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Oito gigantes juntam-se para pôr camiões a hidrogénio nas estradas europeias: Alemanha será o primeiro teste

Francisco Laranjeira

Bosch, Daimler Truck, Volvo Group, Toyota Motor Corporation, Air Liquide, TotalEnergies, TEAL Mobility e MB Energy apresentaram na IAA Transportation um roteiro conjunto para desenvolver toda a cadeia necessária à expansão dos veículos movidos a hidrogénio na Europa

O hidrogénio ainda está longe de ter conquistado as estradas europeias, mas alguns dos maiores grupos mundiais dos setores automóvel, tecnológico e energético querem acelerar a sua utilização onde acreditam que poderá fazer maior diferença: nos camiões pesados.

Bosch, Daimler Truck, Volvo Group, Toyota Motor Corporation, Air Liquide, TotalEnergies, TEAL Mobility e MB Energy apresentaram na IAA Transportation um roteiro conjunto para desenvolver toda a cadeia necessária à expansão dos veículos movidos a hidrogénio na Europa.

A ideia não passa apenas por colocar mais camiões nas estradas. É necessário garantir simultaneamente veículos, produção e distribuição de hidrogénio e postos capazes de abastecer grandes frotas — e tornar tudo isso economicamente competitivo com o diesel.

Segundo os parceiros, a Alemanha será o primeiro grande teste europeu deste modelo, com o objetivo de reunir as condições para uma implementação em larga escala de camiões a hidrogénio até 2030.

Por que razão apostar no hidrogénio se os elétricos estão a crescer?

As empresas não apresentam o hidrogénio como substituto da mobilidade elétrica a bateria, mas como complemento.

A aposta concentra-se sobretudo no transporte pesado de longa distância, onde fatores como autonomia, capacidade de carga, rapidez de abastecimento e flexibilidade operacional podem tornar mais difícil a utilização exclusiva de grandes baterias.

É neste segmento que os vários parceiros querem demonstrar a viabilidade da tecnologia.

A Bosch fornecerá componentes destinados a veículos alimentados por hidrogénio gasoso e novas soluções para abastecimento de hidrogénio gasoso e líquido. Segundo a empresa, a tecnologia que desenvolveu já acumula mais de 30 milhões de quilómetros de experiência em circulação.

Daimler prepara 100 camiões e Volvo aponta para 2030

A Daimler Truck diz ter já acumulado cerca de 600 mil quilómetros de utilização em condições reais com camiões equipados com pilha de combustível.

O próximo passo será colocar, a partir do final deste ano, uma primeira série de 100 camiões de pilha de combustível de nova geração nas operações de clientes.

Mas a estratégia da empresa não fica pela pilha de combustível.

A Daimler Truck prepara também para o próximo ano a comercialização dos primeiros camiões equipados com motores de combustão alimentados a hidrogénio e prevê investir várias centenas de milhões de euros nesta tecnologia até ao final da década.

O Volvo Group segue igualmente as duas vias. O grupo está a desenvolver tanto veículos com pilha de combustível como motores de combustão alimentados a hidrogénio, apontando para uma introdução comercial por volta de 2030.

A Toyota entra na parceria sobretudo através da tecnologia, colocando ao serviço do projeto mais de três décadas de experiência no desenvolvimento de sistemas de pilha de combustível.

Postos capazes de abastecer 100 camiões por dia

Construir os veículos resolve apenas metade do problema.

Sem uma rede capaz de os abastecer, dificilmente haverá transportadoras dispostas a trocar grandes frotas a diesel por camiões movidos a hidrogénio.

É aqui que entram Air Liquide, TotalEnergies, MB Energy e TEAL Mobility — esta última detida em partes iguais pela TotalEnergies e pela Air Liquide.

O objetivo passa por desenvolver as cadeias de abastecimento de hidrogénio gasoso e líquido e criar estações de grande capacidade.

Segundo o plano apresentado, cada uma destas estações deverá conseguir abastecer até 100 camiões por dia.

As empresas contam também com o crescimento da produção europeia de hidrogénio renovável associado à implementação da diretiva RED III.

O verdadeiro adversário continua a ser o diesel

Há, porém, uma condição essencial para que tudo isto saia dos projetos-piloto e chegue às grandes frotas: as contas têm de fazer sentido.

Os parceiros identificam três alavancas para tornar o custo operacional competitivo com o diesel.

A primeira passa por reduzir o preço dos próprios camiões através de incentivos e das economias de escala proporcionadas pela produção em série.

A segunda é baixar o custo do hidrogénio através de uma cadeia de abastecimento mais eficiente e de mecanismos regulatórios ligados à redução das emissões.

A terceira passa por benefícios operacionais para as transportadoras, incluindo medidas como a isenção de portagens para veículos de emissões zero.

800 camiões mostram que há interessados

Segundo as empresas envolvidas, há já sinais de procura na Alemanha.

As candidaturas apresentadas recentemente no âmbito do programa alemão de financiamento NOW incluíram propostas para mais de 70 postos de abastecimento de grande capacidade e cerca de 800 camiões pesados.

Para os parceiros, estes números mostram que existe interesse do setor logístico, desde que seja possível criar simultaneamente veículos, combustível, infraestrutura e condições económicas para os operar.

A Alemanha é apenas o princípio

O objetivo final é utilizar o modelo alemão como ponto de partida para uma rede muito mais ampla.

As oito empresas defendem que a expansão para o resto da Europa exigirá coordenação entre governos nacionais e Comissão Europeia, nomeadamente para que veículos e postos de abastecimento sejam implementados em simultâneo.

Pedem ainda incentivos harmonizados, mecanismos associados aos combustíveis renováveis e instrumentos capazes de reduzir o risco dos investimentos necessários desde a produção e liquefação do hidrogénio até à distribuição e utilização pelos transportadores.

A aposta é ambiciosa porque exige que várias peças avancem ao mesmo tempo.

Não basta construir o camião a hidrogénio. É preciso produzir o combustível, levá-lo até às principais rotas europeias, construir postos capazes de abastecer grandes frotas e, no final, convencer uma transportadora de que fazer tudo isto lhe custa tanto ou menos do que continuar a abastecer um camião a diesel.

É precisamente essa cadeia que Bosch, Daimler Truck, Volvo, Toyota e os restantes parceiros querem agora tentar construir.