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Salão Automóvel de Pequim 2026. O motor já não manda: o carro do futuro decide, aprende e até pensa por si

Jorge Farromba

Jorge Farromba explica as novidades que o salão automóvel na capital chinesa apresentou

O salão automóvel de Pequim consolidou uma mudança de paradigma enorme. Não participei no salão mas acompanhei com atenção todos os press releases lançados pela organização.

Aquilo que observei foi que o foco deixou de ser o motor e o design para passar a ser o veículo definido por software, assim como, a integração massiva de inteligência artificial.

Passámos a ver LLM a bordo onde a inteligência artificial deixou de executar apenas comandos de voz e passar a entender o contexto. Isto é uma alteração profunda. Vimos isso na XPENG e na BYD que transformaram o automóvel num assistente pessoal capaz de antecipar necessidades; desde sugerir rotas baseadas nos hábitos do utilizador até gerir reuniões de vídeo de forma autónoma.

Verificou-se também a existência de chips únicos, cujo avanço permite gerir tanto o sistema de infotainment quanto as funções de condução do automóvel! Tal provoca uma redução da complexidade do hardware e um consumo de energia bastante melhor.

Um exemplo disso é o Navigation AI Pilot que deixa de depender de mapas de alta resolução e aposta forte em sensores lidar e câmaras para garantir uma visão 360° focada na segurança, apresentando soluções fluidas, mesmo onde existem ambientes urbanos densos.

A Huawei, por exemplo, utiliza redes neurais que aprendem a conduzir observando milhões de horas de vídeo, resultando por isso numa condição mais humana e menos robótica.

As baterias neste salão foram também tema, pois já ninguém fala da autonomia, sendo agora o foco a velocidade de carregamento. A CATL, por exemplo, apresentou uma bateria capaz de recuperar 600 km em 10 minutos enquanto a Nio exibiu uma bateria semisólida que, quando implementada, permite uma autonomia superior a 1000 km.

Quando começamos a olhar para as arquiteturas de 800V surgem já as de 900 permitindo carregamentos tão rápidos, com tempos de paragem de um abastecimento a gasolina.

Hoje a tecnologia controla fisicamente o movimento do automóvel;: vemos isso na suspensão preventiva da NIO que usa câmaras e sensores para fazer o scanner do asfalto e ajustar-se individualmente para cada buraco.

Surgem os veículos com quatro motores independentes, por exemplo a BYD que demonstra a capacidade de girar 360° no próprio eixo ou de estacionar, andando de lado, e tudo controlado por algoritmos.

Hoje o automóvel deixou de ser apenas um consumidor, para ser um fornecedor de energia, onde os sistemas atuais permitem injetar eletricidade na rede da cidade ou na casa do proprietário, quando para isso for adequado.

Neste momento o computador sobre rodas que é o automóvel é uma realidade comercial.

Falamos de inteligência artificial tradicional e generativa mas já começa a aparecer o conceito de inteligência artificial de próxima geração frequentemente associado a arquiteturas avançadas de computação, algumas ainda em fase experimental.

Projeta-se já para 2030 a utilização de chips ainda mais potentes para que o automóvel tenha uma consciência situacional total.

Vamos ter modelos de linguagem que processam vídeo em tempo real e entendem cenas complexas como um polícia de trânsito a fazer sinais com a mão! Ou o conceito dos robotáxis com plataformas sem volante e sem pedais, desenhadas do zero onde o custo por quilómetro promete ser inferior ao do transporte público.

Neste salão surge também o conceito do chassis digital onde antigamente a bateria fazia parte da estrutura passiva do carro e agora evoluiu para um chassis inteligente que integra todos: suspensões e travões num único módulo digital, conseguindo na melhor das hipóteses, uma redução de peso até 25% e um aumento substancial do espaço interior.

Projeta-se para 2030 um carro que deixa de ser apenas um mero elemento de transporte para ser uma extensão da sala de estar ou do nosso escritório.

Também os faróis e para-brisas vão utilizar a projeção laser para transformar cada superfície externa numa tela de cinema ou projetar ecrãs de navegação diretamente no asfalto. Veja-se o caso da XPENG e da Xiaomi.

E, num futuro próximo o nosso carro vai comunicar com os robôs humanoides da nossa casa, para garantir que as compras que trazemos na bagageira sejam descarregadas e guardadas automaticamente.

A China vai introduzir um registador de dados que vai guardar todos os dados dos sensores para a reconstrução de acidentes que vai ser essencial para determinar a responsabilidade legal num acidente, mas também uma nova regulamentação que exige que o automóvel seja capaz de encostar de forma segura em caso de falha do sistema.

Hoje o domínio do automóvel já não se mede pelo binário do motor mas pela capacidade de processamento e pela química das baterias .

