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De um Citroën 2CV a uma coleção de 120 carros: a incrível história de um francês que decidiu preservar o passado

De um Citroën 2CV a uma coleção de 120 carros: a incrível história de um francês que decidiu preservar o passado
Francisco Laranjeira

Extraordinária coleção está reunida no CitroMuseum, em Castellane, no sul de França

Há quem colecione miniaturas de automóveis e há quem prefira guardar os originais. Henri Fradet levou esta paixão a outro nível: passou cerca de 40 anos a reunir mais de 120 Citroën, muitos deles em estado praticamente novo, e criou um museu onde é possível viajar por várias décadas da história da marca francesa. Entre os exemplares encontram-se um 2CV com apenas 726 quilómetros e um dos primeiros Citroën DS alguma vez produzidos.

A extraordinária coleção está reunida no CitroMuseum, em Castellane, no sul de França, e foi recentemente revisitada pela revista britânica ‘Autocar’, que destacou não apenas a quantidade de automóveis, mas sobretudo o estado de conservação e as histórias invulgares que acompanham muitos deles.

Ao contrário de outros colecionadores, Fradet não procura necessariamente os automóveis mais caros ou os mais potentes. A sua preferência recai sobre exemplares originais, pouco utilizados e, sempre que possível, nunca restaurados.

O resultado é uma coleção onde o tempo parece ter parado.

Tudo começou com um 2CV comprado em 1979

A história começou quando Henri Fradet comprou um Citroën 2CV AZLP de 1959, que tinha percorrido aproximadamente 5.000 quilómetros.

Foi o seu primeiro automóvel clássico e acabou por despertar uma paixão que se prolongaria durante décadas.

Fradet utilizou-o até o conta-quilómetros atingir cerca de 13.000 quilómetros, altura em que decidiu preservá-lo.

A partir daí, começou a procurar outros Citroën em condições semelhantes, percorrendo França à procura de exemplares que tivessem escapado ao desgaste do tempo.

Nem sempre foi fácil convencer os proprietários a vender.

Um dos casos mais curiosos envolveu um Citroën 2CV A de 1954, que tinha sido comprado para transportar um familiar idoso aos passeios de domingo.

Depois da morte desse familiar, em 1958, o automóvel ficou praticamente esquecido numa garagem.

Foi descoberto por um entusiasta em 1991, mas foram necessários quatro anos de negociações até a proprietária aceitar vendê-lo.

O resultado é um 2CV com apenas 7.300 quilómetros, que conserva inclusivamente o papel castanho utilizado pela fábrica para proteger os painéis interiores das portas.

Um Citroën DS de 1955 que é uma verdadeira raridade

Entre os automóveis mais importantes da coleção encontra-se um Citroën DS de 1955, identificado pelo número de chassis 32.

Segundo a ‘Autocar’, trata-se do 14.º DS comercializado e do mais antigo exemplar de produção conhecido que chegou aos nossos dias.

A sua importância histórica é enorme.

O Citroën DS foi apresentado em outubro de 1955 e tornou-se um dos automóveis mais inovadores da sua época, graças ao desenho futurista e a soluções técnicas como a suspensão hidropneumática.

O exemplar de Fradet foi originalmente entregue a um concessionário de Valence, em França, para servir como veículo de demonstração.

Em vez de regressar à Citroën, acabou por ser vendido a um cliente habitual do concessionário.

Depois de passar por vários proprietários e permanecer durante 13 anos num museu dos Países Baixos, entrou para a coleção em 2004.

É uma das principais atrações do CitroMuseum.

Há quem tenha dificuldade em escolher um carro. Henri Fradet resolveu o problema comprando 120, todos Citroën! Para mais histórias que merecem lugar na garagem dos sonhos, acompanhe a Automonitor no LinkedIn e no Instagram.

Um 2CV com 726 quilómetros e outro que só fez 21

Se há automóveis capazes de surpreender os visitantes, são os Citroën 2CV que praticamente não chegaram a ser utilizados.

Um deles é um 2CV Charleston de 1990, adquirido novo por um dos dois irmãos que decidiram comprar um exemplar cada quando souberam que a produção do modelo estava prestes a terminar.

Os dois automóveis foram utilizados durante cerca de seis meses, sobretudo para beneficiar do programa de manutenção gratuita da Citroën, antes de serem guardados durante mais de duas décadas.

Um acabou por entrar na coleção de Fradet com apenas 726 quilómetros.

O outro, que permanece na posse do proprietário, tinha percorrido somente 21 quilómetros quando foi documentado pela Autocar.

Há ainda um 2CV6 CT de 1984, produzido em Espanha, que apresenta apenas 84 quilómetros.

Este exemplar foi comprado por um concessionário da Andaluzia com a intenção de o preservar sem o utilizar ou sequer matricular.

De um Ami 6 a um raro DS descapotável

A coleção não se limita aos 2CV.

Um Citroën Ami 6 de 1963, reconhecível pela sua invulgar linha de tejadilho, passou cerca de 30 anos guardado numa garagem.

A proprietária tinha-o comprado para transportar a mãe e, depois da morte desta, deixou praticamente de o utilizar.

Quando decidiu vendê-lo, o automóvel tinha percorrido apenas 2.800 quilómetros.

Outro destaque é um Citroën DS 21 Cabriolet de 1966, transformado pelo célebre construtor de carroçarias Henri Chapron, segundo planos autorizados pela Citroën.

Trata-se de um dos 1.365 exemplares produzidos desta versão, particularmente cobiçada pelos colecionadores.

Ao contrário da maioria dos automóveis do museu, este DS foi parcialmente restaurado há cerca de três décadas.

Um museu com 2.500 metros quadrados de história

O CitroMuseum ocupa um espaço de aproximadamente 2.500 metros quadrados, dividido em três grandes áreas.

A primeira reúne modelos como o Traction Avant e diferentes versões do DS e do ID.

A segunda é dedicada ao 2CV e aos seus numerosos derivados.

A terceira concentra automóveis das décadas de 1970, 1980 e 1990, incluindo modelos que começam agora a ganhar maior reconhecimento entre os colecionadores.

Mas o museu não é apenas uma exposição de automóveis.

O espaço inclui documentação histórica, peças publicitárias, miniaturas, letreiros de concessionários e até a recriação de uma estação de serviço dos anos 1970.

Segundo o próprio CitroMuseum, a quilometragem média dos automóveis expostos ronda os 20.000 quilómetros, sendo que muitos ainda conservam a pintura original.

Cada veículo tem uma ficha com a sua história, as circunstâncias em que foi adquirido e a explicação para a sua reduzida utilização.

É precisamente essa preocupação que distingue a coleção.

Henri Fradet não procurou apenas reunir 120 Citroën. Procurou preservar os automóveis tal como eram quando saíram da fábrica, juntamente com as histórias das pessoas que os compraram e conduziram.

E, numa época em que muitos clássicos passam por restauros profundos, encontrar tantos exemplares praticamente intocados transforma este museu num testemunho invulgar da história automóvel francesa.