A solução mais simples para fazer um carro elétrico percorrer mais quilómetros é colocar-lhe uma bateria maior. A Volkswagen decidiu experimentar o caminho contrário.
O Mission Efficiency é um protótipo de quatro lugares com uma bateria utilizável de apenas 54,9 kWh que percorreu 1.278 quilómetros entre Wolfsburgo e Viena, necessitando de uma única paragem para carregar. No final da viagem ainda indicava 164 quilómetros de autonomia.
Mais impressionante é o consumo anunciado: 7,51 kWh/100 km ao longo de todo o percurso, incluindo as perdas associadas ao carregamento, segundo os dados da Volkswagen divulgados pelo ‘L’Automobile Magazine’.
E por baixo daquela carroçaria que parece saída de um túnel de vento há uma surpresa: cerca de 80% dos componentes do sistema de propulsão são, segundo a publicação francesa, partilhados com o ID. Polo.
O verdadeiro inimigo estava no ar
A Volkswagen não procurou o recorde através de centenas de quilowatts de potência.
O grande trabalho foi feito naquilo que o carro tem de atravessar sempre que se movimenta: o ar.
O Mission Efficiency apresenta um coeficiente aerodinâmico (Cx) de apenas 0,158 e uma área frontal de 2,08 m². Para comparação, o Lucid Air, já considerado um dos automóveis de produção mais aerodinâmicos do mercado, apresenta um Cx próximo de 0,20.
A carroçaria estreita progressivamente em direção à traseira, as rodas posteriores estão parcialmente cobertas e a parte inferior do automóvel é praticamente fechada.
Até a distância entre as rodas traseiras foi reduzida em 170 mm face ao ID. Polo.
O sistema de refrigeração também foi levado ao detalhe: três elementos controlados eletronicamente podem assumir cinco posições diferentes, abrindo apenas aquilo que é necessário para arrefecer o conjunto.
Até os retrovisores sobreviveram
Curiosamente, há uma solução que a Volkswagen decidiu não utilizar.
Em vez de substituir os retrovisores convencionais por câmaras — algo habitual em protótipos concebidos para maximizar a aerodinâmica — os engenheiros mantiveram os espelhos.
Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, as simulações e testes realizados pela Volkswagen mostraram que a redução da resistência ao ar seria demasiado pequena para compensar de forma significativa a energia consumida pelas câmaras e pelo sistema eletrónico necessário para apresentar as imagens.
É precisamente este tipo de detalhe que explica a filosofia do projeto: não basta tornar o carro aerodinâmico. Cada watt conta.
Por baixo, há muito do ID. Polo
Apesar da aparência radical, a mecânica não é ficção científica.
O Mission Efficiency utiliza a arquitetura MEB+ com tração dianteira e o motor elétrico síncrono de ímanes permanentes APP290, tecnologia que encontramos na nova geração do ID. Polo. A Volkswagen confirma que este motor pesa apenas 75 kg e foi desenvolvido precisamente com a eficiência como uma das prioridades.
No protótipo, a potência ronda os 135 cv e o binário chega aos 264 Nm, segundo os dados divulgados pelo L’Automobile Magazine.
A bateria NMC tem 54,9 kWh utilizáveis na configuração do Mission Efficiency. No ID. Polo de produção, a Volkswagen utiliza uma bateria NMC de 52 kWh líquidos nas versões mais potentes, além de uma alternativa LFP de 37 kWh nas variantes de entrada.
Há ainda dois pequenos painéis solares, instalados no tejadilho e na traseira, capazes de produzir até 370 W. A energia não é enviada diretamente para a bateria de tração: alimenta equipamentos elétricos do automóvel e, nas melhores condições, a Volkswagen estima que possa preservar o equivalente a cerca de 30 quilómetros de autonomia por dia.
1.278 quilómetros fora do laboratório
O teste mais interessante não aconteceu num banco de ensaios.
O Mission Efficiency partiu do centro de desenvolvimento da Volkswagen em Wolfsburgo e seguiu até Viena, passando por Poznan, na Polónia, e Olomouc, na República Checa.
Foram 1.278 quilómetros, alguns percorridos à chuva, a uma velocidade média de 67,72 km/h e com uma velocidade máxima de 138 km/h.
O resultado anunciado foi de 7,51 kWh/100 km.
A Volkswagen realizou também um teste em condições especialmente favoráveis — terreno plano, aproximadamente 68 km/h constantes e ar condicionado desligado — no qual o consumo desceu para 6,48 kWh/100 km. É um valor experimental e não representativo de utilização quotidiana.
Para perceber a diferença, basta olhar para o próprio ID. Polo: a versão de produção apresenta consumos homologados entre aproximadamente 13,3 e 14,7 kWh/100 km, dependendo da configuração.
Não espere vê-lo no concessionário
O Mission Efficiency continua a ser um concept e a Volkswagen não anunciou qualquer intenção de o produzir em série. A própria marca identifica-o oficialmente como um veículo conceptual que não está à venda.
Há também compromissos difíceis de transportar para um automóvel convencional. A configuração é 2+2, os lugares traseiros destinam-se sobretudo a passageiros de menor estatura e não existe sequer um grande ecrã multimédia ou um sistema de som convencional: smartphone ou tablet fazem de interface e uma coluna Bluetooth substitui os altifalantes integrados.
Mas talvez nem seja esse o objetivo.
O Mission Efficiency funciona sobretudo como laboratório para demonstrar quanto ainda pode ser ganho antes de recorrer à solução mais óbvia — colocar mais células, aumentar o peso e instalar uma bateria maior.
E essa experiência torna-se particularmente interessante porque algumas das peças que permitiram fazer estes 1.278 quilómetros já não pertencem apenas a um protótipo. Estão a chegar à estrada no ID. Polo.






