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Marca esquecida dos irmãos Maserati renasce quase 60 anos depois: estreia-se com um SUV chinês, mas promete uma surpresa para os puristas

Marca esquecida dos irmãos Maserati renasce quase 60 anos depois: estreia-se com um SUV chinês, mas promete uma surpresa para os puristas
Francisco Laranjeira

Recuperação da OSCA integra um projeto liderado por Massimo Di Risio, fundador da DR Automobiles, grupo italiano conhecido pela comercialização de automóveis de origem chinesa adaptados ao mercado europeu

Durante décadas, a OSCA foi pouco mais do que uma memória entre os apaixonados pela história automóvel italiana. Fundada pelos irmãos Maserati em 1947, construiu pequenos desportivos e automóveis de competição que conquistaram vitórias importantes. Agora, quase 60 anos depois do seu desaparecimento, a marca iniciou uma nova etapa. Mas o primeiro modelo desta era está longe daquilo que os seus fundadores teriam imaginado.

A recuperação da OSCA integra um projeto liderado por Massimo Di Risio, fundador da DR Automobiles, grupo italiano conhecido pela comercialização de automóveis de origem chinesa adaptados ao mercado europeu.

O regresso materializou-se em junho de 2026, no circuito de Imola, com a apresentação do MT6, um SUV-coupé baseado na plataforma do Changan UNI-T. A escolha pode parecer surpreendente para uma marca nascida nas pistas, mas faz parte de uma estratégia que pretende combinar modelos de maior volume comercial com automóveis mais exclusivos.

Segundo o ‘Motor1’, a nova OSCA aposta numa identidade visual própria e num trabalho de desenvolvimento realizado em Itália, embora a base técnica do primeiro modelo tenha origem chinesa.

E é precisamente no futuro da marca que surge a possibilidade de recuperar parte da sua herança desportiva.

A outra marca dos irmãos Maserati

Para compreender a importância deste regresso, é necessário viajar até 1947.

Nesse ano, Ernesto, Ettore e Bindo Maserati fundaram, nos arredores de Bolonha, a Officine Specializzate Costruzione Automobili, mais conhecida pela sigla OSCA.

Os três irmãos tinham deixado a empresa que ostentava o nome da família, depois de a Maserati ter sido vendida à família Orsi em 1937, e decidiram concentrar-se naquilo que melhor conheciam: a construção de automóveis desportivos e de competição.

Ao contrário dos grandes fabricantes, a OSCA apostou em modelos compactos, leves e tecnicamente sofisticados, desenvolvidos para competir com adversários frequentemente mais potentes.

Um dos primeiros automóveis foi o MT4, apresentado em 1948. Nesse mesmo ano, Luigi Villoresi conquistou uma vitória no Grande Prémio de Nápoles, iniciando uma trajetória que levaria a pequena empresa italiana a algumas das provas mais importantes do automobilismo internacional.

O momento de maior notoriedade chegou em 1954, quando Stirling Moss e Bill Lloyd venceram as 12 Horas de Sebring ao volante de um OSCA MT4, superando adversários de fabricantes muito mais poderosos.

A marca ficou associada aos pequenos desportivos de competição, capazes de compensar a menor cilindrada dos motores com baixo peso, agilidade e soluções mecânicas avançadas.

A OSCA também produziu automóveis de estrada em pequenas séries, recorrendo a carroçarias de especialistas italianos como Zagato, Frua e Vignale.

Apesar do prestígio conquistado nas pistas, nunca se transformou num fabricante de grande dimensão. Em 1963, o controlo da empresa passou para o grupo MV Agusta e, quatro anos depois, a atividade terminou.

O nome OSCA permaneceu, desde então, sobretudo na memória dos colecionadores e dos conhecedores da história do automobilismo.

O regresso começa com um SUV de origem chinesa

A nova OSCA apresenta uma realidade bastante diferente.

O MT6 utiliza uma plataforma de origem Changan e apresenta uma carroçaria SUV-coupé com 4,52 metros de comprimento, uma dianteira dominada por uma grande grelha octogonal e vários elementos em fibra de carbono.

O desenho foi desenvolvido pelo centro de estilo Fabbrica Italia, com a colaboração da Italdesign, procurando estabelecer uma identidade própria para o modelo.

No habitáculo, a aposta passa por uma apresentação desportiva, com bancos desenvolvidos em colaboração com a Recaro, revestimentos em pele e Alcantara e dois ecrãs de 10,25 polegadas.

