Olhar para os pneus, confirmar que ainda têm desenho e seguir viagem. Para muitos condutores, a avaliação termina aqui.
Mas um pneu pode parecer perfeitamente utilizável e já não estar nas melhores condições para continuar na estrada. A profundidade dos sulcos é apenas um dos elementos a observar: idade, fissuras, deformações, desgaste irregular e até a forma como o automóvel se comporta podem revelar problemas que uma rápida inspeção visual não mostra.
E há uma diferença importante entre duas perguntas que parecem iguais: quando é legalmente obrigatório substituir um pneu e quando começa a fazer sentido pensar na sua substituição?
1,6 milímetros: o número que deve conhecer
Comecemos pela regra mais objetiva.
Em Portugal, os pneus dos automóveis devem apresentar um relevo do piso de pelo menos 1,6 milímetros, segundo o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT). Atingido o limite de desgaste, o pneu tem de ser substituído.
Não precisa necessariamente de andar com uma régua junto ao carro. Os pneus possuem indicadores de desgaste no interior das ranhuras principais. Quando a superfície da banda de rolamento fica ao nível desses indicadores, chegou ao limite.
Mas há aqui uma distinção importante: 1,6 milímetros é um limite legal, não significa que um pneu imediatamente acima desse valor tenha o mesmo comportamento de um pneu novo.
Em piso molhado, à medida que a profundidade dos sulcos diminui, a capacidade de evacuar água também fica condicionada e aumenta o risco de aquaplanagem. A Continental salienta igualmente que o desempenho da travagem em piso molhado vai diminuindo progressivamente à medida que o pneu se desgasta.
O pneu quase não rodou. Pode estar velho na mesma?
Pode.
Os pneus não envelhecem apenas quando acumulam quilómetros. O tempo também conta, mesmo num automóvel utilizado esporadicamente.
É aqui que entra uma sequência de números que provavelmente já viu escrita na lateral do pneu.
Junto à marcação “DOT” encontra-se a informação que permite identificar quando foi fabricado. Nos pneus atuais, os últimos quatro algarismos da marcação da data indicam a semana e o ano de produção.
Um pneu marcado com “2725”, por exemplo, foi produzido na 27.ª semana de 2025.
E isto pode revelar algumas surpresas em automóveis que percorrem poucos quilómetros por ano.
Não existe, porém, uma regra universal segundo a qual todos os pneus têm obrigatoriamente de ser substituídos ao fim de cinco ou seis anos, independentemente do seu estado.
Michelin e Continental recomendam que pneus com dez anos desde a data de fabrico sejam retirados de serviço, mesmo quando parecem estar em boas condições e ainda apresentam profundidade superior ao mínimo legal. As recomendações específicas do fabricante do automóvel devem igualmente ser respeitadas.
Fissuras, bolhas e cortes: há sinais que os 1,6 mm não mostram
É precisamente por isso que olhar apenas para os sulcos não chega.
Fissuras ou cortes visíveis, bolhas e deformações no flanco, partes do pneu separadas ou outros danos podem justificar uma avaliação profissional independentemente da quantidade de borracha que ainda resta na banda de rolamento.
Uma bolha no flanco, por exemplo, não deve ser encarada como uma simples imperfeição estética.
Também merece atenção um pneu que esteja muito mais gasto numa zona do que noutra.
O desgaste irregular pode estar relacionado com pressão incorreta, alinhamento, equilibragem ou problemas na suspensão. Um desgaste excessivo no centro da banda de rolamento pode estar associado a pressão demasiado elevada; desgaste nos dois ombros pode indicar pressão insuficiente.
Ou seja: trocar o pneu pode resolver a consequência sem resolver a causa.
Vibrações também podem estar a tentar dizer-lhe alguma coisa
Nem todos os avisos estão visíveis.
Vibrações ou ruídos anormais durante a condução justificam uma inspeção aos pneus e às rodas, sobretudo quando surgem sem explicação aparente.
Podem existir várias causas e nem todas significam que o pneu tenha necessariamente de ser substituído, mas ignorar uma alteração no comportamento do automóvel não é uma boa estratégia.
Da mesma forma, a pressão deve ser verificada regularmente e respeitar os valores definidos pelo fabricante do veículo. Circular sistematicamente com pressão incorreta não afeta apenas o comportamento do carro: pode provocar desgaste anormal e reduzir a vida útil dos pneus.
Vai trocar apenas dois pneus? Há uma resposta que surpreende muitos condutores
Imagine agora que os pneus dianteiros chegaram ao fim da vida, mas os traseiros ainda estão em boas condições.
Compra dois pneus novos. Onde devem ser colocados?
A resposta intuitiva de muitos condutores será à frente, sobretudo num automóvel de tração dianteira.
A recomendação geral da Michelin é precisamente a contrária: quando são substituídos apenas dois pneus, os novos — ou os que apresentam menor desgaste — devem ser instalados no eixo traseiro, desde que não exista uma indicação específica diferente para o veículo.
A explicação está na estabilidade.
Uma maior profundidade dos sulcos no eixo traseiro favorece a aderência e a evacuação da água nessa zona do automóvel, ajudando a reduzir o risco de sobreviragem e de perda de estabilidade em piso molhado. A recomendação aplica-se tanto a veículos de tração dianteira como traseira quando utilizam pneus das mesmas dimensões nos dois eixos.
É uma daquelas situações em que aquilo que parece mais lógico à primeira vista não corresponde necessariamente à opção mais segura.
“O carro passou na inspeção, portanto os pneus estão bons”
Também aqui convém distinguir duas coisas.
Entre os elementos verificados na inspeção periódica está o cumprimento da profundidade mínima de 1,6 milímetros.
Mas passar na inspeção não transforma automaticamente um pneu numa garantia de desempenho ideal durante os meses seguintes.
Entre duas inspeções podem aparecer danos, alterar-se a pressão ou desenvolver-se desgaste irregular. E um pneu que esteja legalmente acima dos 1,6 milímetros continua sujeito à degradação progressiva do comportamento em piso molhado à medida que se aproxima desse limite.
Então, quando deve realmente trocar os pneus?
Não há um número de quilómetros que sirva para todos.
Um pneu pode durar mais ou menos em função do automóvel, tipo de pneu, estilo de condução, estradas percorridas, carga, pressão, alinhamento, clima e manutenção. Por isso, fabricantes como a Continental não estabelecem um número universal de quilómetros ao fim do qual todos os pneus devam ser substituídos.
Há, em vez disso, vários sinais que devem ser lidos em conjunto.
Se chegou aos 1,6 milímetros, atingiu o limite legal. Se apresenta cortes, fissuras, bolhas, deformações ou desgaste anormal, deve ser avaliado mesmo que ainda esteja longe desse valor. Se tem vários anos, vale a pena verificar a data de fabrico e acompanhar o seu estado com maior atenção. E, aos dez anos, Michelin e Continental recomendam a substituição independentemente da aparência exterior.
No fundo, aquele rápido olhar antes de uma viagem continua a ser útil.
Só não deve terminar com a pergunta “ainda tem desenho?”.
Porque um pneu pode responder que sim e, mesmo assim, estar a dar vários outros sinais de que chegou a altura de pensar na sua substituição.






