Durante quase 30 anos, Hot Wheels e Matchbox travaram uma guerra por um território que cabia na palma de uma mão.
Uma tinha chegado primeiro e transformado pequenos automóveis realistas num fenómeno mundial. A outra apareceu 15 anos depois, tornou-os mais rápidos, mais coloridos e mais extravagantes e obrigou a campeã a mudar aquilo que fazia.
Competiram nas lojas, nas pistas de plástico e nos quartos de milhões de crianças. Tinham filosofias diferentes, colecionadores diferentes e duas maneiras quase opostas de reduzir o automóvel à escala de um brinquedo.
Até que aconteceu algo que dificilmente alguém teria imaginado quando a rivalidade começou.
Em 1997, a Matchbox acabou nas mãos da Mattel.
A empresa que tinha criado a Hot Wheels precisamente para conquistar um mercado dominado pela Matchbox passava a ser dona das duas.
Mas para perceber como o desafiante acabou por comprar o antigo rei é preciso regressar a Inglaterra e a uma escola onde as crianças só podiam levar brinquedos suficientemente pequenos para caberem numa caixa de fósforos.
Antes dos Hot Wheels, o mundo pertencia à Matchbox
A história começa em 1953.
Segundo a própria Mattel, Jack Odell, engenheiro e um dos fundadores da Lesney Products, deparou-se com uma regra curiosa na escola da filha: os alunos só podiam levar brinquedos que coubessem dentro de uma caixa de fósforos.
Odell construiu então um pequeno rolo compressor em metal que respeitava aquelas dimensões.
As outras crianças quiseram um igual.
Nascia a ideia que daria origem à Matchbox — nome que significa precisamente “caixa de fósforos”.
O conceito era tão simples quanto poderoso. Em vez de grandes brinquedos, a Lesney produzia pequenos veículos em metal, suficientemente baratos e compactos para uma criança começar a construir a sua própria garagem. E havia uma característica que se tornaria parte da identidade da marca: os carros procuravam reproduzir veículos que realmente existiam.
Automóveis, camiões, autocarros, máquinas de construção. Um mundo adulto reduzido até caber numa mão.
A fórmula tornou-se um fenómeno internacional. Em meados da década de 1960, a Matchbox era já uma referência mundial entre as miniaturas automóveis. Parecia difícil imaginar como alguém poderia entrar naquele mercado e mudar as regras.
Foi exatamente isso que a Mattel decidiu fazer.
“Façam algo melhor”
Elliot Handler, cofundador da Mattel, conhecia bem os pequenos automóveis que os filhos usavam para brincar. Mas não queria simplesmente fabricar mais um. A ideia era criar um carro que tivesse melhor aspeto e, sobretudo, que fosse mais divertido de conduzir numa pista.
A equipa trabalhou então num novo sistema de rodas e eixos com muito menos atrito. Juntou-lhe suspensões, cores fortes e uma estética inspirada na cultura automóvel da Califórnia, nos hot rods e nos muscle cars.
Se a Matchbox colocava nas mãos das crianças uma versão reduzida do automóvel dos pais, a Hot Wheels queria entregar-lhes o carro que talvez os pais nunca pudessem ter.
Em maio de 1968, o primeiro Custom Camaro chegou às lojas. Seguiram-se outros 15 modelos. A coleção inicial ficaria conhecida como “Sweet 16”.
A guerra tinha começado.
A Matchbox tinha um problema: os novos carros eram muito mais rápidos
A diferença percebia-se assim que os brinquedos eram colocados numa pista.
As rodas tradicionais da Matchbox tinham sido concebidas sobretudo com realismo e robustez em mente. As Hot Wheels estavam pensadas para reduzir o atrito e correr.
Era uma vantagem enorme num brinquedo cujo próprio nome prometia velocidade.
E a Lesney percebeu rapidamente que não podia responder apenas com a reputação conquistada durante os 15 anos anteriores.
Tinha de mexer nos carros.
A resposta chegou com um nome que não deixava grandes dúvidas sobre o objetivo: Superfast.
A partir de 1969, a Matchbox começou a adotar rodas de baixo atrito e eixos mais finos. Vieram também cores mais fortes e uma aproximação ao tipo de brincadeira que a rival estava a popularizar.
A ironia era evidente.
A empresa que tinha definido o mercado durante anos estava agora a modificar os seus produtos para acompanhar uma marca que praticamente acabara de nascer.
A Hot Wheels não tinha apenas conquistado clientes à Matchbox.
Tinha-a obrigado a mudar.