O motor é um quatro cilindros 1.5 turbo a gasolina, com 180 cv, associado a uma caixa automática de dupla embraiagem de sete velocidades. A potência é transmitida às rodas dianteiras.

A marca anunciou um trabalho específico de desenvolvimento para o mercado europeu, conduzido por uma equipa liderada pelo engenheiro Roberto Fedeli, com experiência anterior em fabricantes como Ferrari, Maserati e Alfa Romeo.

As intervenções abrangeram a gestão eletrónica do motor, a suspensão, os amortecedores e o sistema de travagem. O escape contou com a participação da especialista italiana Tubi Style.

Em Itália, o preço anunciado para o MT6 foi de 49 mil euros, numa configuração bastante equipada.

O contraste com a história da marca é evidente. A empresa que nasceu para construir pequenos automóveis de competição regressou com um SUV baseado numa plataforma chinesa, embora com alterações de estilo e desenvolvimento técnico realizados em Itália.

E a estratégia não termina neste modelo.

Outro SUV antes do verdadeiro desportivo

A OSCA anunciou também o MT8, um segundo SUV-coupé que deverá alargar a gama.

Com aproximadamente 4,87 metros de comprimento, o MT8 mantém a filosofia do modelo mais pequeno, mas utiliza um motor 2.0 turbo de 250 cv e prevê versões de tração dianteira ou integral.

Contudo, o projeto mais interessante para os entusiastas da história da marca é um desportivo de dois lugares, com motor central, que a OSCA pretende lançar em 2027, precisamente no ano em que assinala o 80.º aniversário da sua fundação.

De acordo com a agência italiana Askanews, Massimo Di Risio confirmou que o automóvel deverá utilizar uma plataforma britânica e um motor V6 de 3,5 litros sobrealimentado.

Estas características levaram várias publicações especializadas a apontar o Lotus Emira como a provável base técnica do futuro modelo.

A hipótese é particularmente interessante porque o desportivo britânico utiliza um motor V6 de origem Toyota, com compressor volumétrico, numa configuração que desenvolve cerca de 400 cv.

A eventual ligação à Lotus permitiria recuperar uma fórmula bastante mais próxima da identidade original da OSCA: motor central, tração traseira e uma arquitetura concebida para privilegiar o comportamento dinâmico.

O desenvolvimento do novo automóvel deverá envolver a Italdesign e a equipa técnica da Historic Italian Brands, enquanto a afinação dinâmica ficará sob responsabilidade de Roberto Fedeli.

A intenção anunciada é apresentar um protótipo até ao final de 2026 e iniciar a comercialização em 2027, com um preço inferior a 200 mil euros.

Importa, contudo, distinguir os planos anunciados de um automóvel já concretizado. A plataforma definitiva, as especificações técnicas completas e o calendário de produção ainda carecem de confirmação.

Um regresso que também levanta dúvidas

A recuperação de uma marca histórica não garante, por si só, o regresso da filosofia que a tornou conhecida.

No caso da OSCA, existe ainda uma questão relacionada com o grupo responsável pelo projeto.

Em 2024, a autoridade italiana da concorrência aplicou uma multa de seis milhões de euros à DR Automobiles e à sua subsidiária DR Service & Parts por duas práticas comerciais desleais.

A investigação concluiu que a origem chinesa de determinados automóveis comercializados sob as marcas DR e EVO tinha sido apresentada de forma enganadora, sugerindo uma produção italiana. A autoridade identificou também problemas no fornecimento de peças e no serviço pós-venda.

A decisão dizia respeito à atividade dessas empresas e não aos novos modelos OSCA, mas ajuda a explicar a importância da transparência sobre a origem e o desenvolvimento dos automóveis desta nova fase.

Também por isso, o futuro desportivo poderá assumir um papel decisivo na credibilidade da marca.

Se os MT6 e MT8 representam uma aposta comercial no segmento dos SUV, o anunciado modelo com motor V6 poderá estabelecer uma ligação mais convincente ao passado.

Afinal, a OSCA original não construiu a sua reputação com grandes volumes de produção, mas com pequenos desportivos capazes de enfrentar adversários muito mais poderosos.

Quase 80 anos depois da fundação, o nome criado pelos irmãos Maserati voltou a aparecer num automóvel novo.

Resta saber se esta nova etapa ficará sobretudo associada aos SUV de origem chinesa ou se o prometido desportivo conseguirá recuperar uma parte do espírito que tornou a OSCA numa das pequenas marcas mais interessantes da história automóvel italiana.