O primeiro carro elétrico desenvolvido de raiz em Portugal vai entrar na operação de um dos maiores grupos de aviação da Europa. A Lufthansa Ground Services Portugal (LGSP) escolheu o BEN, criado pelo CEiiA, para apoiar serviços de rampa e assistência em escala nos aeroportos do Porto e de Lisboa, num projeto que será testado em setembro e que deverá entrar em operação em 2027.
A escolha coloca o pequeno elétrico português no centro de uma operação exigente, marcada por deslocações constantes entre aeronaves, terminais e áreas operacionais. Para Paulo Geisler, CEO da Lufthansa Ground Services Portugal, a decisão resulta de uma convicção clara: “Acreditamos muito neste carro português para os aeroportos. Parece-nos o carro ideal para o aeroporto.”
O acordo será assinado esta segunda-feira, na Casa da Música, no Porto, numa cerimónia que junta a apresentação do BEN, a assinatura do protocolo entre a Lufthansa Ground Services Portugal e o CEiiA e a inauguração da Help Alliance Portugal, a primeira associação da organização sem fins lucrativos do Lufthansa Group criada fora da Alemanha.
“O carro ideal para o aeroporto”
O BEN foi desenhado como um veículo elétrico compacto, com cerca de 2,5 metros, até três lugares e capacidade de carga entre 100 e 400 litros. Estas características pesaram na decisão da Lufthansa Ground Services Portugal, que vê no modelo uma solução ajustada às necessidades de mobilidade dentro dos aeroportos.
Segundo Paulo Geisler, o veículo tem “um espaço bastante razoável para este tipo de carros, inclusive para algum equipamento”, além de “uma autonomia interessante para as operações entre aeronaves”.
A dimensão reduzida do BEN é outro ponto relevante. Em ambiente aeroportuário, onde a circulação é feita em espaços apertados, com regras próprias de segurança e grande pressão operacional, a agilidade pode ser tão importante como a autonomia.
Mas a escolha não se ficou pela configuração física do veículo. Para o responsável da Lufthansa Ground Services Portugal, o BEN destaca-se também pela tecnologia associada. “Para além da parte da redução das emissões e toda a parte tecnológica que está por trás do carro, permite um acompanhamento ao minuto das emissões”, afirmou.
Sem chave, com telemóvel e pensado para uso partilhado
A componente digital foi outro dos fatores valorizados pela operação da Lufthansa. O BEN permite uma utilização partilhada e tecnológica, incluindo acesso sem chave, através do telemóvel.
“Permite facilmente a utilização por várias pessoas, também através da tecnologia, sem chave, com o telemóvel”, explicou Paulo Geisler.
Esta funcionalidade é particularmente relevante numa operação de assistência em escala, onde diferentes equipas podem precisar de usar o mesmo veículo em momentos distintos. A possibilidade de gerir acessos e utilização em tempo real pode tornar o BEN mais adequado a operações rotativas e intensivas, como as que decorrem dentro de um aeroporto.
A Lufthansa Ground Services Portugal vai agora testar o veículo nos aeroportos do Porto e de Lisboa. O objetivo é perceber de que forma o BEN pode responder às necessidades reais da operação e que ajustes podem melhorar ainda mais a sua utilização.
“Entramos com o CEiiA para testarmos este carro no Porto e em Lisboa”, disse Paulo Geisler. “A ideia é poder demonstrar, não só aqui, mas também em outros players do mercado, em outros agentes dos aeroportos, que acreditamos que este carro é o ideal para o aeroporto.”
Sem obras nos aeroportos, mas com margem para evoluir
A adoção do BEN não obrigou, para já, a adaptações físicas nas infraestruturas onde vai operar. Segundo Paulo Geisler, esse foi também um ponto favorável à escolha do veículo.
“Não foi necessário qualquer adaptação no modelo do BEN existente”, afirmou.
Ainda assim, o trabalho entre a Lufthansa Ground Services Portugal e o CEiiA não termina com a escolha do carro. A fase de testes servirá também para perceber como o modelo pode ser afinado para responder ainda melhor às operações em terra.
“Agora podemos, e é isso que vamos fazer, trabalhar em conjunto com o CEiiA para perceber como é que ainda podemos otimizar mais este veículo para apoiar as operações em terra nos aeroportos”, explicou o responsável.
O objetivo é que o BEN não seja apenas colocado ao serviço da operação, mas também adaptado e desenvolvido com base nas exigências concretas do setor aeroportuário.
Uma validação para a engenharia portuguesa
A chegada do BEN à operação da Lufthansa Ground Services Portugal representa uma validação importante para o veículo desenvolvido pelo CEiiA. Pela primeira vez, um grupo aéreo da dimensão da Lufthansa adota o pequeno elétrico português para testar a sua utilização em contexto aeroportuário.
Paulo Geisler sublinha que a escolha tem duas leituras: por um lado, a sustentabilidade; por outro, a confiança na engenharia nacional.
“Obviamente que a sustentabilidade é um dos principais pontos para o Grupo Lufthansa e para todas as empresas do grupo. E, portanto, aqui é óbvio que este carro é o ideal”, afirmou.
Mas o facto de o BEN ser português também contou. “Acreditamos em Portugal. Isto não é novidade nenhuma”, disse o diretor-geral da Lufthansa Ground Services Portugal.
O responsável recorda que a Lufthansa voa para Lisboa há mais de 70 anos e para o Porto há mais de 45, além de ter em Portugal a Lufthansa Ground Services Portugal, com atividade há 15 anos no Porto, Lisboa e Faro. A isto junta-se o investimento da Lufthansa Technik em Portugal.
