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“Um automóvel que não anda é um absurdo”: no Caramulo Motorfestival, a história não fica parada

Fotos: Caramulo Motorfestival
Francisco Laranjeira

Dos automóveis dos anos 90 que começam a entrar no radar dos museus à ambição de tornar o Motorfestival cada vez mais internacional, Salvador Patrício Gouveia, diretor do Museu do Caramulo, explica à Automonitor por que razão os clássicos foram feitos para andar

Há automóveis que valem milhões de euros. Outros são peças únicas, sobreviventes de uma época que já desapareceu. A solução mais segura seria guardá-los, protegê-los e reduzir ao mínimo os riscos. No Caramulo, a filosofia é praticamente a oposta.

“Um automóvel que não anda é um absurdo.”

A frase é de Salvador Patrício Gouveia, diretor do Museu do Caramulo, em entrevista à Automonitor, a poucos dias da 21.ª edição do Caramulo Motorfestival. E ajuda a explicar um evento onde a história automóvel não se limita a ficar exposta: liga o motor, sai das boxes e sobe a montanha.

“Um automóvel que não anda começa a morrer”

A discussão é antiga entre colecionadores. Deve um automóvel raríssimo, único ou avaliado em milhões continuar a ser conduzido, aceitando os riscos que isso implica, ou deve ser preservado praticamente como uma obra de arte?

No Caramulo não há dúvidas sobre a resposta.

“Eu estou claramente do segundo lado. Como dizia João de Lacerda, o fundador da coleção de automóveis do Museu do Caramulo, um automóvel que não anda é um absurdo”, afirma Salvador Patrício Gouveia.

A diferença, explica, está na própria natureza da máquina.

“Um automóvel foi feito para andar e, ao contrário de uma obra de arte estática, que cumpre com a sua função de forma estática, um automóvel ganha toda a sua magia e toda a sua máxima plenitude em movimento.”

E descreve-a quase através dos sentidos.

“Um automóvel é um objeto dinâmico. Vira, anda, faz barulho, corta o vento, mistura-se com os elementos. Tudo isso é que faz o automóvel atingir o seu pico. É muito mais bonito ver um automóvel em movimento, senti-lo, ouvi-lo, vê-lo passar ou conduzi-lo do que um automóvel estático.”

Há também uma questão de conservação. Tal como acontece com o corpo humano depois de um longo período de imobilidade, argumenta, também as máquinas precisam de movimento e as peças têm de trabalhar.

“Um automóvel que não anda é um automóvel que começa a morrer. (…) Estamos completamente a favor de os automóveis, por mais valor que tenham, serem utilizados. Essa sempre foi a génese por trás da coleção: todos os automóveis a andarem.”

A filosofia não fica à porta do museu. Este fim de semana, um dos exemplos estará na Rampa: o Copersucar-Fittipaldi FD03 de 1975, Fórmula 1 equipado com um motor Ford Cosworth DFV V8 e conduzido pelos Fittipaldi, será pilotado por Tiago Monteiro.

A passagem pela Rampa dura apenas alguns minutos, mas Salvador Patrício Gouveia sublinha que a experiência começa muito antes.

“Há todo o antes e todo o depois, em que esse automóvel chega, está nas boxes, prepara-se, está na pré-grelha. Há toda uma vivência e uma convivência com o automóvel que torna isto muito especial.”

E apesar do valor de algumas destas máquinas, convencer os proprietários não parece ser o principal obstáculo. “É raro levarmos o não”, garante. Quando acontece, diz, tende a dever-se ao facto de o automóvel não estar em condições de circular, e não à falta de vontade do proprietário em partilhá-lo.

O carro que estava no póster do quarto

Também aquilo a que chamamos um automóvel clássico está a mudar.

“O gosto pelos clássicos, como qualquer outro tipo de peças de coleção, também evolui conforme a geração e acompanha sempre a geração.”

Quem hoje está na casa dos 30, 40 ou 50 anos começa a procurar precisamente as máquinas com que sonhava quando era mais novo.

“Gostamos sempre de dar o exemplo do carro que estava no póster, no quarto. São esses automóveis agora que estão a ser mais valorizados e que esta geração ambiciona ter na sua garagem.”

A mudança já chegou ao próprio Museu do Caramulo.

“Começamos agora a olhar para automóveis, se calhar, dos anos 90, que era uma coisa que há 30 anos era impensável.”

A história da coleção ajuda a colocar esta evolução em perspetiva. O Museu do Caramulo começou a sua coleção com um Ford T de 1925, comprado em 1955. Hoje é um automóvel centenário; quando foi adquirido, tinha apenas 30 anos.