Ficou evidente que a tecnologia dos motores integrados no cubo da roda, tal como já tinha mostrado nas minhas aulas e no podcast que fiz com a Elaphe, são a próxima evolução , em vez de um motor central que envia força através dos eixos de transmissão, cada roda passa gerir-se a si própria com um motor e, portanto, passa a ser independente. No fundo é o computador que decide em milissegundos se a roda dianteira esquerda  roda 10° e a traseira direita 20. Isto elimina completamente a necessidade de diferenciais mecânicos, libertando espaço para baterias, para o habitáculo (a frente do automóvel passa a ser um espaço vazio o que pode redefinir o design de um automóvel e também alterar a estrutura de segurança).

Também, já visto na Peugeot e agora na Mercedes, do desaparecimento da coluna de direção mecânica, substituída por impulsos elétricos lo que permite rodar o volante apenas 85° para cada lado, para permitir uma volta completa da direção.

E esta relação da direção variável em que basta um toque para girar totalmente em ambiente urbano e em autoestrada se torna mais rígida e menos sensível já não é o futuro, é a realidade. Tal vai revolucionar a forma como entendemos o automóvel e conduzimos (O que vale é que o meu velhinho Mercedes 190 ainda está ali para me lembrar de onde viemos e para onde vamos – bolas, já começo a estar velhote…).

Vimos também curiosidades que tentam desafiar as leis da física, em que antes de um acidente acontecer o sistema age, com sistemas de airbags no exterior da viatura para impactos frontais e laterais, com sensores que inflamam os airbags antes da colisão ocorrer, ou então, elevam a zona de deformação para permitir, com a suspensão ativa se elevepara que o embate se dê na zona mais forte do automóvel.

Novamente, isto não é futuro, é a realidade!

O mercado chinês trouxe também tanta conectividade que o carro vai comunicar com a infraestrutura urbana antecipando, por exemplo, a abertura dos semáforos e ajustando a velocidade para evitar que paremos nos mesmos.

Prevê-se um futuro de desvalorização do hardware e a tendência clara de que o lucro das marcas passa a vir da subscrição de software e de melhorias de performance via OTA!

Destaque talvez para os Break by Wire, travões com forte componente eletrónica, reduzindo a dependência do fluido hidráulico tradicional e permitindo uma resposta mais rápida e precisa.

Também os materiais estão a mudar; pela leitura atenta que fiz,  surgiram startups em Pequim que já tratam o automóvel como “um ser biológico”; mostraram as primeiras baterias de status sólido e semissólido prontas para entrar em produção resolvendo os problemas de estabilidade térmica que o lítio ainda possui.

A líder dos drones DJI marcou pontos com sistemas de visão computacionais de baixo custo que dispensam o LIDAR usando uma visão estéreo de alta precisão semelhante aos olhos humanos.

Outra startup suíça com forte presença em Pequim pretendia substituir a fibra de carbono por fibras naturais de linho que são 75% mais sustentáveis e não estilhaçam em caso de acidente e já utilizadas por exemplo pela Volvo nos painéis interiores e elementos estruturais.

Nesta busca pela descarbonização já encontramos cockpits feitos de micélio que basicamente são cogumelos ou de cascas de uva.

Vimos interiores onde 40% dos polímeros foram substituídos por compósitos de base biológica, 100 por cento recicláveis. O grafeno nas baterias permitiu que marcas com a GAC alcançassem taxas de carregamento até seis vezes mais rápidas evitando o sobreaquecimento e estendendo a vida útil para mais de 1 milhão de quilômetros.

Também ouvimos falar do aço verde fabricado com hidrogénio em vez de carvão e da impressão de grandes secções do chassis em ligas de alumínio, como por exemplo o mega casting da Volvo que eliminam até 300 peças soldadas para apenas duas peças fundidas

Encontramos vidros com nanocristais que bloqueiam 99% do calor dos infravermelhos, reduzindo com isso o esforço do ar-condicionado e aumentando a autonomia até mais 10%.

Surgiram também startups que apresentam tintas com memória de forma, ou seja, pequenos riscos causados por pedras ou chaves desaparecem, quando expostas ao calor do sol, depois da estrutura molecular recuperar o estado original

O automóvel move-se claramente para uma economia circular. As startups que surgiram no salão não estão a tentar vender cavalos de potência mas sim eficiência molecular.

A presença internacional foi marcada por uma mudança de postura onde os gigantes europeus e americanos deixaram de ser apenas os professores mas também alunos e com parceiros estratégicos da tecnologia chinesa.

A Tesla também esteve presente com o seu sistema FSD l para permitir que uma parceria com gigantes locais no processamento de dados do solo chinês permita assim que o seu sistema finalmente entenda as particularidades do mercado chinês.

Por fim, apareceram as empresas israelitas que se consolidaram como fornecedoras de inteligência, presentes em vários carros chineses e europeus com vários tipos de inteligência artificial de baixo consumo que processam redes neurais, até modelos mais baratos e sistemas de cibersegurança contra hackers em tempo real.

Em 2026, a tecnologia e a geopolítica vão andar de mãos dadas. Vemos carros com baterias chinesas, software israelita e chips americanos.

A maior evolução não foi um avanço isolado, mas a interdependência tecnológica total para criar um veículo autónomo definitivo.