Durante anos, o carro de empresa foi visto sobretudo como um ativo, uma ferramenta de trabalho ou um benefício para colaboradores. Hoje, num contexto de custos mais imprevisíveis, transição elétrica, novas regras ambientais e maior pressão sobre a eficiência, a pergunta mudou. Mais do que saber se querem ter carros, muitas empresas querem saber quanto vão gastar, como podem adaptar a frota e que riscos conseguem evitar.
É neste ponto que o renting tem vindo a ganhar espaço em Portugal. Em entrevista à ‘Executive Digest’, Gonçalo Proença, branch manager da Athlon Portugal, defende que o modelo deixou de ser apenas uma solução financeira e passou a funcionar como uma ferramenta de gestão perante a incerteza.
“O renting automóvel é uma ferramenta essencial de gestão num contexto empresarial cada vez mais marcado pela incerteza”, afirma o responsável, apontando desafios que vão da evolução económica ao aumento dos custos operacionais, passando pelas mudanças regulatórias, pela transição para a mobilidade elétrica e pelos avanços tecnológicos nos veículos.
O que mudou nas empresas
A mudança é tanto financeira como estratégica. Durante muito tempo, a posse de veículos era encarada como uma vantagem ou como parte natural da operação. Mas, para muitas empresas, a propriedade deixou de ser o ponto central da decisão.
“Aquilo que constatamos é que as empresas procuram previsibilidade, flexibilidade e controlo sobre os seus custos operacionais”, explica Gonçalo Proença.
Na prática, o renting permite transformar custos variáveis numa despesa previsível, reduzir o investimento inicial e simplificar a gestão da frota. Manutenção, seguros, assistência, documentação e gestão de ocorrências passam a estar integrados numa solução que liberta recursos internos e reduz a carga administrativa.
“As empresas querem saber exatamente quanto vão gastar, evitar surpresas relacionadas com a manutenção, os seguros ou a depreciação, e garantir que a sua frota responde às necessidades reais da sua atividade”, sublinha o branch manager da Athlon Portugal.
Num ambiente em que cada decisão de investimento é mais ponderada, esta previsibilidade tornou-se um argumento forte. As empresas querem evitar surpresas com avarias, depreciação, manutenção ou alterações tecnológicas rápidas. Querem também garantir que a frota acompanha as necessidades reais da operação, sem ficarem presas a ativos durante longos períodos.
O carro de empresa já não é apenas um benefício
A transformação também se sente no papel do próprio automóvel dentro das organizações. Segundo Gonçalo Proença, o carro de empresa deixou de ser apenas um benefício ou uma ferramenta de trabalho para assumir uma função mais estratégica.
“Hoje em dia, o veículo reflete a visão da empresa em temas como a sustentabilidade, a eficiência, a tecnologia e a experiência do colaborador”, afirma.
A crescente adoção de veículos eletrificados, os modelos de mobilidade mais flexíveis e a digitalização da gestão de frotas estão a alterar a forma como as organizações olham para os seus veículos.
O trabalho híbrido, as equipas descentralizadas e os padrões de deslocação mais variados também obrigam a repensar a frota. Já não basta ter carros disponíveis. É preciso perceber quem os usa, quando são usados, que custos geram e se continuam adequados à função.
“Hoje é possível monitorizar consumos, otimizar rotas, antecipar manutenções e gerir a mobilidade em tempo real”, acrescenta Gonçalo Proença, defendendo que os veículos se tornaram “uma fonte valiosa de dados e eficiência para o negócio”.
Portugal e a pressão da eletrificação
Em Portugal, a eletrificação das frotas empresariais está a acelerar. Dados recentes do setor apontam para uma presença crescente de viaturas eletrificadas nas empresas portuguesas e para uma atenção cada vez maior à instalação de pontos de carregamento nas próprias instalações.
Esse contexto ajuda a explicar porque o renting se tornou uma opção mais relevante. A transição elétrica cria oportunidades, mas também dúvidas. O custo dos veículos, a autonomia, a rede de carregamento, a fiscalidade, a evolução tecnológica e a familiaridade dos utilizadores com os elétricos tornam a decisão mais complexa.
“A eletrificação está a ter um duplo impacto no mercado do renting. Por um lado, está a acelerar a procura: muitas empresas querem antecipar-se às exigências ambientais e regulatórias, reduzir emissões e projetar uma imagem mais sustentável incorporando veículos elétricos nas suas frotas”, afirma.
Mas há outro lado da equação. “A transição para a mobilidade elétrica também coloca desafios que tornam a decisão mais complexa”, reconhece Gonçalo Proença, apontando fatores como o custo ainda elevado dos veículos elétricos, a autonomia, a infraestrutura de carregamento e o grau de familiaridade com a tecnologia.
Para muitas empresas, o renting funciona como forma de reduzir o risco desta transição. Permite testar veículos elétricos, adaptar a frota à evolução tecnológica e evitar compromissos demasiado longos numa fase em que o mercado continua a mudar rapidamente.
“O renting está a consolidar-se como uma ferramenta-chave para facilitar e acompanhar o processo de eletrificação da mobilidade empresarial”, defende o responsável da Athlon Portugal.
