A Volkswagen prepara o lançamento de um SUV elétrico que mostra como estão a mudar as relações de força na indústria automóvel: desenvolvido para a China, utiliza tecnologia criada em colaboração com um fabricante local. Mas não será a única novidade da próxima semana. A GAC Aion prepara uma berlina que quer desafiar o Xiaomi SU7 com quase cinco metros de comprimento, tecnologia da Huawei e um preço que promete surpreender.
Depois de uma semana dominada pelas novidades do mundo das duas rodas, as atenções regressam aos automóveis. E desta vez há uma coincidência curiosa: os dois lançamentos que escolhemos estão marcados para o mesmo dia, quinta-feira, 12 de novembro.
O cenário é o mercado chinês, onde a concorrência entre fabricantes tradicionais e novas marcas de automóveis elétricos está a provocar mudanças profundas. A Volkswagen procura recuperar terreno recorrendo a parcerias tecnológicas locais, enquanto a GAC Aion aposta numa proposta que combina dimensões generosas, equipamento sofisticado e preços particularmente competitivos.
São dois automóveis bastante diferentes, mas que ajudam a perceber como a China está a transformar a indústria automóvel mundial.
Volkswagen ID.ERA 5X: quando os alemães vão buscar tecnologia à China
Durante décadas, a Volkswagen foi uma das marcas que ajudaram a motorizar a China. O mercado tornou-se fundamental para o grupo alemão, mas a ascensão dos fabricantes locais de automóveis elétricos obrigou-o a repensar a estratégia.
A resposta passa, cada vez mais, por desenvolver automóveis na China, para a China, utilizando tecnologia criada especificamente para aquele mercado.
É precisamente isso que acontece com o novo Volkswagen ID.ERA 5X, um SUV elétrico que será lançado comercialmente no dia 12 de novembro.
O automóvel nasce da parceria entre a SAIC e a Volkswagen e utiliza a plataforma CMP, desenvolvida para o mercado chinês, e a arquitetura eletrónica CEA, criada em colaboração com a Xpeng.
Esta última é particularmente importante. A Xpeng tornou-se uma das referências chinesas no desenvolvimento de automóveis elétricos com sistemas digitais avançados, e a Volkswagen decidiu aproveitar essa experiência para acelerar a sua própria transformação.
O resultado é um SUV de cinco lugares, com 4,56 metros de comprimento, que aposta fortemente na tecnologia de bordo e nos sistemas de assistência à condução.
Nas versões mais equipadas, o ID.ERA 5X dispõe de sensores LiDAR e funcionalidades de assistência para circulação urbana, autoestradas e estacionamento.
A autonomia anunciada chega aos 520 quilómetros, segundo o ciclo chinês CLTC, mais favorável do que o WLTP utilizado na Europa.
Mas a verdadeira novidade não está propriamente nos números.
O ID.ERA 5X representa uma mudança de estratégia de um dos maiores fabricantes automóveis do mundo. A Volkswagen está a reconhecer, na prática, que a velocidade de desenvolvimento e a experiência tecnológica das empresas chinesas se tornaram essenciais para competir naquele mercado.
O modelo já foi apresentado e as pré-reservas começaram em setembro. Na próxima quinta-feira serão conhecidos os detalhes finais do lançamento comercial, incluindo os preços definitivos.
Por enquanto, não existe qualquer anúncio de comercialização na Europa.
Ainda assim, vale a pena acompanhar esta estreia comercial. Afinal, a questão já não é apenas saber como os fabricantes chineses estão a aprender com os europeus, mas também o que os europeus estão a aprender com os chineses.
GAC Aion Ray 7: um rival do Xiaomi SU7 por quase metade do preço?
Se a Volkswagen procura recuperar terreno na China, a GAC Aion prepara-se para intensificar a concorrência com uma proposta que promete dar que falar.
Chama-se Ray 7 e é uma berlina elétrica de linhas desportivas, com 4,96 metros de comprimento, uma silhueta fastback e uma ambição bastante clara: conquistar compradores que procuram um automóvel tecnológico e visualmente apelativo, mas não querem pagar o preço de propostas como o Xiaomi SU7.
A comparação com a Xiaomi tem sido uma das mais utilizadas pela imprensa especializada chinesa, sobretudo devido ao posicionamento comercial do novo modelo.
E percebe-se porquê.
Na fase de pré-venda, iniciada em outubro, a GAC Aion anunciou preços entre 128.800 e 158.800 yuan. Convertidos diretamente, estes valores correspondem aproximadamente a 17 mil a 21 mil euros, dependendo da taxa de câmbio.
São preços exclusivos do mercado chinês, sem correspondência direta com os valores que poderiam ser praticados na Europa, mas ajudam a compreender a estratégia da marca.
O Ray 7 não pretende destacar-se apenas pelo preço.
A GAC recorreu à tecnologia da Huawei para o sistema de propulsão elétrica DriveONE e para alguns dos componentes mais avançados de assistência à condução.
O automóvel pode contar com 27 sensores, incluindo LiDAR, e utiliza tecnologia desenvolvida a partir da experiência da WeRide com veículos autónomos. Trata-se, contudo, de sistemas de assistência à condução, que não dispensam a atenção do condutor.
A autonomia anunciada pode chegar aos 702 quilómetros no ciclo chinês CLTC. Tal como acontece com o Volkswagen, este valor não deve ser diretamente comparado com as autonomias homologadas pelo ciclo europeu WLTP.
Há ainda um detalhe interessante: apesar do preço relativamente acessível no seu mercado de origem, o Ray 7 apresenta dimensões próximas das de berlinas de segmentos superiores e aposta numa imagem bastante desportiva.
O lançamento comercial está marcado para 12 de novembro, data em que deverão ficar conhecidos os preços definitivos e todos os detalhes das diferentes versões.
Não está anunciada uma chegada do modelo a Portugal.
Dois lançamentos no mesmo dia e uma indústria em transformação
À primeira vista, o Volkswagen ID.ERA 5X e o GAC Aion Ray 7 têm pouco em comum.
Um é um SUV desenvolvido por um fabricante alemão com uma longa história na China. O outro é uma berlina elétrica de uma marca chinesa que procura conquistar compradores através da combinação de tecnologia, equipamento e preço.
Mas há algo que os aproxima.
Ambos mostram como a China deixou de ser apenas um enorme mercado para os fabricantes automóveis e passou a desempenhar um papel central no desenvolvimento de novas tecnologias, plataformas e estratégias comerciais.
A Volkswagen procura responder a essa realidade com parcerias locais. A GAC Aion aproveita-a para lançar produtos cada vez mais competitivos.
Na quinta-feira, 12 de novembro, ficaremos a conhecer os detalhes comerciais finais de ambos os automóveis.
E mesmo que, para já, nenhum tenha uma chegada anunciada a Portugal, são duas novidades que merecem estar no nosso radar. Porque aquilo que está a acontecer na China poderá ajudar a perceber o que encontraremos nas estradas europeias nos próximos anos.
Já estiveram no nosso radar
Das grandes transformações das marcas históricas às propostas mais inesperadas da mobilidade elétrica, o “No Radar” tem acompanhado algumas das novidades que prometem marcar o futuro do mundo dos motores.
Recorde o regresso do Audi A2, mais de 20 anos depois, agora como elétrico, a reinvenção da Jaguar e o automóvel que deverá definir o seu futuro, o regresso anunciado do Tesla Roadster, nove anos depois da primeira apresentação e a semana em que um BMW elétrico, uma Triumph renovada e uma pequena surpresa da Harley-Davidson estiveram em destaque.






