Atravessar uma fronteira de automóvel é uma rotina para milhões de europeus. Mas, na China, um simples passeio até um país vizinho pode transformar um SUV de luxo num veículo praticamente inutilizável.
Segundo a ‘L’Automobile Magazine’, foi isso que aconteceu ao proprietário de um Zeekr 9X, um grande SUV elétrico que alguns já apelidam de “Rolls-Royce Cullinan chinês”. O destino era o Cazaquistão, mas bastou cruzar a fronteira para começar o pesadelo.
Assim que entrou no país, o automóvel perdeu várias funções essenciais. Os ecrãs do habitáculo deixaram de funcionar, o porta-luvas permaneceu bloqueado e até a tampa do depósito de combustível recusava abrir. Sem acesso aos documentos guardados no interior e impossibilitado de reabastecer, o condutor ficou retido durante cerca de 30 horas.
O mais surpreendente é que não se tratava de uma avaria nem de um erro de software. Era uma funcionalidade criada pela própria Zeekr, conhecida como “proteção transfronteiriça”.
O objetivo deste sistema é dificultar o contrabando e a revenda ilegal de automóveis chineses em países onde a marca não está oficialmente presente. Para atravessar determinadas fronteiras, os proprietários têm de obter previamente um código de desbloqueio junto do concessionário.
Neste caso, o condutor garante que pediu essa autorização antes da viagem e recebeu confirmação de que tudo estava tratado. No entanto, o código nunca foi ativado e o veículo acabou por bloquear automaticamente as suas principais funções.
A história ganhou enorme repercussão depois de o proprietário denunciar o caso na rede social chinesa ‘Weibo’. A onda de críticas foi tal que a Zeekr pediu desculpa publicamente e anunciou alterações ao sistema.
A marca passou a disponibilizar, através da sua aplicação móvel, um gerador de códigos que permite desbloquear o veículo quando este é utilizado fora da China, evitando que os condutores tenham de depender diretamente de um concessionário. Também prometeu uma futura atualização que permitirá desativar esta função diretamente no próprio automóvel.
O caso abriu, contudo, um debate bem mais amplo. Até que ponto um fabricante pode manter o controlo remoto sobre um automóvel já vendido? E será que um condutor é verdadeiramente proprietário do seu veículo se a marca conseguir limitar funções essenciais apenas porque este atravessou uma fronteira?
Na Europa, um sistema deste género seria difícil de imaginar. A livre circulação entre países faz parte do quotidiano de milhões de condutores e um fabricante bloquear remotamente funções essenciais de um veículo levantaria sérias questões legais relacionadas com os direitos dos consumidores, a propriedade do bem adquirido e a segurança rodoviária.
O episódio mostra, acima de tudo, como os automóveis modernos, cada vez mais dependentes de software e ligação permanente à Internet, podem ficar sujeitos a decisões tomadas à distância pelo próprio fabricante.