“Era um carro antigo”, recorda Salvador Patrício Gouveia.

Alguns dos automóveis que hoje ainda parecem demasiado recentes para estar num museu podem, portanto, estar precisamente na posição em que aquele Ford T estava em 1955.

Há ainda outra mudança geracional. Os jovens que agora descobrem estas máquinas cresceram num mundo muito diferente e contactam cada vez mais cedo com a eletrificação. O diretor do Museu do Caramulo olha para essa transformação como mais um capítulo de uma história que sempre foi feita de mudanças.

“Se hoje em dia a minha geração sente a falta do barulho nos automóveis elétricos, a verdade é que se calhar a geração acima da minha sentia falta do fumo a sair do escape, que é uma coisa que se calhar a minha geração já não sente.”

É também aí que vê uma função para o Motorfestival: mostrar a quem já não cresceu com estas máquinas como funciona um motor de combustão, a mecânica, o ruído, a competição e uma época em que os automóveis podiam ser também “obras de arte sobre rodas”.

O objetivo é despertar o gosto suficiente para que esta nova geração possa tornar-se, nas palavras de Salvador Patrício Gouveia, nos “próximos cuidadores deste tipo de carros”.

Mais de 50 mil. E agora?

O próprio Motorfestival chegou entretanto a uma nova fase. Em 2025 ultrapassou pela primeira vez os 50 mil visitantes e este ano já superou os 100 mil, aponta o diretor do museu, nomeadamente pelo “efeito Fórmula 1” e pela exposição Fórmula Mágica, patente no Museu do Caramulo.

Mas aumentar o número de visitantes deixou de ser a principal medida de sucesso.

“Passadas duas décadas, o foco desta organização do festival já não é tentar trazer ainda mais pessoas.”

A prioridade passou para a experiência de quem chega: dos acessos e transportes à restauração, segurança e própria programação.

“Queremos que, acima de tudo, mais do que um festival com muita gente, seja um grande festival na perspetiva do utilizador.”

Se o próximo salto já não passa simplesmente por colocar mais pessoas na montanha, passa por levar o Caramulo mais longe.

“O Motorfestival agora, mais do que nunca, quer afirmar-se como um evento internacional.”

Isso significa aumentar a notoriedade além-fronteiras e atrair mais pilotos e automóveis estrangeiros.

“Tem que ganhar asas.”

Há também um desafio pessoal que Salvador Patrício Gouveia admite continuar a procurar ao fim de 21 edições: surpreender quando tanta coisa já passou pelo Caramulo.

“A nível pessoal, é um bocadinho esse o drive, o desafio que mais gozo me dá: trazer aquela coisa que ainda não apareceu, que ainda não surgiu, que ainda ninguém viu ou que ninguém sabe, trazer sempre esse efeito ‘uau’.”

Este ano, um dos grandes focos está na exposição Fórmula Mágica, com o Lotus Renault 97T de Ayrton Senna, além das máquinas que se estreiam na Rampa. Mas a ambição vai além de uma edição.

“Apresentar em primeiro lugar aquelas coisas que ainda ninguém viu em Portugal, apresentar automóveis que ninguém viu ou nunca viu. Sermos os primeiros a trazer aquelas coisas especiais e marcantes.”

Uma montanha e uma “abertura espiritual”

Quando se pergunta onde está, afinal, a magia do Caramulo Motorfestival, a resposta de Salvador Patrício Gouveia não começa nos automóveis mais caros, na Fórmula 1 ou sequer na velocidade.

Aponta três razões.

A primeira é a proximidade. À exceção da entrada no Museu do Caramulo, o festival é de acesso gratuito e permite ao público aproximar-se dos automóveis, estar junto dos paddocks e falar com os pilotos.

“Não há redes, não há barreiras separadoras.”

A segunda é a diversidade. Segundo Salvador Patrício Gouveia, o evento reúne cerca de 1.700 veículos, dos clássicos e supercarros às motos, veículos militares, bicicletas e até aviões.

“Se há alguma coisa de que o público goste, ela está cá, por mais variado e rebuscado que seja esse interesse.”

E depois há a terceira razão.

A montanha.

O Caramulo não é um festival instalado no centro de uma grande cidade. É preciso chegar até lá. E, para Salvador Patrício Gouveia, esse caminho já faz parte da experiência.

“Pelo contexto natural da montanha, a montanha mágica, pela vista que tem cá em cima, pelo facto de ser um evento a que se tem que chegar, não é um evento que está numa cidade… há quase que uma preparação no caminho para cá, uma abertura espiritual para aquilo que se vai receber durante o dia todo.”

Talvez seja essa a melhor explicação para um festival onde até a história se recusa a ficar parada.