Imagine que o Mercedes-Benz 190E Evolution II tinha continuado a evoluir até aos dias de hoje.
A Wahnsinn Wagens procurou responder a esse desafio e vai criar uma série limitada a 25 automóveis, combinando a identidade de um dos Mercedes mais icónicos de sempre, com a engenharia e desempenho dos dias de hoje.
Conversámos com Ingmar Vroege, o fundador da Wahnsinn Wagens sobre a filosofia por detrás do projeto, os seus limites e o futuro deste pequeno atelier neerlandês.
Automonitor: O que é a Wahnsinn Wagens e onde gostariam de estar daqui a cinco ou dez anos?
Ingmar Vroege: A Wahnsinn Wagens é um pequeno atelier em Etten-Leur, nos Países Baixos, e neste momento construímos apenas um automóvel: o Wahnsinn EVO é a nossa reinterpretação do Mercedes-Benz 190E EVO II. Trata-se de uma edição numerada de vinte e cinco unidades, construídas à mão em lotes de cinco.
Cada automóvel parte de um verdadeiro W201, totalmente desmontado até à carroçaria e reconstruído como um sistema integrado: um motor Mercedes M104 de seis cilindros em linha, reconstruído e sobrealimentado por turbo para debitar cerca de 700 cv, uma caixa manual de seis velocidades, um chassis preparado para lidar com toda essa potência, a carroçaria do EVO II e um interior completamente renovado.
Não somos um fabricante e não queremos tornar-nos num. Cada componente principal é desenvolvido pelo especialista que melhor sabe fazê-lo. Somos nós que os selecionamos, validamos cada etapa e assumimos a responsabilidade pelo automóvel como um todo.
Esperamos entregar os vinte e cinco automóveis no prazo de dois anos. Quando a vigésima quinta unidade for entregue, esta edição termina e nunca mais construiremos outro Wahnsinn EVO.
Depois, queremos avançar para uma nova edição, novamente baseada num Mercedes icónico e seguindo a mesma filosofia: uma receita comprovada, executada como deve ser e criada para ser conduzida.
Por isso, daqui a cinco ou dez anos, vejo-nos como um atelier que reinterpreta ícones da Mercedes, uma edição de cada vez.
Automonitor: Em que momento uma reinterpretação deixa de ser um Mercedes?
Ingmar Vroege: É uma pergunta pertinente. Penso que a resposta está na origem dos componentes.
A carroçaria é de um W201 original. O motor é Mercedes, o M104 de seis cilindros em linha da mesma época. O diferencial vem do W124. O que alteramos é até onde levamos cada componente, não a sua origem.
O próprio EVO II nunca foi um automóvel totalmente “puro”. A Mercedes construiu-o para homologar o carro para o DTM, com uma carroçaria que chocou muitas pessoas em 1990. Já nessa altura era um automóvel reinterpretado para cumprir um determinado objetivo.
Nós fazemos o mesmo, mas com um objetivo diferente: ser conduzido nas estradas de hoje.
Chamamos-lhe “spirit correct”, e não apenas “period correct”. Quando a própria época do automóvel oferece a melhor solução, utilizamo-la e elevamo-la aos padrões atuais. Quando essa época não tinha uma resposta adequada, como, por exemplo, uma caixa de velocidades capaz de suportar 700 cv, recorremos a uma solução comprovada de um automóvel posterior e integramo-la de forma a que não seja visualmente evidente.
O automóvel deve parecer e transmitir as sensações de 1990, mas conduzir-se como um automóvel atual. Se conseguir fazer isso, penso que conquistou o direito de usar esse nome.
Automonitor: O que viram no EVO II que não teriam encontrado noutro clássico?
Ingmar Vroege: Primeiro, a emoção.
O EVO II é um dos automóveis mais arrojados que a Mercedes alguma vez comercializou: uma berlina discreta com uma enorme asa traseira, nascida do DTM. Foram produzidas apenas 502 unidades.
Para várias gerações, é aquele automóvel que estava nos posters da parede. E percebe-se isso sempre que um passa na estrada: as pessoas param e sorriem.
Depois existe o lado prático.
Durante anos, uma comunidade de entusiastas tem vindo a modificar o 190E desta forma, recorrendo a uma seleção de componentes aperfeiçoada através de muita experiência. Eles provaram que esta receita funciona.
Não fomos nós que a inventámos e não fingimos que fomos. O que acrescentamos é aquilo que uma construção doméstica dificilmente consegue levar até ao fim: todos os componentes novos ou revistos, um interior completo e um automóvel totalmente acabado e documentado.
O E30 M3, o 911 e o Delta Integrale são automóveis extraordinários e não os vejo como rivais. São todos ícones (Jorge Farromba – quando questionei se pretendiam lançar outros modelos)
O que têm em comum é que, atualmente, muitos deles são tratados sobretudo como investimentos. Um EVO II original atinge, em média, cerca de 281.000 dólares em leilão, pelo que praticamente ninguém os conduz atualmente.
É precisamente esse o espaço que queremos preencher.
E o W201 que está na base deste projeto é um automóvel construído para durar. Como referiu, a comunidade em Portugal conhece-o precisamente pela sua fiabilidade. Essa é a base certa para um automóvel concebido para ser realmente utilizado.
Automonitor: Se tivesse de escolher apenas uma razão para comprar um Wahnsinn EVO, qual seria?
Ingmar Vroege: O facto de ter sido construído para ser conduzido. Não para ser admirado. Não para ficar guardado.
Se tiver de escolher uma opção da sua lista, seria a experiência de condução, com a engenharia e o trabalho artesanal colocados ao serviço dessa experiência.
Sente-se isso no chassis: a distribuição de peso de cada automóvel é afinada individualmente em balanças, o alinhamento é ajustado e o carro passa por testes antes da entrega. Assim, toda aquela potência está assente num automóvel verdadeiramente afinado, não simplesmente rebaixado.
E foi construído para permanecer na estrada.
Cada componente é uma peça original Mercedes, uma peça comprovada que pode ser encomendada em qualquer parte do mundo, ou é produzida por um especialista que continuará a fabricá-la.
Nada no automóvel depende exclusivamente de nós. Por isso, uma boa oficina poderá fazer a sua manutenção, independentemente do local do mundo onde viva o proprietário.
Automonitor: Daqui a dez anos, quando alguém perguntar “O que é a Wahnsinn Wagens?”, o que gostaria que um cliente respondesse?
“É o EVO II que eu realmente conduzo.”
Toda a ideia está resumida nesta frase.
Acreditamos que a melhor forma de respeitar um ícone é conduzi-lo.
Se, daqui a dez anos, esses vinte e cinco automóveis tiverem muitos quilómetros percorridos e os seus proprietários continuarem a escolher o caminho mais longo para regressar a casa, então fizemos tudo bem.
Notas
- Os automóveis do primeiro lote estão neste momento em construção, pelo que todas as imagens do Wahnsinn EVO são renders e devem ser publicadas identificando-as como tal.
- Todas as fotografias do Wahnsinn One têm créditos Wahnsinn Wagens.
- O texto acima contém a tradução integral de Ingmar Vroege
- O autor desta entrevista possui dois 190 (gasolina e gasóleo)
Dos clássicos às novidades elétricas, a Mercedes continua a dar que falar. Na Automonitor, já recordámos o “monstro” dos anos 80 que pode estar de regresso e o primeiro Classe A, que começa a entrar no mundo dos clássicos. Mais recentemente, revelámos quanto custa o Mercedes-AMG GT 53 SUV elétrico de 544 cv e como a Mercedes-AMG criou, pela primeira vez em 59 anos, um SUV de raiz.
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