Não é bem um barco, não é bem um avião e também não precisa de pista. A chinesa Navee apresentou o WaveFly 5X, uma embarcação pessoal que usa o chamado efeito solo para se deslocar poucos centímetros acima da água. A ‘New Atlas’ descreve-o como uma tentativa de levar para o lazer uma das ideias mais estranhas da engenharia da Guerra Fria.
China just unveiled the NAVEE WaveFly 5X — a flying boat that skims above water at 85 km/h.
Real ground-effect flight for consumers.
via @fernandoybus#WaveFly5X RT! pic.twitter.com/tHWDTDKhsE— Andres Vilariño 🇪🇦 (@andresvilarino) June 15, 2026
O WaveFly 5X é apresentado pela marca como o primeiro veículo de efeito solo pensado para consumidores. Na prática, trata-se de um aparelho de mobilidade aquática e de baixa altitude, concebido para lagos, rios calmos e zonas costeiras protegidas, capaz de transportar uma ou duas pessoas sem funcionar como um barco tradicional nem como um avião convencional.
A tecnologia por trás do conceito é conhecida como wing-in-ground effect, ou WIG. O princípio é simples de explicar, embora tenha uma história longa: quando uma asa se desloca muito perto de uma superfície, como a água, o ar comprimido entre a asa e essa superfície cria uma espécie de almofada aerodinâmica. Essa almofada aumenta a sustentação e reduz o arrasto, permitindo deslocações mais eficientes a baixa altitude.
A ideia não é nova. Durante a Guerra Fria, a União Soviética explorou este conceito nos chamados ekranoplanos, veículos enormes que voavam a poucos metros da superfície do mar. O mais famoso ficou conhecido pelos analistas da CIA como o “Monstro do Mar Cáspio”, depois de ter sido detetado em imagens de satélite nos anos 60. Era uma máquina gigantesca, meio navio, meio avião, difícil de encaixar nas categorias tradicionais.
A diferença é que a Navee quer transformar esse conceito num produto de lazer. O WaveFly 5X troca a escala militar por uma proposta pessoal, pensada para exploração, recreio e deslocações curtas sobre água. Segundo a ‘New Atlas’, a empresa chinesa posiciona o modelo como uma nova forma de mobilidade para quem quer atravessar lagos, rios ou zonas costeiras sem marina, sem pista e sem a complexidade de um avião.
O aparelho recorre a uma estrutura de duas asas em tandem e a uma fuselagem em fibra de carbono de grau aeroespacial. A velocidade máxima anunciada é de 85 km/h e a autonomia pode chegar aos 80 quilómetros. A carga máxima é de 140 quilos, o que permite transportar um utilizador com bagagem ou dois ocupantes dentro dos limites definidos pela marca.
O primeiro voo público do WaveFly 5X realizou-se no lago Dong Taihu, em Suzhou, na China. A Navee, mais conhecida por trotinetes elétricas, bicicletas elétricas, motos off-road elétricas, carrinhos de golfe e outros produtos de mobilidade, está assim a tentar entrar num território mais ambicioso: o da mobilidade pessoal sobre água e a baixa altitude.
A empresa não anunciou ainda um calendário definitivo para uma versão de produção nem explicou qual será o caminho regulatório para colocar um veículo deste tipo no mercado. Essa é uma das grandes incógnitas. Um produto que se desloca sobre água, mas usa princípios de voo, terá inevitavelmente de enfrentar regras de segurança, certificação, operação e responsabilidade.
Também há uma pergunta ambiental e social por responder: o ruído. A ‘New Atlas’ nota que vídeos em circulação sugerem que o WaveFly 5X pode ser ruidoso, algures entre uma mota e um drone militar. Se um aparelho deste tipo chegar a lagos e zonas costeiras em maior escala, o impacto acústico poderá tornar-se um problema para outros utilizadores, residentes e vida selvagem.
Ainda assim, a lógica comercial é evidente. A mobilidade de baixa altitude tornou-se uma das grandes promessas tecnológicas da década, com empresas e governos a olhar para drones, táxis aéreos, veículos elétricos voadores e novas formas de transporte pessoal. A Navee tenta entrar nessa corrida por uma porta diferente: não pelo céu das cidades, mas pela superfície da água.
Lu Jian, presidente da Navee, afirmou que o WaveFly 5X representa “um passo importante” para levar a mobilidade aquática e de baixa altitude ao uso pessoal. A promessa é simples: permitir que mais pessoas se desloquem e explorem com liberdade. A execução, porém, será mais complicada.
O fascínio do WaveFly 5X está precisamente nessa zona cinzenta. Parece uma máquina saída de um filme retrofuturista, recupera uma tecnologia associada à engenharia soviética e tenta convertê-la num brinquedo aquático para o século XXI. Pode nunca vir a tornar-se comum nas praias ou nos lagos, mas já conseguiu uma coisa rara: fazer parecer nova uma ideia com mais de meio século.