“O grupo acredita que Portugal é um bom parceiro, é um parceiro de talento e de engenharia”, afirmou Paulo Geisler. “Acho que o BEN é exatamente o resultado disto: sustentável, talento português, engenharia portuguesa. Portanto, tem tudo para resultar.”
Portugal como plataforma de teste
A Lufthansa Ground Services Portugal é a primeira empresa portuguesa 100% detida pelo Lufthansa Group. Com sede no Porto, conta com mais de 360 profissionais e presta apoio operacional a mais de 350 aeroportos e agentes de handling em todo o mundo, através de um modelo de gestão remota de estações desenvolvido a partir de Portugal.
É neste contexto que o BEN entra na operação. A escolha não se limita a introduzir um novo veículo elétrico nos aeroportos do Porto e de Lisboa. Pode funcionar também como montra para outros operadores e outros mercados.
Segundo Paulo Geisler, a ambição passa por demonstrar que o BEN pode ser uma solução para mais agentes aeroportuários. “Queremos demonstrar a outros agentes dos aeroportos que acreditamos que este carro é o ideal para o aeroporto”, afirmou.
O veículo está homologado pela União Europeia, o que significa que pode circular nos Estados-membros. Essa condição dá ao projeto uma dimensão europeia e abre a porta a uma eventual replicação noutras infraestruturas.
Menos emissões, mais controlo da operação
A sustentabilidade é uma das bases da parceria. O BEN integra um contador de emissões de dióxido de carbono evitadas, permitindo medir em tempo real o impacto ambiental da sua utilização.
Para a Lufthansa Ground Services Portugal, esta capacidade de medição é relevante porque permite associar a mobilidade elétrica a dados concretos. O veículo não é apenas elétrico: permite também acompanhar e quantificar a redução de emissões.
Paulo Geisler destaca precisamente essa componente. O BEN, diz, permite “um acompanhamento ao minuto das emissões” e enquadra-se na estratégia do Lufthansa Group para reduzir a pegada ambiental das suas operações.
Nas operações de assistência em escala, as deslocações entre aeronaves, terminais e zonas técnicas são constantes. Um veículo compacto, elétrico e partilhável pode reduzir consumos, baixar emissões e tornar mais eficiente a circulação em ambiente aeroportuário.
Do aeroporto à comunidade
Embora o foco principal esteja na operação aeroportuária, o acordo com o CEiiA tem também uma vertente social. Em paralelo com a escolha do BEN para os aeroportos, será assinado um protocolo ligado ao conceito de “BEN social”, associado à Help Alliance Portugal.
A Help Alliance é a organização de responsabilidade social do Lufthansa Group. A associação portuguesa será a primeira criada fora da Alemanha e nasce com a missão de apoiar projetos nas áreas da educação, inclusão social e oportunidades para crianças, jovens e comunidades vulneráveis.
“Hoje à noite vamos assinar com o CEiiA um protocolo de colaboração para desenvolver o conceito de BEN social”, explicou Paulo Geisler.
A ideia passa por estudar formas de usar o BEN em projetos-piloto com instituições sociais, promovendo mobilidade sustentável e novos modelos de utilização partilhada.
“Achamos que este BEN social também tem uma força muito grande e adapta-se muito bem a estas instituições sociais”, afirmou.
Um carro para associações e projetos locais
Segundo Paulo Geisler, o BEN pode ser particularmente útil para associações que precisam de soluções de mobilidade acessíveis, sustentáveis e partilháveis.
“O BEN é o carro ideal, uma vez que pode ser partilhado. É um carro citadino, com autonomia, é sustentável e tem um valor bastante acessível”, defendeu.
A Help Alliance Portugal já está ligada a projetos como a Associação Bagos d’Ouro, no Douro, e a Associação MEERU, no Porto, que trabalha com mulheres migrantes. O objetivo, explicou o responsável, é criar uma plataforma que aproxime empresas e associações.
“Muitas vezes, uma empresa sozinha não consegue fazer nada e uma associação sozinha não consegue fazer nada. Queremos ter aqui um agregador em Portugal para ajudar este tipo de associações”, afirmou.
Neste modelo, o BEN pode servir não apenas a operação aeroportuária, mas também a mobilidade de organizações sociais. “Vemos este projeto do BEN social como uma forma muito interessante de melhorar a vida destas associações e, ao mesmo tempo, contribuir para a redução do CO2 e para a sustentabilidade”, disse Paulo Geisler.
Primeiro os testes, depois a operação
O calendário já está definido. O BEN será testado nos aeroportos do Porto e de Lisboa a partir de setembro, com o objetivo de entrar em operação em 2027.
A fase-piloto servirá para avaliar a autonomia, a utilização partilhada, a integração tecnológica e a adaptação às rotinas das equipas em terra. Servirá também para perceber de que forma o veículo pode ser otimizado para o ambiente aeroportuário.
Se os testes confirmarem as expectativas, o pequeno elétrico português poderá ganhar uma projeção que vai além da Lufthansa Ground Services Portugal. Para já, a escolha representa um passo importante para o BEN e para a engenharia nacional.
Da rampa dos aeroportos à possibilidade de utilização por associações, o BEN surge como o elo entre três dimensões: mobilidade elétrica, operação aeroportuária e impacto social. Mas o ponto de partida é claro: a Lufthansa escolheu um carro português para testar no coração da sua operação em terra.






