polido, que ajudavam a reforçar a imagem sofisticada do modelo.
Décadas depois, o XM também utilizou soluções próprias, com acabamentos que contribuíam para a identidade visual do automóvel.
A marca francesa voltou ainda a explorar este elemento em exercícios de design de inspiração retro, demonstrando que uma calota pode ser mais do que um simples acessório.
A diferença é que, atualmente, o desenho destas peças tem também de responder a exigências técnicas.
As jantes de liga leve vão desaparecer?
Não. O regresso das calotas não significa o fim das jantes de liga leve.
Na realidade, muitas das soluções atuais combinam precisamente os dois elementos: uma jante de liga leve convencional e uma cobertura exterior, frequentemente fabricada em material plástico, com um desenho pensado para melhorar a aerodinâmica.
Esta combinação permite conciliar estética, peso, custos de produção e eficiência.
Também não significa que todos os automóveis passem a utilizar rodas praticamente fechadas. As necessidades de arrefecimento dos travões e as características de cada veículo continuam a influenciar o desenho das jantes.
O que mudou foi a importância atribuída a um pormenor que, durante anos, parecia ter perdido utilidade.
Num automóvel elétrico, onde cada melhoria de eficiência pode ajudar a ganhar autonomia, até uma peça tão simples como uma calota voltou a merecer a atenção dos engenheiros.






