Durante anos, os fabricantes chineses procuraram conquistar os automobilistas europeus com uma promessa simples: oferecer mais equipamento por menos dinheiro. Mas a estratégia está a mudar. A China prepara agora uma ofensiva sobre o mercado premium, tradicionalmente dominado por marcas como BMW, Mercedes-Benz, Audi e Porsche. E 2027 poderá marcar uma nova etapa nesta disputa.
Segundo o jornal espanhol ‘El Economista’, mais de uma dezena de marcas chinesas preparam a entrada ou o reforço da presença na Europa, apostando em tecnologia avançada, prestações elevadas e preços que, em determinados casos, podem ser até 20 mil euros inferiores aos de modelos concorrentes.
A questão é perceber se os consumidores europeus estão preparados para trocar o prestígio de uma marca alemã por um automóvel chinês que promete oferecer uma experiência semelhante a um preço mais competitivo.
E, sobretudo, se esta nova concorrência poderá alterar o mercado automóvel português.
Porque é que os fabricantes chineses estão a apostar no segmento premium?
A indústria automóvel chinesa cresceu rapidamente nos últimos anos, sobretudo no desenvolvimento de veículos elétricos, baterias, software e tecnologias de assistência à condução.
Depois de conquistarem espaço nos segmentos mais acessíveis, vários fabricantes começaram a desenvolver modelos de posicionamento superior, com mais potência, interiores sofisticados e equipamentos habitualmente associados a automóveis de luxo.
A estratégia procura aproveitar uma mudança nas prioridades dos consumidores.
Felipe Muñoz, especialista da Car Industry Analysis, considera que a reputação histórica das marcas poderá estar a perder parte da importância que tinha anteriormente.
Na sua análise, os compradores de automóveis premium valorizam cada vez mais a tecnologia, abrindo espaço a fabricantes que ainda não possuem décadas de tradição no mercado europeu.
O desafio é significativo. Segundo os dados da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) citados pelo El Economista, BMW, Mercedes-Benz, Audi e Porsche representavam, em conjunto, cerca de 17% das matrículas de automóveis de passageiros na União Europeia até setembro.
Que marcas chinesas querem competir com BMW, Mercedes e Porsche?
A ofensiva envolve fabricantes com experiências e estratégias bastante diferentes.
A BYD está a desenvolver a presença das suas marcas de posicionamento superior, nomeadamente a Denza, orientada para o segmento premium, e a Yangwang, que aposta em automóveis de luxo e elevadas prestações.
A Geely conta com a Zeekr, uma marca que combina eletrificação, tecnologia e uma imagem mais sofisticada.
Já a Chery prepara a expansão da Exlantix, apontada pelo El Economista como uma das protagonistas da nova vaga de marcas premium chinesas que procuram chegar à Europa em 2027.
A Great Wall Motor pretende reforçar a presença europeia através da WEY e da TANK, com propostas que incluem SUV de posicionamento superior e modelos orientados para a utilização fora de estrada.
A Xiaomi é outro nome a acompanhar. Conhecida pelos telemóveis e equipamentos eletrónicos, entrou recentemente na indústria automóvel e prepara a chegada dos seus veículos elétricos à Europa em 2027.
Há ainda fabricantes como Li Auto e marcas como Aito, Maextro, Luxeed e Stelato, que poderão integrar uma nova fase de expansão chinesa.
Importa, contudo, distinguir os planos para o mercado europeu da comercialização efetiva em Portugal. Nem todas estas marcas anunciaram datas de chegada ao nosso país, redes de distribuição ou preços nacionais.
Um carro chinês pode oferecer o mesmo por menos 20 mil euros?
É um dos argumentos mais fortes desta ofensiva, mas também um dos que exige maior cuidado.
O ‘El Economista’ refere que, em determinadas comparações, os automóveis premium chineses podem apresentar diferenças de preço até 20 mil euros face aos concorrentes tradicionais.
Isso não significa que qualquer modelo chinês seja automaticamente 20 mil euros mais barato do que um BMW, Audi ou Mercedes equivalente.
Para fazer uma comparação justa, é necessário considerar a dimensão do automóvel, a motorização, a potência, a autonomia, o equipamento, as condições de garantia e o mercado onde é vendido.
Ainda assim, o preço poderá ser decisivo para consumidores que procuram tecnologia e conforto sem atribuírem tanta importância ao prestígio do emblema.
Javier Goikoetxea, CEO da Next Mobility, afirma que já existem compradores dispostos a trocar marcas alemãs por automóveis chineses bem equipados e mais acessíveis.
O responsável destaca a Xpeng como exemplo de um fabricante que procura combinar qualidade de construção, tecnologia e um posicionamento premium.
Mas há uma diferença entre apresentar uma ficha técnica impressionante e oferecer uma experiência de utilização equivalente durante vários anos.
Tecnologia não é tudo: onde continuam a ter vantagem as marcas europeias?
Um automóvel premium não se define apenas pela potência, pelo tamanho dos ecrãs ou pela quantidade de equipamentos.
A qualidade dos materiais, o isolamento acústico, o conforto, o comportamento dinâmico e a atenção aos detalhes continuam a fazer parte da experiência.
Há ainda fatores menos visíveis no momento da compra, mas importantes a longo prazo: fiabilidade, assistência técnica, disponibilidade de peças, atualizações de software e valor de revenda.
É precisamente neste conjunto de fatores que as marcas tradicionais continuam a beneficiar da experiência acumulada e de redes comerciais estabelecidas.
Will Roberts, responsável pela investigação automóvel na Benchmark Mineral Intelligence, alerta que os novos fabricantes precisam de definir claramente o seu posicionamento.