Realismo contra fantasia
Com o passar dos anos, as duas marcas desenvolveram personalidades próprias.
A Matchbox continuava fortemente ligada ao mundo real. Carros de produção, veículos comerciais, camiões, máquinas de construção e outros modelos reconhecíveis das estradas faziam parte do seu ADN.
Hot Wheels tinha muito menos medo de exagerar.
Hot rods, motores expostos, rodas gigantes, cores impossíveis e modelos que não precisavam sequer de existir fora da imaginação dos designers conviviam com versões de automóveis verdadeiros.
Era uma diferença suficientemente grande para alimentar preferências quase tribais.
Havia crianças — e mais tarde colecionadores — que preferiam a fidelidade da Matchbox.
Outras queriam a velocidade e a irreverência dos Hot Wheels.
E durante anos houve espaço para as duas.
O problema da Matchbox acabaria por chegar de outro lado.
Em 1982, a empresa que criou a Matchbox caiu
No final da década de 1970 e início da seguinte, a Lesney começou a enfrentar sérias dificuldades financeiras. O contexto económico britânico era adverso e outros grandes fabricantes de brinquedos do país atravessavam problemas semelhantes. A força da marca Matchbox já não era suficiente para proteger a empresa que a tinha criado.
Em 1982, a Lesney entrou em insolvência. Não significou a morte da Matchbox.
A marca e vários ativos foram comprados pela Universal Toys, de Hong Kong, começando uma nova fase em que parte da produção seria transferida para Macau. A Matchbox tinha sobrevivido à queda da sua criadora.
Mas deixara de ser aquela empresa britânica que, três décadas antes, tinha praticamente definido a forma como milhões de crianças brincavam com pequenos carros.
E ainda iria mudar novamente de mãos.
Universal, Tyco e finalmente… Mattel
Em 1992, a Matchbox foi adquirida pela Tyco Toys. Cinco anos depois surgiu a operação que fecharia o círculo iniciado em 1968.
A Mattel comprou a Tyco. E com ela recebeu a Matchbox.
A própria Mattel resume hoje 1997 como o ano em que Matchbox e Hot Wheels ficaram finalmente “debaixo do mesmo teto”.
Quase três décadas depois de a Hot Wheels ter entrado no mercado para enfrentar a Matchbox, as duas rivais pertenciam à mesma companhia.
Era como se a Coca-Cola comprasse a Pepsi depois de passar décadas a combatê-la.
Mas ainda havia uma pergunta delicada.
O que faria a Mattel à antiga rival?
Matar a Matchbox seria a vitória definitiva. A Mattel fez o contrário
A compra provocou receios entre colecionadores. Se a Mattel já tinha Hot Wheels, para que precisava de outra marca de pequenos automóveis? E, sobretudo, faria sentido manter viva uma rival que concorrera diretamente com ela durante décadas?
A resposta acabou por estar precisamente na diferença que tinha alimentado a rivalidade. Matchbox e Hot Wheels não precisavam de ser iguais.
A primeira podia continuar mais próxima do realismo, dos automóveis de produção, dos veículos de trabalho e de uma representação reconhecível das estradas. A segunda podia conservar a ligação à velocidade, à personalização, à fantasia e às pistas.
Em vez de apagar a Matchbox, a Mattel passou a ter duas portas diferentes para entrar na mesma garagem.
E ambas continuam abertas.
A rivalidade acabou? Só no papel
Hoje, Matchbox e Hot Wheels pertencem à mesma empresa, mas continuam a ocupar lugares distintos. A Matchbox celebrou 70 anos em 2023 e a Mattel continua a apresentá-la como uma marca construída em torno da autenticidade e dos veículos realistas.
Hot Wheels, por sua vez, transformou-se num universo muito maior do que os pequenos carros lançados em 1968, estendendo-se aos videojogos, cultura automóvel, roupa, eventos e colaborações com fabricantes.
A antiga guerra empresarial terminou.
A cultural talvez nunca tenha acabado.
Porque quem cresceu com uma pequena garagem espalhada pelo chão provavelmente ainda sabe de que lado estava.
Matchbox era o carro que podíamos encontrar estacionado na rua. Hot Wheels era muitas vezes aquele que desejávamos que existisse.
Durante quase 30 anos, essas duas ideias lutaram pelo mesmo espaço.
No fim, aconteceu algo que nenhuma criança que colocasse os dois carros lado a lado numa pista conseguiria reproduzir.
Um dos rivais comprou o outro. E decidiu mantê-lo na corrida.