Os erros que ainda pesam na gestão das frotas
Apesar da evolução do mercado, continuam a existir erros frequentes na gestão de frotas em Portugal. O primeiro, segundo a Athlon, é olhar para a frota apenas como um custo e não como uma área estratégica da operação.
“Um dos erros mais frequentes continua a ser encarar a frota apenas como um custo e não como uma área estratégica da operação”, afirma Gonçalo Proença. “Quando isto acontece, muitas decisões são tomadas de forma reativa, sem um planeamento estruturado nem baseadas em dados concretos.”
Há empresas com veículos que já não se ajustam às necessidades reais, frotas sobredimensionadas ou contratos que deixaram de acompanhar a evolução do negócio. Outro problema passa pela falta de indicadores.
“Continuamos a encontrar empresas com veículos que não se ajustam às necessidades reais, frotas sobredimensionadas ou contratos que já não acompanham a evolução do negócio”, explica.
Sem acompanhar o custo por quilómetro, o tempo de inatividade, os consumos ou os padrões de utilização, torna-se mais difícil perceber se a frota está bem dimensionada ou se está a gerar desperdício.
Adiar a renovação dos veículos ou a manutenção preventiva é outro erro recorrente. “Embora possa parecer uma poupança a curto prazo, esta estratégia traduz-se normalmente em maiores custos operacionais, mais avarias e um impacto negativo na produtividade”, alerta Gonçalo Proença.
Há ainda uma dimensão administrativa que muitas empresas subestimam. A gestão de seguros, manutenção, documentação, assistência e ocorrências consome tempo e recursos que poderiam estar concentrados na atividade principal da empresa.
O impacto para empresas e colaboradores
A evolução do renting não afeta apenas os departamentos financeiros ou os gestores de frota. Também tem impacto na experiência dos colaboradores e na forma como a mobilidade é integrada no dia a dia das organizações.
Uma frota mais ajustada pode reduzir tempos de paragem, melhorar a previsibilidade das deslocações e facilitar a adaptação a novas formas de trabalho. Nos casos em que entram veículos eletrificados, pode também ajudar as empresas a cumprir metas ambientais e a reforçar a imagem de sustentabilidade.
Mas esta transição exige planeamento. A eletrificação não depende apenas da escolha dos veículos. Depende também da infraestrutura de carregamento, dos percursos habituais, da utilização diária, da formação dos condutores e da capacidade de gerir custos energéticos.
“Cada vez mais, os clientes valorizam a proximidade, o aconselhamento personalizado e a capacidade de adaptação às suas necessidades reais”, sublinha Gonçalo Proença. As empresas procuram, diz, um parceiro “que compreenda o seu negócio e proponha soluções à medida”.
A escala internacional e a adaptação local
A Athlon gere cerca de 400 mil veículos na Europa e está presente em Portugal desde 2010. Para Gonçalo Proença, esta dimensão internacional permite combinar experiência global com adaptação ao mercado português.
“A dimensão internacional da Athlon permite-nos oferecer uma combinação muito valiosa: experiência global com capacidade de adaptação local”, afirma.
A escala, explica, permite beneficiar de economias que podem traduzir-se em condições mais competitivas para os clientes em Portugal. Também ajuda a antecipar tendências, identificar boas práticas e adaptar soluções às necessidades específicas de cada mercado.
“Esta dimensão internacional reforça a nossa capacidade de investimento em tecnologia, inovação e sustentabilidade, aspetos fundamentais num momento de grande transformação para o setor da mobilidade”, acrescenta.
Ainda assim, o responsável sublinha que Portugal tem características próprias, tanto ao nível do tecido empresarial como da fiscalidade e das necessidades de mobilidade. Por isso, a resposta não pode ser importada de forma automática de outros mercados.
“Temos consciência de que o mercado português tem características próprias”, afirma Gonçalo Proença. “Por isso damos muita importância a uma relação próxima, personalizada e ajustada à realidade de cada cliente.”
O que esperar de 2026
Em 2026, a mobilidade empresarial deverá continuar marcada por eletrificação, digitalização e procura de flexibilidade. As empresas deverão manter uma abordagem prudente ao investimento, tentando controlar custos sem perder capacidade de adaptação.
“Podemos esperar uma crescente eletrificação das frotas, impulsionada tanto por políticas ambientais mais exigentes como pela procura de soluções mais sustentáveis e eficientes por parte das empresas”, antecipa Gonçalo Proença.
A gestão em tempo real das frotas, a análise de dados e a integração de tecnologias inteligentes deverão ganhar mais peso. Ao mesmo tempo, a transição energética continuará a pressionar decisões sobre veículos, carregamento e modelos de utilização.
“Outro fator decisivo será a procura de uma maior flexibilidade e previsibilidade na mobilidade empresarial, com os modelos de renting a manterem o seu crescimento”, defende.
Num contexto económico e geopolítico ainda incerto, a mobilidade empresarial deixou de ser apenas uma questão de carros. Passou a ser uma questão de previsibilidade, eficiência e capacidade de resposta. E é aí que o renting parece estar a encontrar o seu lugar.





