Quando lemos o anúncio da parceria estratégica entre a Porsche AG e a Tata Consultancy Services (TCS), a tendência natural foi olharmos somente para as palavras da moda: Inteligência Artificial, Centro de Excelência e Transformação Digital. Contudo, em minha opinião, o verdadeiro significado desta operação vai muito para além desses conceitos.
O que a Porsche fez poderá revelar-se um dos movimentos estratégicos relevantes da indústria automóvel europeia ocorridos na presente década.
À primeira vista, os factos são simples:
– A TCS vai criar um AI Mobility Centre of Excellence dedicado à Porsche,
– O acordo estratégico é a cinco anos;
– Vai adquirir a totalidade da MHP Management- und IT-Beratung GmbH, consultora tecnológica pertencente ao universo Porsche.
Mas quem conhece a indústria automóvel sabe que uma notícia destas não deve/pode ser lida apenas como mais um contrato tecnológico. Vejamos a história da marca; durante mais de 70 anos, a Porsche construiu a sua reputação assente em pilares estanques:
– Excelência de engenharia
– Inovação mecânica,
– Comportamento dinâmico,
– Qualidade de construção
– Obsessão permanente pela performance.
E, ao dia de hoje estes pilares continuam a ser fundamentais, contudo, o “centro de gravidade” da indústria automóvel alterou-se, pois atualmente uma vantagem competitiva já não é determinada apenas pelo motor, pela suspensão ou pela plataforma mas na capacidade de transformar dados em decisões, software em funcionalidades e inteligência artificial em eficiência operacional.
E é aqui que, em minha opinião, a Porsche se focou em querer resolver, onde o verdadeiro destaque é a MHP.
Na minha leitura, a criação do Centro de Excelência em IA nem sequer é o elemento mais importante do comunicado de imprensa mas a transferência da MHP para a TCS.
Quem conhece o mercado saber que a MHP não é uma consultora convencional mas uma empresa profundamente ligada ao ADN tecnológico e operacional da Porsche, onde acumula décadas de experiência em transformação empresarial, SAP, digitalização industrial, mobilidade conectada e tecnologia aplicada ao setor automóvel.
Ao efetuar esta aquisição, a Porsche enviou ao mercado uma mensagem: O conhecimento já existe; agora a prioridade passa a ser a capacidade de o implementar à escala global
Porsche → transfere a MHP → TCS ganha escala global → Porsche mantém acesso à competência automóvel + ganha capacidade tecnológica adicional
A passagem de testemunho
A Porsche pode passar assim de uma lógica predominantemente experimental para uma lógica de industrialização e escala; nos últimos anos, acompanhei de perto as iniciativas da marca relacionadas com Inteligência Artificial, onde já demonstrou aplicações de IA no desenvolvimento automóvel, utilização de LLM para apoio à engenharia, análise avançada de baterias de alta tensão, deteção de anomalias durante os testes e gestão inteligente de grandes volumes de dados técnicos.
E em todos eles não vejo experiências académicas, nem provas de conceito desenhadas para impressionar os acionistas, mas aplicações concretas destinadas a melhorar a produtividade, qualidade, velocidade de desenvolvimento e tomada de decisão.
Por isso, quando a Porsche anunciou o Centro de Excelência dedicado à IA, a minha interpretação foi que a fase de experimentação terminou e deu-se início à fase da industrialização da Inteligência Artificial.
Aliás, o próprio CEO da TCS, K. Krithivasan, foi cirúrgico ao afirmar que o objetivo passa por “industrializar a IA à escala” para a marca de Estugarda e do lado da Porsche, o CEO Dr. Michael Leiters corroborou essa visão quando sublinhou que a transferência da MHP vai permitir à Porsche focar-se resolutamente no seu core business, ganhando um parceiro estratégico para aumentar a eficiência e a competitividade num mundo cada vez mais moldado por dados e software.
Uma resposta europeia a uma nova realidade
Nos últimos anos, ocorreram três fenómenos transformadores na indústria automóvel, onde está simultaneamente a lidar com a ascensão de fabricantes chineses, a importância crescente do software e a integração cada vez maior entre engenharia, dados, eletrónica e produção.
E, perante esta nova realidade, alguma industria automóvel europeia continua à procura da sua estratégia. A Porsche creio que encontrou a sua, pois ao invés de tentar desenvolver tudo internamente, associou-se a um dos maiores players mundiais de tecnologia e engenharia digital.
Esta decisão pragmática é potencialmente brilhante, pois, num mundo onde a evolução tecnológica já se mede em semanas e não em anos, a velocidade de execução pode vir a valer mais do que a simples posse de uma tecnologia.
IA para o automóvel ou IA para a empresa?
No comunicado encontrei outro aspeto que me chamou particularmente a atenção; refere explicitamente: operações, engenharia, fabrico e e experiência do cliente, ou seja, na minha interpretação a Porsche não pretende utilizar a Inteligência Artificial apenas dentro do veículo mas utilizá-la em toda a sua organização.
E se a minha leitura for correta essa diferença pode ser enorme. E porquê? Vejo fabricantes que continuam a olhar para a IA como uma funcionalidade do produto e não como um sistema operativo corporativo com a capacidade para transformar processos, acelerar decisões, otimizar recursos e aumentar a competitividade.
Resumo
Em minha opinião, o comunicado de imprensa da parceria para mim não é sobre a Porsche comprar Inteligência Artificial mas na capacidade de execução em larga escala.
E, num setor onde a diferença entre líderes de mercado e seguidores de tendências, o fator decisivo reside na rapidez de adaptação, e esta parceria pode revelar-se uma decisão estrategicamente relevante para a indústria automóvel europeia, onde os próximos anos serão reveladores se esta aposta foi suficiente para manter a Porsche na linha da frente da mobilidade definida por software, dados e Inteligência Artificial; mas uma coisa é certa: acredito que os restantes construtores estão a dar a devida atenção à parceria.
Based on Porsche Press Release – TCS and Porsche AG Partner to Accelerate the Future of AI-Powered Mobility