Podem procurar competir diretamente com as marcas de luxo, oferecendo qualidade e preços semelhantes, ou apresentar uma experiência premium mais acessível.
O risco surge quando uma marca pretende cobrar preços elevados sem conseguir proporcionar um serviço e uma experiência de utilização correspondentes.
A reputação, recorda o especialista, pode formar-se muito rapidamente.
Os carros chineses vão continuar a ser mais baratos?
Não necessariamente.
Alguns fabricantes chineses já estão a desenvolver automóveis com preços de 80 mil, 90 mil ou mais de 100 mil euros.
A ambição deixou de passar exclusivamente por conquistar clientes através de descontos face aos concorrentes europeus.
Marcas como Yangwang e Zeekr procuram também construir uma identidade própria, associada à tecnologia, ao desempenho e ao luxo.
Isto significa que a concorrência poderá acontecer em diferentes níveis.
Alguns fabricantes tentarão oferecer uma experiência premium a preços inferiores, enquanto outros procurarão disputar diretamente os segmentos mais caros do mercado.
Para o consumidor, a origem chinesa de um automóvel deixará, por isso, de ser necessariamente sinónimo de preço reduzido.
E as tarifas da União Europeia? Podem travar esta ofensiva?
As tarifas são um dos principais obstáculos à expansão de determinados veículos chineses.
A União Europeia introduziu direitos compensatórios adicionais sobre automóveis elétricos a bateria fabricados na China, com taxas que podem atingir 35,3%, dependendo do fabricante.
Estes direitos acrescem à tarifa aduaneira normal e podem reduzir a vantagem de preço dos modelos importados.
Contudo, não se aplicam automaticamente da mesma forma a todos os veículos ou motorizações.
É também por isso que vários fabricantes chineses estão a estudar ou a desenvolver projetos industriais na Europa.
Produzir automóveis no continente pode reduzir custos logísticos, aproximar as marcas dos consumidores e, consoante as condições de produção, evitar a incidência dos direitos aplicados à importação de veículos acabados da China.
O El Economista destaca acordos industriais e modelos de produção por contrato como possíveis caminhos para esta expansão.
Mas construir uma fábrica exige investimentos elevados e volumes de vendas suficientes para garantir a sua viabilidade.
Por esse motivo, alguns especialistas consideram que os fabricantes chineses poderão privilegiar inicialmente a consolidação comercial das suas marcas premium, antes de avançarem para uma produção europeia mais alargada.
O que pode mudar para quem compra um automóvel em Portugal?
A chegada de mais fabricantes poderá aumentar a oferta disponível e intensificar a concorrência nos segmentos premium.
Isso poderá traduzir-se em mais opções de equipamento, novas tecnologias e estratégias comerciais mais competitivas.
Mas não significa necessariamente que os preços dos automóveis de luxo vão baixar.
Os valores praticados em Portugal dependem também da fiscalidade, das tarifas, dos custos de distribuição e das características de cada modelo.
Para quem estiver a considerar um automóvel de uma marca recentemente chegada ao mercado, há quatro aspetos particularmente importantes:
– Confirmar a existência de assistência oficial e de uma rede de reparação acessível em Portugal.
– Verificar as condições de garantia, incluindo as exclusões e a cobertura da bateria nos veículos elétricos.
– Procurar informação sobre a disponibilidade de peças e o apoio pós-venda.
– Avaliar a eventual desvalorização, sobretudo quando ainda existe pouco histórico da marca no mercado de usados.
Um automóvel pode parecer uma excelente oportunidade no momento da compra, mas o seu custo e a qualidade da experiência de utilização não terminam quando sai do concessionário.
Todas estas marcas chinesas vão conseguir sobreviver na Europa?
É pouco provável que todas consigam consolidar-se, segundo os especialistas ouvidos pelo El Economista.
O mercado automóvel europeu continua abaixo dos volumes anteriores à pandemia, e a chegada de novos fabricantes aumenta a concorrência por um número limitado de compradores.
Algumas marcas poderão conquistar uma posição estável, enquanto outras terão de alterar a estratégia, procurar parceiros ou abandonar determinados mercados.
A experiência da Geely com marcas europeias, a capacidade tecnológica da Xiaomi e a rede comercial internacional desenvolvida pela BYD são apontadas como vantagens competitivas.
Mas nenhuma delas garante automaticamente o sucesso.
A construção de uma reputação premium exige tempo, consistência e capacidade para responder às expectativas dos consumidores depois da venda.
Afinal, BMW, Mercedes, Audi e Porsche têm motivos para se preocupar?
A ofensiva chinesa não significa o fim do domínio das marcas europeias no segmento premium.
Os fabricantes tradicionais continuam a beneficiar de uma forte identidade, décadas de experiência e uma relação de confiança com os seus clientes.
Mas enfrentam concorrentes que estão a desenvolver automóveis cada vez mais sofisticados e que procuram reduzir a distância tecnológica que separava os dois mercados.
A principal mudança poderá estar na forma como os consumidores escolhem o próximo automóvel.
Se um modelo chinês conseguir oferecer tecnologia, qualidade, conforto e assistência comparáveis a um preço inferior, o prestígio do emblema poderá deixar de ser suficiente para justificar a diferença.
E é essa a verdadeira batalha que se aproxima: não apenas conquistar o mercado europeu, mas convencer os compradores de que um automóvel premium já não precisa obrigatoriamente de ter um símbolo alemão no capô.
A ofensiva chinesa já deu origem a várias histórias na Automonitor. Recorde a nova vaga de marcas liderada pela Xiaomi, conheça o elétrico chinês de 1.156 cv que desafia os fabricantes alemães e descubra o SUV de luxo da Zeekr anunciado para Portugal.






