As marcas chinesas multiplicam-se nas estradas europeias e desafiam os fabricantes tradicionais com preços competitivos e novas tecnologias. Mas, segundo um responsável da Chery, cerca de 90% das fabricantes do país poderão estar a operar com prejuízos. O aviso vem de dentro da própria indústria e levanta uma questão: quantas destas marcas conseguirão sobreviver?
Os automóveis chineses estão a conquistar espaço nos mercados internacionais, surgem novas marcas e a concorrência torna-se cada vez mais intensa. Mas, por detrás desta expansão, esconde-se uma realidade menos animadora: cerca de nove em cada dez fabricantes chineses poderão estar a perder dinheiro.
O alerta parte de Zhang Guibing, presidente da Chery International, que admite que muitas empresas poderão desaparecer nos próximos anos.
Em declarações à imprensa australiana, durante um encontro na China, o responsável explicou que a sua estimativa resulta da análise dos relatórios financeiros divulgados pelos fabricantes.
Segundo Zhang Guibing, existem demasiadas empresas a disputar o mesmo mercado e algumas acabarão inevitavelmente por desaparecer.
Os 90% são uma estimativa do executivo, não uma estatística oficial sobre toda a indústria chinesa. Ainda assim, um estudo independente revela que as dificuldades financeiras estão longe de ser um problema isolado.
Nove em cada dez fabricantes podem estar a perder dinheiro
A dimensão do problema torna-se mais clara quando se analisam os resultados dos fabricantes de veículos de novas energias, categoria que inclui automóveis elétricos, híbridos plug-in e elétricos com extensor de autonomia.
Segundo o relatório Global Automotive Outlook 2026, da consultora AlixPartners, apenas três dos 30 fabricantes chineses analisados conseguiram apresentar lucros anuais em 2025.
Ou seja, 27 empresas não alcançaram a rentabilidade nesse período.
A consultora prevê ainda que apenas sete desses 30 fabricantes consigam atingir o equilíbrio financeiro até 2030, deixando os restantes perante um futuro incerto.
Importa distinguir os dois indicadores: a estimativa de Zhang Guibing abrange os fabricantes chineses de automóveis em geral, enquanto o estudo da AlixPartners analisa um grupo específico de empresas dedicadas aos veículos de novas energias.
Mas ambos apontam para o mesmo problema: vender automóveis e conquistar mercado não significa necessariamente ganhar dinheiro.
Há fábricas para produzir muito mais automóveis do que o mercado absorve
Uma das razões para esta situação está no excesso de capacidade produtiva da China.
Em 2025, o país fabricou aproximadamente 35 milhões de veículos, mas a capacidade anual instalada das suas fábricas foi estimada em cerca de 55 milhões.
Isto significa que a indústria tinha capacidade para produzir muito mais automóveis do que aqueles que efetivamente saíram das linhas de montagem.
Quando existem demasiadas fábricas e fabricantes a competir pelos mesmos compradores, aumenta a pressão para reduzir preços e manter os volumes de produção.
O problema é que vender mais barato pode ajudar a conquistar clientes, mas também reduz o dinheiro que sobra depois de pagar os custos de fabrico, desenvolvimento e distribuição.
E, num mercado tão competitivo, nem todas as empresas conseguem compensar as margens reduzidas com um aumento das vendas.
O resultado é uma situação aparentemente contraditória: uma indústria que continua a crescer internacionalmente, mas onde muitos fabricantes enfrentam dificuldades para transformar esse crescimento em lucros.
Vender mais não significa necessariamente ganhar dinheiro
A pressão financeira não resulta apenas da guerra de preços. Os automóveis modernos são também cada vez mais caros de desenvolver.
Zhang Guibing explica que, no passado, grande parte do investimento estava concentrada na engenharia mecânica. Hoje, os fabricantes precisam de desenvolver simultaneamente baterias, software, sistemas eletrónicos e novas tecnologias de assistência à condução.
E estas despesas continuam a aumentar.
O problema é particularmente difícil para as empresas mais pequenas, que precisam de acompanhar a evolução tecnológica sem beneficiarem necessariamente dos mesmos volumes de vendas dos grandes grupos.
A própria Chery, apesar de continuar a apresentar lucros, está a sentir essa pressão.
No primeiro semestre de 2026, a Chery Automobile registou um lucro líquido de 9,02 mil milhões de yuan, aproximadamente 1,1 mil milhões de euros, menos 9% do que no período homólogo.
Ao mesmo tempo, as despesas com investigação e desenvolvimento aumentaram 28,3%.
A expansão internacional tem ajudado a fabricante a compensar a concorrência no mercado doméstico. No primeiro semestre, os mercados externos representaram 69,1% das receitas da Chery Automobile, contra 46,3% um ano antes.
O exemplo mostra que a internacionalização pode contribuir para a rentabilidade, mas não elimina a necessidade de investimentos elevados nem garante que todos os fabricantes consigam sobreviver.
E quem comprar um automóvel chinês em Portugal, deve preocupar-se?
O aviso lançado pela Chery não significa que as marcas chinesas presentes em Portugal estejam prestes a desaparecer, nem que os seus automóveis sejam menos fiáveis.
Também não permite identificar quais os fabricantes que poderão enfrentar maiores dificuldades nos próximos anos.
Mas a possibilidade de uma consolidação da indústria levanta questões importantes para quem está a pensar comprar um automóvel de uma marca recente.
Se um fabricante abandonar determinado mercado, mudar de importador ou deixar de produzir um modelo, o acesso à assistência técnica, às peças de substituição e às atualizações de software poderá tornar-se mais complexo.
Isso não significa que as garantias desapareçam automaticamente. As obrigações legais e contratuais continuam a ser relevantes, embora a sua concretização possa depender da estrutura comercial e da situação de cada empresa.
Por isso, antes de comprar um automóvel de uma marca com pouca implantação em Portugal, vale a pena verificar a existência de uma rede de assistência, a disponibilidade de peças e quem assume as responsabilidades de garantia.
São cuidados importantes na compra de qualquer automóvel, independentemente da sua origem.
O responsável da Chery não identifica as empresas que poderão desaparecer, nem estabelece um calendário para essa possível transformação do setor. Reconhece, aliás, que a evolução tecnológica é tão rápida que nem os próprios fabricantes conseguem antecipar como serão os automóveis dos próximos anos.
A China já demonstrou que consegue fabricar automóveis em grande escala e vendê-los em mercados de todo o mundo. O desafio, agora, poderá ser outro: descobrir quantas das empresas responsáveis por essa expansão conseguirão sobreviver financeiramente ao próprio sucesso.






