Um carro elétrico usado pode parecer um excelente negócio, mas há um detalhe que os quilómetros e o aspeto exterior não revelam: o verdadeiro estado da bateria. Antes de comprar, há um teste que deve pedir e alguns valores que convém conhecer. O Manual Automonitor explica como evitar surpresas.
A bateria de tração é um dos componentes mais caros de um automóvel elétrico. Embora os testes de longa duração realizados pelo clube automóvel alemão ADAC mostrem que muitas baterias conservam uma boa capacidade mesmo após quilometragens elevadas, o seu desgaste varia de veículo para veículo.
Por isso, o ADAC recomenda que quem procura um elétrico usado não se limite a verificar a quilometragem, a autonomia anunciada ou o estado geral do automóvel.
1. Antes de visitar o carro, peça um relatório da bateria
O primeiro passo pode ser dado ainda antes de sair de casa.
Pergunte ao vendedor se dispõe de um relatório recente sobre o estado de saúde da bateria, identificado pela sigla SoH (State of Health).
Este indicador, expresso em percentagem, permite estimar a capacidade que a bateria conserva relativamente à sua condição de referência.
Um SoH de 90%, por exemplo, indica uma capacidade estimada de cerca de 90% da original. Não significa, contudo, que o automóvel vá necessariamente percorrer 90% da autonomia que conseguia quando era novo.
Também não deve confundir o SoH com a percentagem de carga apresentada no painel: uma bateria pode estar carregada a 100% e já ter perdido uma parte da capacidade original.
2. Compare o resultado com estes valores
O ADAC apresenta quatro valores orientadores para avaliar o estado de saúde de uma bateria:
– Aos 50 mil quilómetros, pelo menos 92%.
– Aos 100 mil quilómetros, pelo menos 88%.
– Aos 150 mil quilómetros, pelo menos 84%.
– Aos 200 mil quilómetros, pelo menos 80%.
Estes valores são referências gerais, não limites legais nem garantias de ausência de problemas. A degradação depende, entre outros fatores, da idade, da utilização, da química da bateria e das condições a que esteve sujeita.
Se encontrar um elétrico com 100 mil quilómetros e um SoH de 75%, por exemplo, não significa automaticamente que a bateria esteja avariada. Mas é um resultado suficientemente afastado da referência do ADAC para justificar uma avaliação técnica mais aprofundada.
3. Confirme se o relatório é fiável
Não basta o vendedor afirmar que a bateria está em boas condições.
Peça um documento onde seja possível identificar o automóvel, a data da avaliação, o resultado obtido e o método utilizado.
O SoH pode ser estimado através dos dados eletrónicos do sistema de gestão da bateria ou avaliado por procedimentos de diagnóstico mais aprofundados. Os resultados podem variar consoante o método.
Se não existir um relatório recente, proponha a realização de um teste numa oficina da marca ou num serviço independente especializado em baterias de veículos elétricos.
Sempre que possível, faça essa verificação antes de entregar qualquer sinal ou assumir um compromisso de compra.
4. Verifique a garantia: os 70% podem fazer a diferença
Muitas marcas oferecem garantias de oito anos ou 160 mil quilómetros para as baterias de tração, frequentemente associadas à manutenção de uma capacidade mínima de 70%.
Mas há diferenças entre fabricantes, modelos e anos de produção.
Confirme quando começou a garantia, se ainda está válida, se pode ser utilizada pelo novo proprietário e quais são as condições para uma eventual reparação.
É importante perceber que uma bateria com 75% de capacidade pode já apresentar uma degradação significativa sem que isso signifique, necessariamente, que o fabricante tenha obrigação de a substituir ao abrigo da garantia.
Peça igualmente o histórico de manutenção e informação sobre eventuais reparações anteriores no sistema de alta tensão.
5. Faça um ensaio e confirme o carregamento
O relatório da bateria é fundamental, mas não substitui uma avaliação do automóvel.
Durante o ensaio, verifique se surgem avisos no painel, se existem anomalias no funcionamento e se a autonomia indicada parece coerente com a carga disponível e as condições de utilização.
Se possível, teste também o carregamento e confirme que o veículo o inicia e mantém normalmente.
Tenha presente que a autonomia apresentada no painel é uma estimativa influenciada pelo estilo de condução, pela temperatura, pelo percurso e pelos consumos anteriores.
Por isso, um ensaio curto não permite determinar com rigor a capacidade real da bateria.
O que nunca deve fazer
Nunca confunda uma bateria carregada a 100% com uma bateria que conserva 100% da sua capacidade original.
Não compre um elétrico usado apenas porque tem poucos quilómetros, nem aceite a autonomia indicada no painel como prova do estado da bateria.
Também não parta do princípio de que uma garantia ainda válida cobre qualquer perda de capacidade. Leia as condições e confirme os limites aplicáveis.
E, sobretudo, não avance com a compra de um automóvel cujo estado da bateria desconhece sem, pelo menos, tentar obter uma avaliação independente.
Antes de fechar negócio
Há três informações que deve procurar ter por escrito: o estado de saúde da bateria, as condições da garantia ainda em vigor e o histórico de manutenção do automóvel.
Se alguma delas estiver em falta, peça esclarecimentos antes de negociar o preço.
Num elétrico usado, conhecer a bateria é tão importante como conhecer os quilómetros. E pode fazer toda a diferença entre uma boa compra e uma surpresa dispendiosa.
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