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Dois carros, uma lenda e milhões em jogo: o mistério do Porsche 917 que nem a marca consegue desvendar

Dois carros, uma lenda e milhões em jogo: o mistério do Porsche 917 que nem a marca consegue desvendar
Francisco Laranjeira

Com a sua pintura psicadélica em tons de roxo e verde, o Porsche 917 LH tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis de Le Mans

Um dos Porsche mais famosos da história do automobilismo está no centro de um mistério que dura há mais de meio século. Dois exemplares do lendário Porsche 917 “Hippie” reclamam a identidade do carro que terminou as 24 Horas de Le Mans de 1970 no segundo lugar. O problema? Nem os arquivos da Porsche conseguem esclarecer definitivamente qual deles é o verdadeiro, numa disputa em que podem estar em jogo dezenas de milhões de euros.

A história, revelada pelo ‘The Wall Street Journal’ e recuperada pela ‘L’Automobile Magazine’, envolve um museu dos EUA, um colecionador britânico e uma prática habitual nas corridas das décadas de 1960 e 1970: a troca de números de chassis entre automóveis de competição.

Com a sua pintura psicadélica em tons de roxo e verde, o Porsche 917 LH tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis de Le Mans. Em 1970, Gérard Larrousse e Willi Kauhsen conduziram-no até ao segundo lugar, numa edição marcada por chuva intensa e pela primeira vitória absoluta da Porsche na prova francesa.

Mais de 50 anos depois, a identidade desse automóvel continua a ser motivo de discussão.

Dois Porsche, dois proprietários e a mesma história

De um lado está o Simeone Foundation Automotive Museum, em Filadélfia, nos EUA, que possui um Porsche 917 com a célebre decoração “Hippie”.

Do outro encontra-se Frank Sytner, antigo piloto e empresário britânico, de 82 anos, que afirma ter adquirido o verdadeiro exemplar em 2024, a um antigo piloto residente no Brasil.

Desde então, Sytner tem procurado reunir documentação e testemunhos que comprovem a autenticidade do seu automóvel. Levou-o a eventos como o Le Mans Classic e o Festival de Velocidade de Goodwood, além de ter procurado esclarecer a situação diretamente com o museu que detém o outro exemplar.

A dificuldade está em reconstruir uma história que começou numa época em que os automóveis de corrida eram frequentemente modificados, reparados ou reconstruídos.

O número de chassis que complicou tudo

Ambas as partes concordam num ponto essencial: o Porsche que terminou em segundo lugar nas 24 Horas de Le Mans de 1970 tinha originalmente o número de chassis 917-043.

A partir daqui, as versões divergem.

O Museu Simeone sustenta que o automóvel terá recebido posteriormente a identificação 917-044, antes de ser vendido ao conhecido negociante e colecionador Vasek Polak.

Esta interpretação apoia-se, entre outros elementos, numa carta de 1998 de Jürgen Barth, então responsável pela competição para clientes da Porsche.

Frank Sytner apresenta outra explicação. Segundo a sua investigação, o verdadeiro 917-043 terá passado igualmente pelas mãos de Vasek Polak, antes de seguir para o Brasil, onde terá recebido uma identificação diferente.

Os especialistas contratados pelo colecionador admitem que a alteração possa ter sido feita por razões alfandegárias, embora não exista documentação conclusiva que comprove essa hipótese.

Na época, a substituição de componentes e até de placas de identificação não era invulgar no automobilismo. As equipas procuravam manter os carros competitivos e simplificar procedimentos logísticos, sem imaginar que, décadas depois, cada detalhe poderia representar uma diferença de milhões de euros.

Nem a Porsche consegue dar uma resposta definitiva

A posição da própria marca alemã torna o caso ainda mais invulgar.

Frank Jung, responsável pelos arquivos e coleções do Museu Porsche, reconheceu que os documentos históricos disponíveis não permitem estabelecer de forma definitiva qual dos dois automóveis corresponde ao 917-043 que participou em Le Mans.

Alguns registos sugerem que o 917-044, atualmente no Museu Simeone, seria um chassis de reserva quando foi vendido a Vasek Polak.

Contudo, esses elementos também não bastam para confirmar que o exemplar de Frank Sytner é o verdadeiro protagonista da corrida de 1970.

Nem a análise de antigos engenheiros da marca conseguiu resolver a questão. Norbert Singer, uma das figuras históricas do programa de competição da Porsche, examinou o carro de Sytner e identificou algumas alterações na carroçaria, mas não conseguiu estabelecer uma conclusão definitiva.

A Porsche optou, por isso, por não tomar partido na disputa.

Um mistério que pode valer dezenas de milhões

A autenticidade é particularmente importante num automóvel com o historial do Porsche 917.

Estes modelos estão entre os carros de competição mais procurados pelos colecionadores, e a ligação direta a uma prova histórica como as 24 Horas de Le Mans pode aumentar consideravelmente o seu valor.

Um Porsche 917K chegou a ser vendido por cerca de 25 milhões de dólares, o equivalente a mais de 20 milhões de euros.

No caso do “Hippie”, não está em discussão apenas um número de chassis. Está em causa a possibilidade de um dos proprietários demonstrar que possui o automóvel que, com uma pintura inesquecível, ajudou a escrever um dos capítulos mais importantes da história da Porsche.

Até que surja uma prova conclusiva, os dois exemplares continuarão a partilhar uma identidade que, em teoria, só deveria pertencer a um deles.

E talvez seja essa a parte mais extraordinária da história: mais de meio século depois de conquistar um lugar no pódio de Le Mans, o Porsche 917 “Hippie” continua a dar que falar, mas desta vez longe das pistas.