É uma das regras que mais se repetem entre quem conduz um carro elétrico: no dia a dia, carregue apenas até aos 80% e deixe os 100% para quando precisar realmente de toda a autonomia.
Mas porquê 80%? O que acontece se carregar até aos 100%? E será o carregamento completo que prejudica a bateria ou há outro fator mais importante?
Uma análise recente de 328 mil ciclos reais de condução e carregamento dá uma resposta particularmente interessante: chegar aos 100% não parece ser o verdadeiro problema. Deixar a bateria muito carregada durante demasiado tempo é que pode acelerar a degradação.
Os dados foram analisados pela Bib Batteries, empresa francesa especializada na avaliação do estado das baterias de veículos elétricos, ao longo de 18 meses.
E ajudam a perceber por que razão carregar o carro na noite anterior a uma viagem não é a mesma coisa que carregá-lo completamente e deixá-lo parado durante todo o fim de semana.
Afinal, porque se fala tanto nos 80%?
Uma bateria de um automóvel elétrico continua a envelhecer mesmo quando o carro está estacionado.
É o chamado envelhecimento por calendário e está relacionado, entre outros fatores, com a temperatura e com o estado de carga da bateria.
Quando uma bateria de iões de lítio permanece com um nível de carga muito elevado, a tensão das células também é elevada. Nessas condições podem acelerar determinadas reações químicas indesejadas no interior das células, contribuindo gradualmente para a perda de capacidade.
Daí a recomendação dos 80%.
Mas há uma distinção importante: os 80% não são uma espécie de linha vermelha que, depois de ultrapassada, começa imediatamente a danificar a bateria.
São sobretudo uma referência prática para evitar que o automóvel passe demasiado tempo com um nível de carga muito elevado.
328 mil ciclos mostram o que acontece
A Bib Batteries analisou 328 mil ciclos de condução e carregamento registados durante 18 meses e dividiu os automóveis de acordo com o tempo que as baterias permaneciam acima dos 80% de carga.
Foram criados três grupos: veículos que permaneciam nessa situação menos de 10% do tempo, entre 10% e 25% e mais de 25%.
O resultado mostrou uma tendência clara.
Quanto mais tempo a bateria permanecia acima dos 80%, maior era a perda do chamado State of Health (SoH) — indicador utilizado para comparar a capacidade atual de uma bateria com aquela que possuía quando era nova.
Nos automóveis que passavam mais de 25% do tempo acima dos 80%, a perda média era superior em cerca de um ponto percentual de SoH relativamente ao grupo intermédio.
Comparando com os veículos que permaneciam menos de 10% do tempo acima dessa fasquia, a diferença chegava aos 1,5 pontos percentuais.
E havia outro dado importante: a relação mantinha-se independentemente da quilometragem.
Dois carros iguais e com quilometragens semelhantes podem, portanto, chegar ao mesmo momento da vida com baterias em estados diferentes devido, entre outros fatores, à forma como foram carregados e ao tempo que passaram com níveis elevados de carga.
Então posso carregar até aos 100%?
Sim.
E esta é provavelmente a parte mais importante do Explicador.
Carregar ocasionalmente a bateria até aos 100% não significa que esteja a estragá-la. O que os dados sugerem que deve ser evitado é mantê-la repetidamente num nível de carga muito elevado durante períodos prolongados.
Imagine duas situações.
Na primeira, vai fazer uma viagem longa às oito da manhã e programa o carregamento para o automóvel atingir os 100% pouco antes de sair.
Na segunda, chega a casa na sexta-feira, carrega imediatamente até aos 100% e deixa o carro estacionado até segunda-feira.
Nos dois casos o indicador chegou ao máximo.
Mas a bateria não passou o mesmo tempo nesse estado.
É precisamente essa diferença que importa.
Vai viajar? Os 100% continuam lá para serem usados
A bateria existe para ser utilizada e, quando é necessária toda a autonomia, não há razão para transformar os 100% num número proibido.
A solução mais simples pode estar no próprio automóvel.
Muitos elétricos permitem definir um limite máximo de carregamento para a utilização quotidiana e programar a hora a que o carregamento deve terminar.
Assim, quem normalmente não necessita de toda a autonomia pode utilizar o limite recomendado pelo fabricante no dia a dia e carregar completamente antes das viagens mais longas.
Em vez de o carro chegar aos 100% à meia-noite e permanecer assim até às oito da manhã, por exemplo, pode programá-lo para terminar o carregamento perto da hora de saída.
Mas atenção: nem todas as baterias são iguais
É aqui que uma regra aparentemente simples se torna um pouco mais complicada.
Nem todos os automóveis elétricos utilizam a mesma química de bateria.
As baterias NMC, que utilizam níquel, manganês e cobalto, e as baterias LFP, de lítio-ferro-fosfato, têm características diferentes. Alguns fabricantes de automóveis equipados com baterias LFP recomendam inclusivamente carregamentos regulares até aos 100%, entre outros motivos relacionados com a gestão e calibração do estado de carga.
Por isso, a regra mais importante não é simplesmente “pare sempre nos 80%”.
É seguir a recomendação do fabricante para a bateria instalada no seu automóvel.
E deixar a bateria quase vazia?
Aqui surge outra conclusão curiosa da análise.
A Bib Batteries não encontrou um efeito estatisticamente significativo no desgaste associado ao tempo passado abaixo dos 20% de carga.
Isso não significa que seja aconselhável deixar constantemente o automóvel quase sem energia — até porque existe a questão prática de ficar sem autonomia —, mas mostra que os dois extremos não tiveram o mesmo comportamento nos dados analisados.
No extremo superior, a relação com a degradação era visível.
Então qual é a regra que deve guardar?
É mais simples do que parece.
Se não precisa de toda a autonomia, utilize no dia a dia o limite de carregamento recomendado pelo fabricante.
Se vai fazer uma viagem e precisa dos 100%, carregue até aos 100%.
Sempre que possível, faça com que o carregamento termine perto da hora em que vai utilizar o automóvel, evitando deixá-lo completamente carregado durante dias.
E, acima de tudo, não trate os 80% como uma fronteira mágica.
O problema não é ver 100% no painel. É transformar os 100% no lugar onde a bateria passa grande parte da sua vida.
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